Vida e Saúde

Dismorfofobia: autoimagem distorcida leva à busca incessante por mudanças

Atualizado em: 07/06/2015

dismorfofobia

Para algumas pessoas, olhar-se no espelho pode ser uma verdadeira “tortura”. Isso porque, mais do que estarem insatisfeitas com a própria imagem, elas se percebem de uma maneira equivocada, e tendem a procurar, assim, quantas vezes forem necessárias, soluções em cirurgias plásticas e tratamentos estéticos para mudar o que as incomoda.

Parece simplesmente um “vício de beleza”, mas não é tão simples assim… Essa rejeição da própria imagem esconde uma doença psiquiátrica importante: a dismorfofobia corporal (ou síndrome dismórfica).

Marco Cassol, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, explica que a dismorfofobia é uma distorção da autoimagem do paciente. “Ou seja, ele tem uma imagem distorcida dele mesmo. Esse problema geralmente está associado a algum outro transtorno psiquiátrico. O mais comum é o TOC (Transtorno Obssessivo Compulsivo), mas há também vários outros transtornos psiquiátricos”, diz.

O diagnóstico é muito difícil e o assunto, pouco debatido até mesmo entre os médicos. Porém, embora nem todo mundo tenha noção disso, a dismorfofobia corporal tem “vítimas” famosas, como, por exemplo, o cantor Michael Jackson e o modelo Celso Santebañes, conhecido como Ken Humano.

Ariela Bello, especialista do Personare, destaca que o Transtorno Dismórfico Corporal (dismorfofobia corporal) é um transtorno relacionado à preocupação excessiva com a própria aparência, reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. “Muitas vezes essa preocupação é resultado da percepção de algum defeito imaginário no próprio corpo ou mesmo da exacerbação de alguma imperfeição identificada pelo indivíduo na própria aparência. Isso faz com o que o mesmo acredite que essa suposta anomalia chame a atenção de todos, e isso o leva a um comportamento de intensa vergonha da própria imagem, desconforto na presença de outras pessoas, tentativa de disfarce ou fuga em situações sociais, isolamento e outras atitudes extremamente prejudiciais, como busca por ‘soluções’ para o defeito, incluindo cirurgias, e até mesmo automutilação”, diz.

Dismorfofobia é um problema comum?

Foto: Getty Images

Cassol explica que a dismorfofobia é um problema razoavelmente comum: atinge aproximadamente 1% da população em geral. “Dentre os pacientes que se submetem à cirurgia plástica, pouco mais de 10% apresentam algum grau do transtorno, mas não necessariamente uma dismorfofobia grave”, diz.

O cirurgião plástico explica que a busca desenfreada por cirurgias corretivas acaba, muitas vezes, colocando em risco a saúde geral do portador de dismorfofobia. “Há mulheres que chegam a realizar dezenas de cirurgias plásticas”, comenta.

Ariela ressalta que a prevalência desse transtorno (o quanto está presente na população) é incerta, e alguns estudos apontam que ele acomete de 0,7% a 2,3% das pessoas. “Porém, há um consenso sobre este ser um distúrbio subdiagnosticado, ou seja, ele está mais presente do que de fato os dados apontam. Isso acontece porque muitas pessoas escondem ou ignoram o sintoma principal, que é a preocupação excessiva e, quando resolvem fazer algo a respeito, acabam buscando profissionais como dermatologistas e cirurgiões plásticos, numa tentativa de se livrar do problema, o que pode contribuir para mascarar o diagnóstico real”, explica.

Cassol destaca que a prevalência da dismorfofobia é a mesma entre homens e mulheres, porém, o diagnóstico é mais frequente entre as mulheres “simplesmente porque elas se submetem mais à cirurgia plástica”.

Ariela acrescenta que o transtorno é mais comum entre adolescentes e jovens adultos, com média de idade por volta de 20 anos.

