Título Mulher de Fato

‘Título Mulher de Fato’ de fevereiro: Lucinha Araújo

Atualizado em: 07/02/2013

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Dando sequências ao projeto ‘Título Mulher de Fato – 2013’, no mês de fevereiro vamos homenagear uma mulher conhecida por milhares de brasileiros pela paixão que ainda demonstra pelo seu filho e pela sua história, que mistura dor e luta. Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, é a nossa escolha para o Título Mulher de Fato deste mês.

Durante algum tempo, Lucinha Araújo era uma pessoa anônima, mãe do polêmico e genial Cazuza, um artista que marcou a sua geração escrevendo letras que falavam sobre os sentimentos mais belos e mais vis do ser humano. Além das suas canções, Cazuza foi um dos primeiros brasileiros que assumiu ter sido contaminado pelo vírus da Aids, e é neste momento que Lucinha Araújo deixa de ser uma desconhecida para o grande público, e passa a ser reconhecida pelo grande amor que entregou ao seu filho até ele ser levado pela doença.

Sempre mãe

Maria Lúcia Araújo, nascida em agosto de 1936, é casada com o produtor musical João Araújo, e nos últimos anos, depois de enfrentar muitas batalhas, demonstra nas entrevistas o seu cansaço. Fundadora da Sociedade Viva Cazuza, Ong criada em 1990 após a morte de seu filho para cuidar e oferecer assistência a crianças com Aids, ela afirma que pretende dar mais atenção ao marido, mas confessa que até hoje não passa um dia sem pensar em Cazuza: “Converso com ele todos os dias. Ele prometeu que nunca me abandonaria e sempre o sinto do meu lado”, relata.

Para os que encontram Lucinha, ela não parece ser uma mulher amargurada, e sim uma pessoa que aprendeu a lidar com a própria dor. Cazuza morreu em uma época que os estudos sobre a Aids estavam começando, e apesar dos investimentos com médicos e medicamentos estrangeiros, a morte do único filho foi inevitável.

Dias difíceis

Os dias ao lado de Cazuza foram de dedicação total, e o sofrimento foi tanto que ela não percebeu os sintomas da menopausa: “Eu não senti a menopausa, porque a dor de antes tinha sido tão grande, que nem reparei”.

Durante o enterro Lucinha Araújo achou que fosse morrer com o filho, achou que não conseguiria viver sem ele. “Meu marido tinha a mania de falar para o Cazuza: Você não vai morrer, porque eu não vou deixar. Às vezes, ele ligava para o pai e pedia – vem aqui falar aquele negócio. Meu marido largava o trabalho só para falar isso: Não vou deixar você morrer. Uma amiga minha chegou para mim e falou – você não vai morrer e sim escrever um livro”, relatou ela em uma entrevista.

Apesar da dor, começou a sua caminhada, e se engajou na luta pela melhorar a vida dos soropositivos, participando de diversos eventos para falar sobre prevenção. “Morrer não iria adiantar nada. Não traria meu filho de volta”.

Uma dor sem fim

Em 2011, Lucinha dizia que “o sofrimento estava completando a maioridade”. De uma forma direta ela retrata o seu sentimento: “Só quem perdeu um filho me entende. A dor não termina e na verdade eu nem quero que termine. Há uns 15 anos eu vi uma declaração da mãe de uma pessoa famosa falando que no primeiro ano foi horrível, mas que no momento já estava tudo bem. Eu pensei: ‘essa mulher é louca’ ou eu é que sou louca. Não é possível, a gente não esquece nunca mais. Todo dia eu acordo e rezo para ele, peço para ele estar em bom lugar, para ele sempre me acompanhar, até quando estou sem cozinheira, eu peço para ele me dar ajuda e indicar lá por cima uma pessoa boa (risos). Eu uso e abuso dele porque sei que ele está sempre do meu lado. Ele me prometeu que aconteça o que acontecer, ele estaria sempre perto de mim e eu sei que ele está. Não há um dia que eu não pense nele, às vezes com mais alegria e outras com tristeza. Há dias que choro e choro, mas depois também penso que tenho que ir a luta”.

