Famílias optam pelo terceiro filho

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Famílias optam pelo terceiro filho

A fisioterapeuta mineira Iwana Sansoni, de 36 anos, abandonou a carreira depois de dar à luz a terceira filha. A publicitária paulista Larissa Mrozowski, de 35, tomou a mesma decisão – deixou o emprego para cuidar dos três rebentos. Amanda Machado Lins, de 31, pernambucana, funcionária pública, desdobra-se para dar conta do trabalho e da prole – ela também é mãe de três. Nas grandes capitais do país, um grupo crescente de mulheres de classe média e média alta como Iwana, Larissa e Amanda, que trabalham fora ou não, tem optado por gerar três filhos, ou mais. Celebridades que costumam aparecer em jornais e revistas também começam a aumentar a família. A apresentadora Angélica e a modelo Camila Alves estão grávidas do terceiro. A atriz Cláudia Abreu, a cantora Chayene da novela Cheias de Charme, deu à luz ao quarto, há onze meses. Pelos cálculos da consultoria Cognatis, especializada em demografia, ao menos 219 000 casais das classes A e B, com renda mensal acima de 7 000 reais, decidiram ter uma trinca dentro de casa recentemente.

 Optar pelo terceiro filho, hoje, é trafegar na contramão de uma tendência nacional – e justamente por isso a volta das famílias grandes, mesmo que apenas entre uma parcela pequena e abastada da população, chama tanto a atenção dos demógrafos e estudiosos do comportamento. A taxa de fecundidade do país está em queda vertiginosa desde a década de 60, quando se intensificou a migração do campo para a cidade, houve melhoras nas condições sanitárias e as mulheres deixaram o lar para invadir o mercado de trabalho. A média de filhos por mulher passou de 6,3 na ocasião para 1,9 atualmente, menos que o necessário para a reposição populacional. O filho único, visto há três décadas como anomalia, tornou-se figura comum nos anos 90 – e está presente em 20% dos lares. "O total de brasileiras que decidiram aumentar a família ainda não aparece nas estatísticas, mas é um grupo em evidente crescimento", afirma o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE.

É fácil entender por que tantos casais querem mais de um filho. Como diz o antigo chavão, um é pouco. Muita gente teme que o filho único vire um monstrinho mimado, que não sabe dividir nada com ninguém, ou um adulto com pouca tolerância a frustrações. Mas, se dois é bom (ter um menino e uma menina ainda é o sonho de muitos pais e mães), por que três? Ou quatro? Ter filhos – e quem os tem bem sabe – é uma das experiências mais gratificantes na vida de uma pessoa. No entanto, gerar uma criança e criá-la com esmero implica sacrifícios, preocupações, noites maldormidas e gastos, muitos gastos. Escola, inglês, plano de saúde e lá se vai quase 1 milhão de reais na criação de um filho, do nascimento aos 23 anos, segundo levantamento do pesquisador Adriano Maluf Amui, do Instituto Nacional de Vendas e Trade Marketing (Invent).

São várias as explicações para o inchaço das famílias, mas a principal, dizem os especialistas, é uma mudança recente, e radical, no comportamento feminino. "As mulheres que sonham em se tornar mãe não estão mais dispostas a abrir mão da maternidade para provar que podem competir em pé de igualdade com os homens", afirma a demógrafa Maria Coleta Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Esse fenômeno não é exclusividade brasileira e já foi observado em muitos países, especialmente nos mais desenvolvidos. A antropóloga Carla Barros, da Universidade Federal Fluminense, concorda: "Nos anos 80 e 90, que se seguiram à emancipação feminina, havia uma pressão para que a mulher estudasse e fosse bem-sucedida na profissão, principalmente nas classes mais altas. Ser só dona de casa desqualificava a mulher. As que queriam filhos optavam por ter um, no máximo dois, para não prejudicar o trabalho. Hoje, a mulher conquistou o direito de escolher o que fazer". Dados do IBGE corroboram a tese. Na última década, cresceu 26% o número de brasileiras mais escolarizadas, com renda acima de 8 000 reais, que largaram o emprego para ser mães e nada mais, com muito orgulho.

Aos olhos da filosofia, a opção por uma prole numerosa é reflexo de uma mudança profunda no papel dos filhos e da família na sociedade contemporânea. "Existe hoje uma tendência de enfrentar as dificuldades do mundo a partir de escolhas privadas. Se o mundo está um caos, vou garantir minha tábua de salvação, que é uma família que vai viver comigo para encarar essa situação", considera o filósofo Luiz Felipe Pondé. No livro Famílias, Amo Vocês, o filósofo francês Luc Ferry defende a ideia de que ter filhos deixou de ser uma obrigação social para se tornar uma forma de alcançar a plenitude, ou seja, os pais, hoje, precisam dos filhos para justificar sua existência. Escreve Ferry: "Os homens morriam por Deus, pela pátria e pelas revoluções. Essas instituições perderam a importância, e a família emergiu como a nova entidade sagrada do mundo atual. Os filhos são a única razão pela qual vale a pena viver e morrer nos dias de hoje".

A melhora na economia também explica o retorno das famílias maiores. O Brasil entrou em um ciclo de prosperidade em 2004. Virado o capítulo da estabilização monetária, a inflação permaneceu estável e o real se valorizou, o que encorajou alguns casais a ter mais filhos. Os Estados Unidos são um exemplo de país onde a taxa de fecundidade acompanha o ritmo da economia. Em 1910, cada americana tinha em média 3,4 filhos. O número desabou para 2 na Grande Depressão, nos anos 30. Subiu na década de 50, chegando a 3,6. Caiu para menos de 2 durante a crise energética dos anos 70. Com a recessão dos últimos anos, o índice voltou a cair.

As novas famílias de três ou mais filhos não vão alterar o cenário demográfico atual. A tendência de queda na taxa de fecundidade no Brasil deve se manter nas próximas décadas. Pelas estimativas do IBGE, as brasileiras terão 1,5 filho em 2030, o mesmo que as europeias. A fecundidade baixa, na Europa, é motivo de preocupação. O crescimento populacional do continente é o menor do mundo, o que acarreta um aumento expressivo no total de idosos e a diminuição da população em idade ativa. São poucos jovens para trabalhar e muitos velhos para ser sustentados. A partir de 2040, o Brasil começará a sentir os efeitos nocivos da queda na fecundidade. Quem sabe, até lá, mais mulheres não se lancem na agradável (e custosa) aventura de gerar uma prole numerosa.

Exame

Dani Rabelo
Jornalista do WSCOM Online, sócia e editora-chefe do Portal Mulher de Fato, cantora nas horas vagas, tagarela, observadora, carioca da gema e pessoense de coração.

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