Vida e Saúde

Muita informação para a sua cabeça

Atualizado em: 13/07/2015

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Você está sempre conectado? Lê imediatamente todos os e-mails que chegam na sua caixa postal? Mesmo assim, tem a sensação de que precisa estar mais atualizado? Saiba que esses são alguns sinais de quem sofre de ansiedade de informação, um tipo de transtorno que vem se tornando cada vez mais comum na sociedade moderna. Para se ter uma ideia do potencial do problema, hoje produzimos milhares de vezes mais informações em um ano do que todas as gerações que nos antecederam e, provavelmente, você recebe em um mês mais informação do que o seu tataravô teve acesso durante toda a vida.

A designer Natalia Zapella, 27 anos, possui características de quem sofre com isso. Ela trabalha em casa e fica on-line 24 horas por dia, não desliga o computador nem na hora de dormir. “Tenho um sistema que avisa quando chegam e-mails. Vejo do que se trata e, se for importante, respondo na hora. Caso contrário, tento manter a concentração na outra coisa que estou fazendo”, conta Natalia.

Ela relata que, ao acordar, ainda na cama e antes de tomar café da manhã, olha os e-mails que recebeu pelo telefone. “Vejo se tenho de levantar ou se posso dormir mais”, diz. Para se distrair, na pausa entre um trabalho e outro, Natalia lê quatro ou cinco portais de notícias, além de se atualizar sobre o que os amigos postam nas redes sociais, especialmente no Facebook.

A jovem diz que recebe centenas de mensagens por dia. “Às vezes me sinto atrapalhada com tanta informação e tenho de parar para entender uma coisa de cada vez. Tento criar um processo para responder os e-mails porque se fico olhando penso em tudo o que tenho para fazer.”

Provavelmente, você recebe em um mês mais informação do que o seu tataravô teve acesso durante toda a vida

Informar e compreender

Assim como Natalia, muitas pessoas podem estar vivendo o que se convencionou chamar ansiedade de informação. O termo é novo. Foi criado há cerca de 10 anos pelo designer e arquiteto norte-americano Richard Saul Wurman, autor do livro Ansiedade da informação: como transformar informação em compreensão (Ed. Cultura).

Para ele, esse transtorno é causado pela avalanche de informações que recebemos todos os dias sem sermos capazes de entendê-las ou selecioná-las. “A ansiedade de informação é a lacuna entre o que você acha que deveria saber e aquilo que você realmente é capaz de compreender”, explica Wurman.

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CYBERCONDRÍACOS
São aquelas pessoas reconhecidas como hipocondríacas que pesquisam o tempo todo sobre doenças na internet e começam a acreditar que estão doentes.

DATAHOLICS
São os fissurados por informação, que precisam checar o mesmo dado em diversas fontes para estarem seguros. Mas sentem-se ansiosos por não preencherem essa busca desenfreada por informação.

BULIMIA INFORMACIONAL
É a necessidade compulsiva de coletar informações em grande quantidade, sem critério, seleção ou preocupação com a qualidade e confiabilidade dos dados.

OBESIDADE INFORMACIONAL
Pode ser uma consequência da bulimia informacional e ocorre quando se tem excesso de informações desnecessárias e irrelevantes que, quando acumuladas, prejudicam o aprendizado que poderia ser útil.

Usar ou ser usado

Apesar de ainda não ser classificada como uma patologia, especialistas são unânimes em dizer que essa ansiedade afeta a saúde e a qualidade de vida das pessoas, principalmente devido ao ritmo acelerado e à abundância de dados proporcionados pelas novas tecnologias. “Nossa capacidade de seleção tem de fazer parte do nosso aprendizado. Temos de perguntar: eu uso a tecnologia ou é ela que está me usando? Se ela não trouxer conforto então fizemos alguma coisa errada, não ao inventá-la, mas em como lidamos com ela”, analisa o médico Roberto Cardoso, coordenador de medicina comportamental do Femme Laboratório da Mulher (SP).

Quem sofre com isso

Ainda não existem estatísticas sobre o tema, mas os especialistas avaliam que a ansiedade de informação acontece com mais frequência em adolescentes e jovens adultos, principalmente os homens. “Aqueles que precisam ficar conectados o tempo inteiro, que usam smartphones para checar e-mails do trabalho, estão mais vulneráveis, pois não conseguem se desligar”, diz a psicóloga Juliana Bizeto, coordenadora do Ambulatório de Dependências Não Químicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp-EPM).

