Título Mulher de Fato

Um ‘Título Mulher de Fato’ especial: Helena Holanda

Atualizado em: 08/03/2013

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Em março, mês que celebramos do Dia Internacional da Mulher (8 de Março), o Portal Mulher de Fato decidiu homenagear com o ‘Título Mulher de Fato’ uma pessoa que através da sua coragem abriu caminhos para pessoas discriminadas, e demonstra todos os dias que não existe fronteiras para o amor. Helena Holanda, fundadora do Centro de Atividades Especiais Helena Holanda (CEAHH) é a nossa ‘Mulher de Fato’ deste mês.

A história

Nascida em João Pessoa no dia 13 de outubro de 1950, Helena Maria Duarte de Holanda saiu da Capital paraibana ainda bebê para morar no Rio de Janeiro. A mais velha de uma família de seis irmãos, sempre demonstrou talento para as artes, seja a música, dança ou teatro. “Segundo minha mãe, ela acha que eu já dançava dentro da sua barriga. Acho que em 90% das minhas fotos de criança eu estou fantasiada em alguma festa”, diz.

Aos 5 anos, junto com os irmãos, montava um pequeno circo em casa e ocupava a função de apresentadora ou bailarina. No mesmo período, já começava a fazer parte das atividades culturais da escola que estudava no Rio de janeiro, iniciando com a dança, e depois integrando um coral e um grupo de teatro. “A arte sempre foi muito forte na minha vida, ela influência muito no meu trabalho de reabilitar as pessoas. Se hoje eu não me dedicasse as pessoas com deficiência e as idosos, teria uma escola de dança ou teatro”, destaca.

Desafios

“Sempre que penso da minha infância, lembro que eu já tinha essa característica de agregar. Gostava de ter amizade com pessoas mais humildes. Todos aqueles que eu percebia que eram escanteados, que sofriam um certo preconceito, eu abraçava. Sempre achei que eu encontraria uma amizade mais sincera e duradouras em pessoas assim”, conta.

Helena Holanda conviveu com pessoas com uma condição financeira mais elevada, no entanto, nunca permitiu que fosse maltratada, e uma forma para fazer isso era participando de todas as atividades oferecidas na escola. Esse tipo de atitude fazia com que ela ganhasse um certo respeito entre os professores e os colegas.

“Se meus pais não tivessem condições eu pedia para os meus avós, para os meus tios, negociava com a direção da escola, mas não deixava de participar das atividades propostas. Meus pais passaram para mim, e para meus irmãos, que nós éramos dignos de caráter e personalidade para ir e vir de qualquer lugar, independente de termos condições financeiras. Segundo eles, tínhamos apenas que ser educados, respeitar os limites e saber entrar e sair dos lugares, assim, nunca seríamos barrados, e realmente, isso nunca aconteceu conosco”, desafaba.

Helena afirma que o preconceito sempre existiu, no entanto, ela nunca se deixou abater. “Como eu consegui superar essas dificuldades, a minha vontade é que os outros façam a mesma coisa. É preciso ser você mesmo, sem ter vergonha do que se é, de onde mora ou o que faz. Não somos os únicos com pontos negativos, mas podemos ser únicos nos pontos positivos. Se você não tiver altos e baixos, choros e lágrimas, você não terá uma história”, enfatiza.

Os primeiros passos

Aos 19 anos, Helena Holanda retornou para João Pessoa, dado início aos trabalhos com pessoas discriminadas pela sociedade. Como ela mesma diz, seu interesse sempre foi “oportunizar”, e seu primeiro trabalho foi com as internas do Centro de Reabilitação de Pessoas Jovens Bom Pastor.

“Há quarenta anos atrás o Bom Pastor, que era dirigido por freiras, era um local para as mulheres cumprirem suas penas estabelecidas pela justiça. Indicada por uma professora, consegui desenvolver meu primeiro trabalho. Não pensei duas vezes se lá era um pequeno presídio, eu tinha apenas o interesse de ajudar aquelas mulheres através da dança”, diz.

Durante oito meses Helena fez uma trabalho de reabilitação com as internas, e confessa que nunca teve nenhum problema. Realizou uma apresentação aberta para o público, com a participação de 40 mulheres.

A experiência no Bom Pastor parece ter deixado um gostinho de “quero mais”, e Helena Holanda, que passava todos os dias na frente do Instituto dos Cegos da Paraíba Adalgisa Cunha, sentiu que poderia fazer algo por aquelas pessoas: “Morava no Bairro dos Ipês, e o ônibus passava na frente do instituto. Todos os dias, manhã, tarde e noite, eu via os deficientes visuais na porta da entidade ou brincando no parque. Ficava pesando: Esse pessoal não tem nada para fazer?”.