Circunstâncias que levam à dismorfofobia

Foto: Getty Images

Ariela explica que este aspecto ainda merece mais pesquisas. A causa do transtorno é desconhecida, e é provável que existam múltiplos elementos que contribuam para que ocorra. Mas, abaixo, você confere alguns dos fatores relacionados:

1. Questão sociocultural

Um dos fatores preponderantes, e apontado em grande parte dos estudos, é o sociocultural, de acordo com Ariela. “Ou seja, as circunstâncias em que o indivíduo cresce e se desenvolve na sociedade atual, com toda a importância dada à beleza, a preferência por determinados padrões, o incentivo à comparação com os outros e a busca por aceitação favorecem conflitos de autoimagem”, diz.

2. Predisposição genética

De acordo com Ariela, também é sugerido que pode haver alguma predisposição genética, relacionada a desequilíbrio em neurotransmissores e disfunção de certas áreas do sistema nervoso, que favorecem o surgimento do quadro. “É comum ver a dismorfofobia como uma co-morbidade, ou seja, acontecendo junto com outros transtornos, como a anorexia, vigorexia, depressão, transtornos de ansiedade e com aquele com que partilha mais características: o Transtorno Obsessivo Compulsivo. Isso mostra que também pode haver associação com determinados tipos psicológicos, comuns a esses distúrbios, como os pensamentos obsessivos e o perfeccionismo”, diz.

3. Busca incessante pela perfeição

Com a grande quantidade de tratamentos estéticos disponíveis e com a possibilidade de conquistar bons resultados com uma cirurgia plástica, algumas pessoas enxergam este como o verdadeiro “caminho” para tentarem alcançar a “perfeição” (o que, na verdade, não existe, é um conceito totalmente subjetivo).

Cassol destaca que os pacientes com dismorfofobia apresentam uma preocupação desmedida com a aparência, e acabam realizando um número exagerado de cirurgias plásticas. “Ou seja: não são pacientes que se contentam em se submeter a uma intervenção somente. Pior: mesmo passando por diversas cirurgias, não ficam nunca satisfeitos com o resultado. Com isso, acabam se submetendo a um número exagerado de procedimentos, muitas vezes desenvolvendo complicações devido à realização excessiva de intervenções no mesmo local”, diz.

Sinais para identificar a dismorfofobia

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Na teoria pode até parecer fácil, mas não é nada simples diagnosticar esse transtorno. Alguns sinais, porém, estão geralmente relacionados à dismorfofobia:

1. Preocupação exagerada com a aparência (ou determinada característica)

Ariela destaca que os principais sinais de que alguém pode estar desenvolvendo o quadro de dismorfofobia incluem a preocupação exagerada com alguma característica física. “A qual pode até mesmo ser imaginária, mas a pessoa acometida enxerga como grande defeito e encara com preocupação desproporcional”, diz. “Essa preocupação às vezes causa mal-estar físico real ou leva o indivíduo a ter atitudes de isolamento, causando prejuízos a importantes aspectos da vida, como o convívio social ou profissional”, acrescenta.

Cassol ressalta que o paciente com dismorfofobia é geralmente aquela pessoa que chega no cirurgião com uma queixa muitas vezes desproporcional em relação ao problema que apresenta.

2. Busca constante de alternativas para solucionar o problema de aparência

O paciente com dismorfofobia é alguém que geralmente já se submeteu a um grande número de cirurgias plásticas, conforme destaca Cassol.

Ariela ressalta que é um indício do quadro a tendência que a pessoa apresenta de realizar esforços exagerados no sentido de solucionar o suposto “problema de aparência”. “Como gasto de grandes somas de dinheiro em procedimentos estéticos e visitas constantes a profissionais médicos ou de outras áreas, ou mesmo com estratégias para disfarçar o ‘defeito’ em questão, como exercícios físicos, maquiagens etc., assim como tempo excessivo gasto com pensamentos obsessivos com o problema ou examinando a própria imagem no espelho”, diz.

