Vida e Saúde

Mulher paralisada mexe braço-robô com a mente

Atualizado em: 17/05/2012

Cathy Hutchinson, 59, gosta de beber café todo dia. Mas, numa manhã de abril de 2011, esse ritual teve um sabor especial: 15 anos após ficar tetraplégica, ela conseguiu erguer uma garrafa com a bebida e levá-la à boca sozinha.

Com um chip implantado em seu cérebro, ela usou apenas o pensamento para controlar um braço robótico conectado ao dispositivo.

Foi a primeira vez que uma pessoa conseguiu manipular um aparelho mecânico usando esse tipo de interface. O dispositivo usado para ler os sinais dos neurônios foi o Braingate, criado por cientistas da Universidade Brown, nos EUA (veja quadro acima).

O invento já havia funcionado em 2006, num experimento em que Hutchinson e outros voluntários usaram o pensamento para mover um cursor de computador. Agora, esse controle também ocorre no mundo físico.

A pesquisa está na edição de hoje da revista “Nature”. Um segundo paciente, de 66 anos, também participou dos experimentos, com sucesso.

John Donoghue, cientista que criou o Braingate, afirma que ainda é preciso esperar muitos anos para que o invento se torne viável comercialmente, mas considera que o êxito abre boas perspectivas.

“É um marco porque o chip continuou produzindo sinais úteis mais de cinco anos depois de ser implantado”, diz.

PRECISÃO

“Também foi encorajador ver que, 15 anos após seu cérebro ter sido desconectado dos membros, por causa de um derrame no tronco cerebral, ela ainda era capaz de gerar toda a atividade nervosa dos movimentos precisos.”

Segundo Donoghue, a meta é gerar sinais úteis não apenas para braços biônicos no futuro, mas também para aparelhos capazes de transmitir sinais elétricos diretamente aos músculos.

Dessa forma, a tecnologia pode devolver o movimento tanto a vítimas de lesões no sistema nervoso quanto a pacientes que tenham sofrido amputações. Não por acaso, um dos principais financiadores do trabalho é o Departamento de Veteranos de guerra dos EUA.

Uma das principais inovações no braço robótico DLR, usado no experimento, são funções automatizadas que facilitam seu controle.

Quando Hutchinson agarrou a garrafa de café, por exemplo, o dispositivo a ergueu sozinho. Perto de sua boca, o DLR entornou a garrafa levemente, sem que a paciente precisasse controlar movimentos mais precisos.

CORRIDA

O sucesso do Braingate ocorreu em meio a um certo clima de corrida entre pesquisadores da área.

O grupo liderado pelo brasileiro Miguel Nicolelis na Universidade Duke, também nos EUA, havia anunciado em outubro do ano passado seu sucesso num experimento similar, no qual macacos conseguiram movimentar braços mecânicos e demonstraram sensação de toque.

“Até onde eu sei, fizemos o único teste da tecnologia em humanos”, diz Donoghue. Nicolelis não estava disponível para comentar o estudo da “Nature” nesta quarta-feira (16).

Ainda resta saber como alavancar o desenvolvimento comercial da tecnologia.

A Cyberkinetics, empresa que Donoghue tinha fundado com esse fim, faliu após a crise econômica de 2008. O cientista diz esperar que os bons resultados tragam novos investimentos.

Folha Online

Vida e Saúde