Depois de oito meses resolver bater na porta e oferecer seu trabalho: “Disse que eu poderia fazer algo por eles, contar histórias, cantar músicas e brincar, porém, recebi a seguinte resposta – Cego não foi feito para isso. Eles aqui aprendem Braille, estudam a matemática específica para eles, e já temos um sanfoneiro e um professor de violão – Para mim, essas pessoas poderiam fazer muito mais”.

Justificando que poderia acontecer algum acidente com os deficientes visuais, o responsável local recusou a proposta de Helena, indagando inclusive qual era a experiência dela com aquele tipo de pessoa. Reconhecendo que ainda era uma estudante secundarista, ela foi embora, mas depois de seis meses voltou decidida em colocar em prática tudo o que estava aprendendo no curso de Educação Física.

“Eram tantas pessoas fortes e jovens. Eu não sabia nada sobre deficientes, mais para mim eles eram pessoas, e isso era o que mais chamava a minha atenção”, reflete.

Na sua segunda tentativa ela foi bem recebida pelo diretor oficial do Instituto dos Cegos da Paraíba, que após escutar as suas propostas perguntou quando ela poderia começar. “Em poucos dias eu já estava diante de um grupo de deficientes visuais, e logo percebi que a música era algo que eles tinham muito interesse. Tive a oportunidade de fazer o 1º São João da instituição. A festa foi bastante prestigiada pela comunidade, e pela primeira vez tivemos deficientes dançando uma quadrilha junina e outros ritmos da cultura popular”, explica.

Ainda dentro do seu trabalho no instituto, pela primeira vez, deficientes visuais participaram do desfile de 7 de Setembro, e essa iniciativa contou com a ajuda de amigos e familiares de Helena: “Pela primeira vez os deficientes foram para as ruas, e tiveram contato direto com o público, que se emocionou e chorou durante o desfile”.

Outro desafio surgiu há vinte anos atrás, em uma época em que a discriminação com pessoas que apresentavam algum tipo de deficiência, negros e homossexuais era ainda muito forte, Helena fundou a Cia de Dança Helen Keller, uma homenagem a mulher que provou que deficiências sensoriais não impedem a obtenção do sucesso (abaixo um pouco da história de Helen Keller). “Esse grupo foi criado para dar oportunidade os obesos e aos homossexuais. Uma chance para as pessoas que tinham vontade de dançar, porém, não tinham o perfil da bailarina clássica. Eram trinta pessoas, e fizemos lindos trabalhos. Ganhamos um 2º lugar brasileiro em um festival de dança realizado em Recife. Nosso grupo era formado por pessoas dos 13 aos 50 anos”, diz.

Voar mais alto

Na história de Helena Holanda, estão também trabalhos na Pestallozzi, Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) João Pessoa, Cooperativa de Atividades Profissio (Caprol) e na criação da Fundação de Apoio ao Deficiente (Funad).

Após tantos anos de dedicação as outras fundações, Helena resolver que era o momento de se aposentar e “criar asas”: “Eu queria crescer, voar. Sabia que tinha algo maior que eu precisava fazer. Eu acreditei, e fui seguindo a missão que Deus me deu”.

Sobre essa missão, ela revela que após dez anos trabalhando no Instituto dos Cegos da Paraíba participou de um evento no Rio de Janeiro, na cidade de Encantado. Foi neste lugar que Helena Holanda, ao se depara com uma imagem de Helen Keller, descobriu que o que fazia pelos deficientes não era apenas por amor, e sim, era uma missão: “Me identifico muito com a professora de Helen Keller, Anne Sullivan, que enfrentou a família, a sociedade, até mesmo apanhou para conseguir concretizar um sonho. Ela fez com que Helen se tornasse uma célebre escritora, filósofa e conferencista”.

Aposentada, ela abriu uma academia de ginástica, que além de atender pessoas “normais”, tinha atividades especiais voltadas para deficientes, mas em pouco tempo a academia fechou e ela resolveu se dedicar apenas aos especiais.

Helena Holanda durante apresentaçãoSonho concretizado

O sonho de construir um local que pudesse atender deficientes e idosos se tornou realidade em 2000, com o nome de Centro de Atividades Especiais Helena Holanda (CAEHH). Através de doações, existe hoje em João Pessoa um local que atende gratuitamente pessoas deficientes, sequelados de acidentes e idosos, oferecendo serviços clínicos, educacionais, desportivos e artísticos.

Atualmente são atendidas 381 pessoas, que frequentam as dependências do centro de segunda até sexta-feira, nos três turnos. “Não temos restrição de faixa etária ou limitações financeiras. Atendemos desde quando ainda está da barriga da mãe até o momento que é levado por Deus”, explica Helena.

O reconhecimento do trabalho que é feito por Helena Holanda, e sua equipe, é tão grande, que existe uma longa lista de espera. Segundo ela, se pudesse, atenderia mil pessoas, porém, o centro possui ainda poucos recursos, e agora o momento é de criar alternativas para a geração de renda para o local.