Outras pessoas suscetíveis a isso são as mais solitárias e tímidas, que usam a internet como um “ambiente seguro” para se relacionar com os amigos virtuais. “Indivíduos mais retraídos, que não gostam de convívio social, estão mais propensos a esse tipo de ansiedade, principalmente nas faixas dos 30 e 40 anos de idade”, comenta o neurocientista Renato Sabatini, presidente do Instituto Edumed para Educação, Medicina e Saúde (SP).

Atenção aos sinais

Os sintomas mais comuns são frustração por não manter-se atualizado, saber pouco ou com atraso; necessidade de checar a mesma coisa em diversas fontes; e estresse pela difi- culdade de lidar com tanta informação. Essa ansiedade prejudica o desempenho. “Você fica distraído, agitado, não para de balançar o corpo, tem lapsos de memória e pode até ter problemas de concentração”, diz Cardoso. Para a psicóloga Juliana, trata-se de um comportamento de dependência. “É como se a pessoa precisasse daquilo para sobreviver”.

Ela explica que três pontos mostram que algo está errado. “A primeira coisa é quando a pessoa só gosta de estar conectada. Não lê, não conversa com ninguém, só fica ligada, como se isso fosse a única fonte de prazer”, diz. A segunda coisa é quando o indivíduo começa a ter perdas no trabalho e nas relações. “A pessoa deixa de sair de casa para entrar na internet, perde o horário, não dorme porque se conecta às duas horas da manhã, perde o tempo que tinha de estar trabalhando para ficar on-line”, analisa. Já o terceiro ponto é querer parar com o comportamento, mas não conseguir. “Existem pessoas que acordam no meio da noite para ver se tem alguma atualização e não conseguem dormir”, observa.

Tem jeito?

A mudança de estilo de vida é a melhor maneira de prevenir e tratar o problema, aprendendo a colocar limites e priorizar as informações. Mas se você percebeu que a ansiedade está afetando a sua vida, vale a pena procurar a ajuda de um profissional de saúde, como de um psicólogo, psicoterapeuta ou psiquiatra, que orientará sobre a intervenção mais adequada. Nos casos em que o nível de ansiedade está bastante elevado, o psiquiatra pode indicar o uso de medicamentos ansiolíticos ou até antidepressivos, sempre com acompanhamento médico.

5 DICAS PARA PREVENIR E CONTROLAR O PROBLEMA

1 Seja seletivo
Selecione somente as informações que são essenciais, úteis ou curiosas para a sua vida. “Quando você não seleciona fica com um problema, pois tem informação demais. Ao invés de lhe tranquilizar, ela te estressa. Outro passo é escolher as fontes de informação, utilizando um número menor, útil e confiável”, diz Roberto Cardoso, coordenador de medicina comportamental do Femme Laboratório da Mulher (SP).

2 Faça pausas
Aprenda a fazer pausas com duração de 10 a 15 minutos entre uma atividade e outra, principalmente se seu trabalho requer criação e inovação. Você pode tomar um cafezinho, conversar com alguém ou descansar.

3 Relaxe a mente
Pratique atividades que ajudem a reduzir o seu nível de ansiedade, como meditação, exercícios físicos, cozinhar, passear com o cachorro e ler um livro. O importante é você se desligar dos agentes causadores de ansiedade para relaxar a mente por alguns minutos.

4 Limpe sua mesa
Crie o hábito de limpá-la regularmente. Se você é daqueles que junta vários papéis, principalmente anúncios e ofertas de produtos para, um dia, ler com calma, criando uma pilha em cima da mesa, pegue uma lata de lixo e jogue tudo fora, sem olhar.

5 Tenha amigos reais
Estabeleça várias fontes de relação. Para a psicóloga Juliana Bizeto, coordenadora do Ambulatório de Dependências Não Químicas da Unifesp, quem conversa com os amigos somente on-line, está mais propenso a desenvolver ansiedade. “Nossa vida é como se fosse um leque. Se fechamos esse leque e estabelecemos relações exclusivas temos um problema, então devemos mantê-lo aberto, tendo amigos, se relacionando, pois somos seres sociais, isto é, precisamos do contato físico, do olhar do outro.”

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