Vida e Saúde

Redução do estômago por endoscopia: entenda essa nova técnica

Atualizado em: 14/11/2017

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A redução do estômago por endoscopia é uma nova técnica no combate à obesidade, que realiza a redução da capacidade do estômago pela sutura (ou costura) de suas paredes internas. Esse processo diminuiu a quantidade que o paciente consegue comer, promovendo saciedade precoce e duradoura.
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Endoscopia – CRM 91960/SP
O procedimento não chega a ser uma cirurgia, e nele o endoscopista usa um aparelho específico para costurar as paredes do estômago, aproximando-as e deixando a região menor. Após seis semanas, essa costura se torna irreversível.

Diferente das cirurgias bariátricas, no entanto, esse tratamento tem um tempo de recuperação mais curto, mas uma perspectiva de emagrecimento um pouco menor.

Essa técnica de redução está sendo realizada há mais de dois anos em outros países, especialmente Estados Unidos e Espanha, em grandes centros médicos como Mayo Clinic, Hospital de Harvard, Universidade de Cornell, entre outros. No Brasil, ela foi aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em julho de 2017.

Entenda, a seguir, para quem essa técnica é indicada, quais são os resultados esperados e como ela é feita:

Outros nomes

Gastroplastia Redutora Endoscópica, Endosutura Gástrica

Indicações de redução de estômago por endoscopia

Esse procedimento está bem indicado para aqueles pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) entre 30 e 40, ou seja, para pessoas que precisam perder entre 15 a 30 kg de forma sustentável.

Pode ser indicado para pacientes obesos mórbidos, ou seja, IMC maior que 40, quando estes não podem ou não querem ser operados, atentando que esse método não promoverá a mesma perda que as cirurgias bariátricas.

É bem indicado para pacientes que já falharam no tratamento da obesidade com dietas, exercícios ou medicamentos e também não obtiveram o resultado desejado com o balão intragástrico.

O tratamento se dá pela redução da capacidade do estômago em receber a comida ingerida promovendo efeito restritivo, bem como dificulta a drenagem desta comida para o intestino, ou seja, promoção de saciedade precoce e mais duradoura. A comida ingerida fica depositada mais tempo no fundo gástrico alterando a produção hormonal responsável pela fome e a restrição também retarda o esvaziamento do estômago. Isso ajuda o paciente a promover reeducação alimentar, mudança de hábitos, mudança de estilo de vida e, por consequência, perda de peso.

Além disso, a redução de estômago por endoscopia pode ser feita em pessoas que já reduziram o estômago anteriormente, seja através de uma cirurgia bariátrica ou mesmo em uma redução endoscópica anterior. Como cada vez mais o índice de reganho de peso nas cirurgias bariátricas vem aumentando, não só em frequência como em quantidade de quilos.

Contraindicações da redução de estômago por endoscopia

No entanto, nem todas as pessoas com excesso de peso podem realizar esse procedimento. Pessoas acima de 65 anos, por exemplo, não são recomendadas.

Pessoas que portam ou portaram alguma doença importante no estômago, tais como varizes e tumores prévios estão contraindicadas. Também pacientes com lesões pré-cancerígenas, em uso crônico de anticoagulantes, portadores de distúrbios alimentares graves tais como bulimia e compulsões não se pode indicar. O mesmo acontece com pacientes portadores de transtornos psiquiátricos graves.

Qualquer pessoa que não está disposta a aderir a um programa multidisciplinar com acompanhamento de nutricionista, psicólogo e médicos e a promover mudanças de hábitos e estilo de vida.

Pré-procedimento

A rotina de exames para realização deste procedimento segue o mesmo protocolo da cirurgia bariátrica, já que se trata de um procedimento irreversível, sob anestesia geral e em pacientes obesos. Então é necessária a realização de vários exames de sangue, principalmente para avaliar doenças metabólicas e hormonais, tais como diabetes e hipotireoidismo, que devem ser corrigidas para não atrapalharem o emagrecimento.

Também são usados para verificar deficiências vitamínicas, problemas de coagulação do sangue, perfil lipídico e exames que o anestesista necessita para realização da anestesia geral.