“Queremos sair daquela vida de Ong. Somos ligados ao Sistema Único de Saúde (SUS), mais ainda temos muitos gastos. Agradeço a ajuda de muitas pessoas, anjos que apareceram na minha vida, mas ainda sou uma mãe com vinte filhos que ganha apenas um salário mínimo”, exemplifica.

Além de atender os deficientes, sequelados de acidentes e idosos, o CAEHH oferece cursos de capacitação para os familiares dos atendidos e para outros profissionais que trabalham com esse mesmo público.

Nos projetos futuros estão a ampliação do centro para a construção de um abrigo para os idosos, uma cozinha industrial, um estúdio, um pequeno teatro, e salas para a realização de cursos e oficinas. “Tudo isso é para ajudar no sustento do centro. Antes de ir para o outro plano eu preciso deixar o local com um retorno financeiro. Se Deus quiser teremos dias melhores”, confessa.

A família

O sonho de Helena Holanda se tornou também o sonho da família. Hoje no CAEHH, irmãos, sobrinhos e cunhados trabalham com ela: “A direção do centro não pode receber salário, então, conto com a ajuda deles. Minha família toda é envolvida com o meu trabalho”.

Casada pela segunda vez, Helena diz que para ficar com ela o homem precisa amá-la muito, casar com tudo o que faz parte da sua vida e com a sua maneira de ser. O seu primeiro marido também foi influenciado por ela, e hoje é técnico de uma equipe de basquete para cadeirantes.

A fundadora do CAEHH revela que não tem filhos biológicos, mas acrescenta que Deus sabia que ela teria muitos filhos para amar, e em especial, Márcia, sua filha adotada, que é especial. “Sou mãe dos especiais que frenquentam o centro, sou mãe dos pais dos especiais e sou mãe dos meus funcionários. Para mim isso é magnífico”, confessa.

Sobre o atual marido, ela afirma que ele é engajado nas atividades do centro, um verdadeiro companheiro: “Não deixo de dançar. Subo no palco do mesmo jeito, e ele é o que mais me aplaude. Não temos horário para nada”.

Helena também se considera uma pessoa especial, assim como as pessoas que ela ajuda: “Eu também sou especial, pois fui escolhida por Deus para fazer esse trabalho. Não é qualquer pessoa que aceita uma missão assim: ser representante das pessoas com deficiência e dos idosos. A coisa é pesada e forte. É preciso compreensão, um olhar para dentro da causa, para o que é feito”, desabafa.

Ela confessa que tem um profundo amor pelos deficientes e uma paixão pelos idosos: “Em todos os lugares que estou aparece alguém com deficiência, e eles logo seguem até mim. É incrível. Sobre os idosos, acho que eles são lindos, experientes, com uma história de vida e sempre com uma palavra de sabedoria para passar. O idoso precisa de carinho, de atenção, de ser ajudado, precisa esquecer que o fim está mais próximo do que o começo”. 

Mais uma vez ela ressalta que não é melhor do que ninguém, mas afirma que possui potencial para ser muitas coisas. “Tenho a liberdade de ser mulher. Sou um pouco cigana, sou um pouco baiana, africana…Não me preocupo com estilo ou moda, nem com o que falam ou se me criticam. Sou uma mulher com livres sonhos e desejos, e quem quiser que me acompanhe, quem não quiser…”.

Para o Dia da Mulher e para as mães de pessoas especiais, Helena Holanda deixa o seguinte recado: “Não se curvem diante dos homens ou dos preconceitos, nem de etiquetas sociais criadas para diferenciar a sociedade. Sejam felizes do jeito que são. Devemos saber que as mães de especiais é que são mulheres de verdade. Que as mães especiais tenham um lugar especial, uma homenagem especial, pois elas são também muito especiais”.

Saiba mais

Helena Holanda é autora dos livros:
Experiências de Atividades Físicas para Deficientes Visuais – 1980
Vamos Ensinar Danças – 1991
Eu e Eles Somos Especiais – 2002
Aprendendo, brincando e dançando – 2007

O Centro de Atividades Especial Helena Holanda fica localizado na Rua Bancários Francisco Mendes, S/N – Bairro Pedro Gondim – João Pessoa – Paraíba / Telefone: (83) 3244-5833 / E-mail – caehh@hotmail.com.

Site: http://www.caehh.org.br

Você pode colabora com o CAEHH através da conta corrente, entrando em contato com o centro, comprando produtos fabricado por eles, vendo a lista do que estão precisando. Conta Corrente:
Banco do Brasil
C/C: 12492-3
Ag: 3277-8

Conheça um pouco sobre a história de Helen Keller e  Anne Sullivan

http://pt.wikipedia.org/wiki/Helen_Keller
http://pt.wikipedia.org/wiki/Anne_Sullivan

Veja um vídeo sobre o CAEHH

 

Helena Holanda durante apresentação

 

Atendimento do Centro de Atividades Especiais Helena Holanda

 

Portal Mulher de Fato, Dani Rabelo

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