Nunca sozinha

Em todas as suas entrevistas Lucinha fala que sempre está “conversando” com Cazuza. A ligação entre mãe e filho não foi perdida com a morte, mas explicou que ele nunca apareceu para ela, no entanto, adoraria que isso acontecesse: ver o fantasma Cazuza.

Já em sonhos a história é diferente, Cazuza parece estar bastante presente. Em um desses sonhos ela relatou que dormia com o marido, no quarto que Cazuza morreu, e sonhou com ele todo de branco, barba branca e cabelo branco.  “Era como ele tivesse envelhecido, não sei se eu estava impressionada com aquele filme Nosso Lar (Chico Xavier) mas enfim. Eu reparei que havia uma senhora de branco também, ao lado dele com a cabeça encostada nele. Eu a reconheci como sendo a minha mãe”, relatou.

Viva Cazuza

Após dois anos de fundação, a Sociedade Viva Cazuza foi para uma sede própria no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Lá são recebidas crianças e adolescentes com o vírus da Aids, e no caso das crianças, a maioria contraiu a doença através das mães. Sobre a doença, Lucinha fez o seguinte alerta: “A Aids ainda não tem cura. A Aids saiu de moda e as pessoas estão voltando a se contaminar”.

As coisas estão mudando, e a associação sentiu a chegada do crack no Brasil. Ela relatou que não recebia bebês há algum tempo, mas que isso voltou a acontecer: “Falam que é a droga, são os filhos do crack. Eu trabalho muito com a população de rua e pacientes de hospitais psiquiátricos. De modo geral não posso exigir dessas pessoas, ‘usem camisinha’. Coitados, eles não têm nem comida, nem o feijão com arroz … como vou falar em camisinha? Não tem condição de fazer uma educação sexual. Eu fico pensando: Gente, qual é o prazer desse povo que mora do viaduto? É transar e se drogar. Esse é o momento que eles esquecem a vida deles, vida desgraçada. A gente vai ficando velha e aprende a não censurar, hoje eu não censuro mais ninguém, cada um cuida de sua vida”.

A situação financeira da Ong é motivo de preocupação, mas a sociedade não deixa de ser um motivo de alegria, principalmente quando um dos jovens atendidos pela Viva Cazuza consegue superar as dificuldades e o preconceito.

Antigamente, 50% dos gastos da Ong eram pagos com os direitos autorais das músicas do Cazuza, nos últimos anos essa renda cobre apenas 10% dos gastos. Para fechar as contas, Lucinha começou a realizar eventos e promoções, além de contar com a doação de algumas pessoas.

Os livros

Como ela mesmo explicou, o primeiro livro ‘Cazuza, só as mães são felizes’ (2000), esse livro foi escrito pois tinha necessidade “de botar para fora tudo o que estava engasgado”. “As pessoas conheciam aquele lado maluco do Cazuza. Mas ele não era só aquilo. Uma pessoa nunca tem um lado só. Mostrei o lado doce, de bom filho, de bom amigo… Passei a limpo nossas vidas”, explicou. O segundo, ‘Cazuza, eu preciso dizer que te amo’ (2001), “era para passar a carreira dele a limpo”, e traz depoimentos dos amigos dele.

Seu último livro foi escrito em ‘O Tempo não Para – Viva Cazuza’ (2011), e segundo Lucinha, “é para mostrar como eu passei esses 21 anos sem ele”.

A cura da Aids

“O meu desejo é a cura da AIDS, mas eu acho que ainda está muito longe. Acredito que surgirão muito mais remédios que tornarão a vida do portador bem melhor. Acho que daqui a algum tempo vai ficar parecido com a diabetes. Não tem cura, mas pode se conviver com ela”, desabafou.

Saiba mais

Filme

‘Cazuza – O Tempo não Para’
Gênero: Drama biográfico
Direção: Sandra Werneck e Walter Carvalho
Roteiro: Fernando Bonassi e Victor Navas, é baseado no livro Cazuza, Só As Mães São Felizes
Elenco: Daniel de Oliveira (Cazuza), Marieta Severo (Lucinha Araújo), Reginaldo Faria (João Araújo), entre outros.

Vídeo

Depoimento Lucinha Araújo sobre Cazuza – Viver a Vida

Portal Mulher de Fato, com informações: Wikipédia, Contigo, Globo.com e Revista Época.

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