Da mesma forma, serão necessários exames de imagem como ultrassom e tomografia de abdômen, ecocardiógrafa, eletrocardiograma, raio-x de tórax e principalmente endoscopia digestiva para averiguar e avaliar o estômago que será definitivamente alterado.

Cuidados

Após a realização de todos os exames, o paciente deve passar em avaliação com o cardiologista para avaliar o risco cirúrgico, com o psicólogo para avaliar distúrbios alimentares e com quantos profissionais o médico julgar necessário.

Após todas as liberações desses profissionais o procedimento é agendado. O procedimento é ambulatorial, com alta no mesmo dia, portanto solicita-se jejum de pelo menos 8 horas.

Como a redução do estômago por endoscopia é feita?

A redução de estômago por endoscopia é realizada sob anestesia geral. Nesse procedimento não há qualquer corte ou cicatriz, pois a endosutura é realizada por um aparelho que adentra ao estômago pela boca, como é feita uma endoscopia. É acoplado na ponta do aparelho de endoscopia um dispositivo, chamado overstitch (literalmente “costurador” em inglês), que fará a costura do estômago internamente.

O estômago é dividido em três partes anatômicas: fundo, corpo e antro. A costura é realizada apenas na parte do corpo gástrico, em sua grande curvatura, que corresponde a 2/3 de todo o estômago. São realizados de 3 a 4 linhas de suturas, aproximando internamente as paredes do estômago, tornando-o no formato de uma banana. É um procedimento que leva em média de 40 a 50 minutos, o paciente recebe alta 2 a 4 horas após as execuções.

Qual médico está habilitado para realizar o procedimento?

Por se tratar de um procedimento endoscópico, é natural que o médico habilitado a realiza-lo é o endoscopista. Esse médico fez residência em endoscopia após ter feito residência médica previamente em cirurgia, gastrenterologia ou clínica médica. Quem confere o título de especialista para esse profissional é a Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (SOBED). Em mãos habilitadas a segurança e a eficácia do procedimento aumenta consideravelmente já que é um procedimento operador-dependente.

Cuidados após a redução por endoscopia?

A quantidade de sintomas que o paciente irá sentir após esse procedimento é muito pequena. Raramente o paciente reclama de dor, mas é comum que sinta leves náuseas, que são facilmente tratadas com medicamentos adequados. A maioria dos pacientes não reportam sintomas, o que é bem diferente em contraste com o balão intragástrico e a cirurgia bariátrica.

Mas após o procedimento alguns cuidados são importantes:

  • Seguir as recomendações médicas
  • Repouso por 2 a 3 dias após o procedimento e retorno às atividades laborais após esse período
  • Seguir a prescrição dos medicamentos. São prescritos medicamentos para proteger o estômago, para evitar infecções, dor e vômitos e medicamentos para prevenir complicações.

Seis semanas é considerado um período crítico, por que é o tempo que se leva para estabilização dos pontos dados e para que as paredes do estômago colem uma na outra tornando irreversível a partir desse momento. Se não for observado as recomendações, os pontos dados podem se alargar nesse período diminuindo os efeitos restritivos conseguidos com a endosutura endoscópica. Por isso, nesse período é indicado que o paciente:

  • Evite fazer levantamento de peso
  • Siga uma dieta bastante restritiva que evolui por líquidos, cremosos e pastosos. Somente após esse período será possível realmente comer algum sólido e isto sob orientação do nutricionista que avalia quantidade e tipo
  • Evite uso de bebidas alcoólicas e qualquer esforço de vômito, que devem sempre ser coibidos imediatamente por medicamentos.

Além disso, normalmente os protocolos exigem acompanhamento com nutricionista por um ano e com o médico executante por pelo menos seis meses. Seguir o acompanhamento com psicólogo e endocrinologista se necessário.

Podem ser necessários correções plásticas estéticas quando se perde muito peso. Afora isso não é necessário ter outros tipos de tratamentos, salvo aqueles que o paciente já fazia antes mesmo do procedimento, como para diabetes, pressão alta, etc.

Complicações possíveis na redução do estômago por endoscopia

Nos mais de 2000 casos realizados no mundo, o índice de complicações tem sido extremamente baixo quando o procedimento é realizado por endoscopistas treinados, em serviços apropriados, em pacientes bem selecionados e comprometidos.

