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Alienação parental é traumática para crianças pequenas

Atualizado em: 05/03/2013

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– Filha, não vai acreditar nas coisas que sua mãe vai falar para você.
– Por quê?
– Ô filha… Conheço sua mãe. Ela vai falar que ama você, que está com saudades de você, vai falar que não consegue viver sem você… Mentira, filha! É tudo mentira, porque se fosse verdade ela estava aqui com a gente. Entendeu?

O diálogo acima foi ao ar em um dos capítulos da novela Salve Jorge, da Rede Globo. Na cena, Celso, interpretado pelo ator Caco Ciocler, fala para Raissa (Kiria Malheiros) que ela não deve acreditar em sua mãe, Antonia (Letícia Spiller). A história é fictícia, mas, assim como Raissa, muitas crianças passam pela mesma situação.

Alguns casais, quando se divorciam, não conseguem separar os problemas que têm entre si da sua relação com os filhos. Pode acontecer que um dos genitores comece a falar mal do ex-companheiro para a criança, tente desfazer o laço afetivo entre os dois e até mesmo manipule a criança para atingir o ex-companheiro e sua família. Essa atitude é conhecida como alienação parental – a mãe ou o pai tentam alienar a outra parte da convivência com o filho.

Nunca é fácil lidar com uma situação como essa, mas o primeiro passo é entender o que está acontecendo. De acordo com a psicóloga Patricia Bader, coordenadora do serviço de psicologia do Hospital São Luiz (SP), não existe um critério para identificar a alienação parental, mas como ela mexe muito com a criança, alguns sinais ajudam os pais a perceber que algo não está bem.

É comum a criança manifestar muita raiva em relação ao genitor que está sendo excluído. Ela passa a não querer mais encontrá-lo, recusa-se a fazer contato e pode falar coisas que não são próprias do discurso da sua idade – como “estou brava com o meu pai, pois ele não pagou a parcela da pensão”. Também é comum que fiquem doentes com mais frequência. “No caso de crianças de até 8 anos, a reação é muito mais comportamental do que verbal. Em vez de conversar, ela fica triste, chora, nega a presença do outro”, explica Patricia.

Não é possível prever quais os desdobramentos na vida de uma criança que passa por essa situação. Mas, segundo Patricia, quanto mais tempo o caso persistir, pior é. E quanto mais cedo a criança passa por isso, também. “Quanto mais nova, menos recursos afetivos para lidar com o trauma”, diz a psicóloga.

A criança fragilizada com o conflito entre os pais pode ficar mais ansiosa, deprimida e com a baixa auto-estima, por achar que o que está acontecendo é culpa dela. Por isso, por mais que os pais estejam magoados um com o outro, não devem expor seus problemas mal-resolvidos para os filhos, nem usá-los como moeda de troca.

Para o pai ou a mãe que está sendo “agredido”, a recomendação é manter sempre o canal de comunicação aberto com o filho. Segundo Patricia, a melhor forma de mostrar que a fala do ex-companheiro não faz sentido é por meio de ações. “Seja coerente na forma de agir e demonstre com seus atos que eles podem confiar em você”, recomenda a psicóloga aos pais com esse problema.

A boa notícia para quem está passando por isso é que as coisas podem melhorar. Terapia é uma das intervenções possíveis. Mas atenção: se os pais estão com problemas, não basta achar que uma psicóloga vai ajudar a criança a passar por essa fase. O pai e a mãe também precisam procurar acompanhamento. Outra possibilidade é fazer terapia familiar ou um esquema de visitas assistidas (quando uma pessoa de fora acompanha o encontro entre filhos e pais). Em casos extremos, resta recorrer à Justiça para resolver o problema.

Quando o juiz precisa estabelecer os limites

Sim, alienação parental pode ser caso de Justiça e gerar uma ação judicial na Vara da Família. Se você acha que precisa de ajuda, a primeira coisa a fazer é procurar um advogado especializado. Segundo a advogada Juliana Cezaretto Fernandes, você também precisará juntar provas de que as atitudes do seu ex-companheiro (ou da sua ex-companheira) são prejudiciais para seu filho e para você mesmo, como desenhos feitos pela criança ou vídeos. Não ter uma prova física não impede a abertura do processo. A única coisa que pode acontecer nesse caso, segundo Juliana, é a audiência se transformar em um bate-boca dos pais, já que fica a palavra de um contra a palavra do outro.

De qualquer maneira, assim que seu caso chegar a um juiz, ele provavelmente pedirá uma perícia médica e laudo psiquiátrico para saber se é realmente um caso de alienação parental e quão grave é a situação. As sentenças vão desde nomear um psicólogo para acompanhar a criança e conciliar os pais até perda da guarda, nos casos extremos.

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