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Enxaqueca em crianças é mais comum do que se imagina

Atualizado em: 26/09/2012

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Para você, dor de cabeça é coisa de adulto? Sim? Então, continue lendo esta reportagem. Dois novos estudos conduzidos pelo neurologista brasileiro Marco Antônio Arruda, especialista em crianças e adolescentes, mostraram que, no país, existem cerca de 2,1 milhões de crianças com enxaqueca e relaciona o problema a outros fatores, como baixo desempenho escolar e problemas emocionais.

O especialista coordenou, primeiro, um projeto chamado Atenção Brasil, com a participação de outros pesquisadores de várias universidades brasileiras e estrangeiras. O objetivo era descobrir se o problema interfere no desempenho escolar das crianças. Então, foram entrevistadas 5.671 crianças entre 5 a 12 anos, de 87 cidades em 18 estados brasileiros.

O resultado mostrou que 37,1% das crianças sofrem com enxaqueca crônica, ou seja, tiveram dores durante 15 ou mais dias por mês nos últimos três meses, e 32,5% das crianças sofrem com enxaqueca episódica. Nesse caso, as crianças tiveram até 15 dias de dor de cabeça por mês. E apenas 23,2% das crianças não sofrem com dores de cabeça. De acordo com a análise das entrevistas pelos cientistas, as crianças com enxaqueca crônica têm 1,6 mais chances de apresentarem baixo desempenho escolar em relação àquelas sem dor de cabeça. Já as que sofrem com o problema episódico têm 1,3 mais chances comparadas com as crianças sem o problema. Também foi possível perceber que as que sofrem com enxaqueca faltam mais na aula. O estudo estima que três milhões de dias de aula sejam perdidos ao ano no Brasil por causa do problema.

“Resumindo, o estudo mostra que crianças com enxaqueca de alta frequência, crises de grande intensidade – que fazem com que a criança se deite e pare de brincar -, de longa duração (mais de 4 horas), com náuseas e que abusam de analgésicos (mais de dois remédios por semana) têm mais chances de apresentarem baixo desempenho escolar”, diz o neurologista Marco Antônio Arruda, da Sociedade Brasileira de Cefaleia e diretor da Clínica Glia, em Ribeirão Preto.

Enxaqueca e problemas emocionais

Outro estudo, também coordenado por Arruda e pelo neurologista Marcelo Bigal, da Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova York, mostrou uma relação entre a enxaqueca e problemas emocionais. Para esse levantamento, foram avaliadas 1.856 crianças brasileiras entre 5 a 11 anos. Também por meio de questionários elaborados de acordo com critérios internacionais, os cientistas descobriram que 52% dessas crianças sofriam com enxaquecas ou dores de cabeça.

A análise dos resultados mostrou que crianças com enxaqueca têm 5,8 mais chances de apresentarem problemas comportamentais, como ansiedade, depressão e dificuldade de atenção. “Nós também conseguimos descobrir que, quanto maior a frequência das crises, maiores serão as alterações psicológicas. Crianças com enxaqueca por mais de 10 dias por mês têm, além de sintomas de depressão e ansiedade, mais dificuldades em prestar atenção, menos habilidades sociais e mais dores pelo corpo”, alerta Arruda.

Como identificar o problema

Primeiro, é importante saber que a enxaqueca é determinada por fatores genéticos. Portanto, se um ou mais familiares sofrem com a dor, seu filho terá mais chances de ter o problema. E não confunda: a cefaleia (dor de cabeça) é apenas um sintoma, como a febre, por exemplo. Já a enxaqueca é uma doença caracterizada por crises recorrentes de dor de cabeça, com intervalos sem dor.

Fique atenta a alguns sinais importantes que podem dizer muito sobre o tipo de dor que a criança sente. É fundamental perguntar que local dói, como é a dor (se pulsa como um coração dentro da cabeça, se aperta ou se queima), se piora quando ela se agacha ou pula, para identificar se o esforço físico agrava o problema. Também é importante observar se ela recusa a alimentação na hora da dor, se tem náuseas e se fica mais sensível à luz e ao som. Além disso, analise se a dor progride ao longo dos dias, semanas e até meses, se o seu filho desperta durante a noite por causa da dor e se com ela, ele modifica o seu comportamento e diminui o rendimento na escola. Todos esses são sintomas da enxaqueca.

Vale lembrar que é fundamental levar seu filho a um neurologista quando ele reclamar da dor pela primeira vez.

É possível prevenir?

Sim, ao evitar alguns fatores que podem desencadeá-lo, como alimentos (chocolate, derivados do leite e embutidos) ou odores fortes (de perfumes ou produtos de limpeza), além da privação de sono, excesso de luminosidade e até fatores emocionais e excesso de atividades extracurriculares. Se a enxaqueca já foi diagnosticada, é possível prevenir as crises com medicamentos que corrigem as alterações químicas cerebrais que causam o problema.

Como tratar

Alguns pais são resistentes ao tratamento com remédios por conta dos efeitos colaterais. Se esse é o seu caso, não se preocupe. Existem 15 medicamentos seguros para o tratamento da enxaqueca em crianças. Alguns são controlados, outros não. Não provocam efeitos colaterais graves. O tratamento preventivo deve ser feito durante seis meses, no mínimo e a garantia de eficácia é maior que 80%. Mas sempre com a recomendação do médico da criança.

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