As principais complicações ocorreram no início da técnica quando se costurava todo o estômago (fundo, corpo e antro). Houveram raros casos de infecção fora do estômago, perfuração de vísceras vizinhas ao estômago e ruptura precoce dos pontos. Infecção e perfuração ocorreram quando se realizava a sutura do fundo do estômago e o rompimento precoce quando se costurava o antro, pois este é muito musculoso e tem contrações extremamente fortes. Não houveram até o momento óbitos causados diretamente pela técnica.

Já que a técnica envolve a costura total da parede gástrica por uma agulha, há riscos de hemorragia e quando acontecem são facilmente coibidas pelos próprios pontos dados.

No entanto, há riscos inerentes ao próprio ato anestésico necessário para o procedimento. Há riscos inerentes a qualquer método invasivo, tais como embolia pulmonar e tromboses, que estão mais relacionadas a condição de obesidade do paciente do que a própria técnica.

A redução de estômago em todos os estudos clínicos publicados tem se mostrado realmente como um método muito seguro, seja a curto ou longo prazo.

Resultados esperados

Os resultados publicados até o momento são promissores. A média de perda de peso no primeiro ano de procedimento está entre 20 e 30% do peso total antes da cirurgia. A média de perda do excesso de peso está em torno de 50%. Esses índices de sucesso e perda são bastantes similares ao do balão gástrico, com uma diferença, é mais sustentável que aquele método.

Apesar desses resultados, como toda técnica, há também insucesso no tratamento, que está na média de 15% de todos os pacientes. Da mesma forma, mesmo o paciente tendo perdido peso considerável, há chances de reganho de peso em torno de 20% dos pacientes. Ou seja, de um total de 100 pacientes, 15 pacientes perderão pouco peso e 20 reganharão o que perderam. Esses índices, de reganho e insucesso, são muito similares ao da cirurgia bariátrica de gastrectomia vertical (Sleeve). Mas o índice de reganho é bem inferior quando comparado ao balão gástrico, que gira em torno de 40% dos pacientes.

Compare a redução do estômago por endoscopia com outros procedimentos

A redução do estômago por endoscopia não pode e nem deve ser comparada com qualquer cirurgia bariátrica, seja nos resultados, riscos, escolha do paciente, propósito ou no método executado.

Uma sutura endoscópica tem várias aplicações, inclusive reduzir o volume gástrico através da aproximação de suas paredes, o que é bem diferente do propósito da cirurgia, que realmente remove o estômago de forma controlada pelo cirurgião e que altera definitivamente toda a fisiologia gástrica.

No entanto, ele pode ser comparado ao balão intragástrico, técnica em que um dispositivo inflável é colocado no estômago, ocupando espaço e também promovendo uma saciedade precoce e duradoura. No entanto, o balão precisa ser retirado após seis ou doze meses.

Para que estas diferenças fiquem mais claras, veja a tabela abaixo:

BALÃO GÁSTRICOREDUÇÃO ENDOSCÓPICACIRURGIA BARIÁTRICA
Procedimento endoscópicoProcedimento endoscópicoCirurgia
Temporário – 6 a 12 mesesReversível até 6 semanasIrreversível
Acesso via oral (pela boca)Acesso via oralPor vide laparoscopia
Perda média de 20% do peso inicialPerda média de 30% do peso inicialPerda média de 40% do peso inicial
Para IMC* entre 27-40Para IMC entre 30- 40Para IMC acima de 35
Sedação endoscópicaAnestesia geralAnestesia geral
Clínica ou hospitalClínica com suporte avançado de vida ou hospitalSomente Hospital
Recuperação de 7 dias ou maisRecuperação de 2 diasRecuperação de 15 a 30 dias
Baixo índice de complicaçõesBaixo índice de complicaçõesMaior índice de complicações
Nenhuma cicatrizNenhuma cicatrizTipicamente 4 a 5 pequenas cicatrizes laparoscópicas
Custo relativamente baixoCusto altoCusto alto
Somente particularSomente particularConvênios eventualmente cobrem a cirurgia
Idade mínima e máxima a critério médicoIdade mínima a critério médico e máximo 65 anosIdade mínima 18 anos e máxima 65 anos

*IMC = peso em kg dividido pela (altura em metros x altura em metros)

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