3. Insatisfação em relação a procedimentos anteriores

Cassol explica que a pessoa com dismorfofobia geralmente é um paciente hiperdetalhista e que já chega expondo toda a sua insatisfação em relação aos outros procedimentos e aos profissionais que os realizaram. “Mesmo que o resultado aparente das intervenções seja bom”, destaca.

Apesar de estes serem indícios, “é claro que o diagnóstico formal só pode ser dado por profissional capacitado, com base nos sinais e sintomas apresentados, e na exclusão de outros transtornos que podem estar causando quadro semelhante”, destaca Ariela.

Como lidar com a dismorfofobia?

Ariela explica que, de forma geral, é muito complicado para o indivíduo que se encontra com este transtorno colocar em perspectiva a própria situação e perceber as características patológicas do próprio comportamento.

“Sendo assim, a busca pela ajuda profissional adequada deve ser orientada e incentivada por pessoas do convívio próximo, ao identificarem os sinais, e principalmente pelos profissionais que forem procurados pelo indivíduo durante as tentativas de encontrar soluções para o defeito imaginário, como dermatologistas, cirurgiões plásticos, entre outros”, diz a especialista.

Até que ponto é saudável se preocupar com a beleza física?

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Neste contexto, pode vir a dúvida: até que ponto é saudável se preocupar com a beleza física, recorrer a tratamentos estéticos e/ou cirurgias plásticas?

“O contexto sociocultural em que estamos inseridos faz com que estejamos predispostos a uma grande preocupação com a aparência e com atingir os padrões de beleza vigentes”, destaca Ariela. “Sua influência é tão marcante que é comum encontrar relatos de dismorfofobia, ou de comportamentos obsessivos com a aparência, de outros países, como Índia ou Japão, nos quais os ‘defeitos’ ou o padrão considerado ideal são completamente diferentes dos identificados no ocidente”, diz.

Assim, explica Ariela, torna-se muito difícil traçar uma linha entre o que é considerado vaidade excessiva e o que é considerado um comportamento patológico, “uma vez que a transição entre essas duas situações é gradual e compreende um grande espectro de comportamentos”.

Cassol ressalta que, quando bem indicada e bem realizada, a cirurgia plástica é um procedimento que pode elevar muito a autoestima do paciente e obter resultados extremamente positivos.

“Já nos casos excessivos – em que o paciente demonstra uma necessidade insaciável de realizar repetidas intervenções na mesma parte do corpo, e não ficando nunca satisfeito com o resultado -, esse paciente necessita de um acompanhamento psicológico”, destaca o cirurgião plástico.

Cassol explica ainda que não é que porque o paciente tem síndrome dismorfofóbica que ele não vai mais poder realizar uma cirurgia plástica. “Muitas vezes, depois do acompanhamento psicológico, do entendimento do problema pelo paciente e da realização do tratamento, ele pode, sim, voltar a realizar uma cirurgia plástica”, diz.

Para Ariela, “o ideal é que estejamos vigilantes para notar quando a preocupação com a autoimagem passou de algo visando bem-estar e satisfação saudável para algo que traz angústia e sofrimento, gerando comportamentos prejudiciais e interferindo negativamente na vida do indivíduo”.

“Acima de tudo, devemos todos buscar um ambiente sociocultural em que prevaleça o respeito e a compreensão, resistindo contra as imposições dos padrões de beleza que trazem adoecimento, especialmente à população jovem”, finaliza a especialista.

Vale ressaltar que não se pode confundir vaidade com um quadro de dismorfofobia. Não há mal nenhum em gostar de se cuidar, em recorrer a tratamentos e até cirurgia para se sentir melhor com sua aparência. O problema existe quando há um exagero evidente. E quando essa preocupação excessiva com a beleza coloca até mesmo a vida da pessoa em risco.

 

 

Fonte: Da Redação com Dicas de Mulher

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