Título Mulher de Fato

Nancy Brinker, a criadora do Outubro Rosa. Nossa Mulher de Fato de Outubro!

Atualizado em: 01/10/2015

nancy brinker

Nancy Goodman Brinker não sabia no que estava se metendo quando prometeu à irmã mais velha, Susan G. Komen, que faria tudo o que fosse possível para descobrir a cura do câncer de mama. Komen morreu acometida pela doença aos 36 anos, em 1980.

“Eu tinha 33 anos e fiquei arrasada com a perda da minha irmã e melhor amiga”, disse Brinker durante palestra recente proferida em um seminário sobre liderança da Wharton. “Nosso pai sempre dizia que não devemos desistir jamais, nunca devemos perder o foco, mas aquilo era algo completamente novo, um enorme desafio que me senti obrigada a enfrentar.”

Passados dois anos, Brinker criou a fundação Susan G. Komen for the Cure. A instituição levantou cerca de US$ 2 bilhões basicamente para a pesquisa do câncer de mama. Ela passou de vendedora da Neiman Marcus a diplomata conhecida internacionalmente e presidente da fundação — não porque soubesse alguma coisa do mundo das instituições sem fins lucrativos, disse, mas porque se concentrou em aprender, às vezes através de tentativa e erro.

Ela jamais perdeu de vista o objetivo inspirado pela experiência da irmã.

Espalhando a mensagem

“Quando começamos, não podíamos sequer dizer ‘seio’ nos meios de comunicação, nem mesmo na televisão pública […]”, disse Brinker. As pessoas também não queriam falar de câncer de mama, “embora o índice de mortes fosse elevado e houvesse apenas uns poucos remédios eficazes na época. A mamografia era a única técnica mais moderna de que dispúnhamos. Decidi então pensar num modo de transmitir mensagens convencionais de maneiras não convencionais”.

Por exemplo: como a cor favorita da irmã era a cor-de-rosa, essa cor se tornou a marca por excelência da mensagem da fundação Susan G. Komen. Ela se empenhou para que o tema surgisse em vários lugares diferentes. “Às vezes, discutíamos os efeitos colaterais e os resultados de vários tratamentos”, lembra Brinker. “Ou então, participávamos de programas de esporte em que havia mulheres e tentávamos introduzir alguma coisa sobre câncer de mama. Pedíamos aos produtores de novelas que fizessem alusão à doença na história. Tentávamos adequar nossa mensagem aos homens do governo, que na época eram maioria em Washington D.C. Conseguimos que algumas celebridades atraentes comentassem o assunto — talvez alguém que tivesse tido câncer de mama na família, mas sempre alguém que soubesse se expressar bem. Era um esforço em todas as frentes.”

Brinker teve de descobrir também como ser líder, apesar da falta de preparo, mas ela se lembrava sempre da advertência do pai de que devia achar um nicho e ser a melhor, não importava quais fossem suas habilidades.

Foi então que conseguiu um emprego na Neiman Marcus de Dallas, onde seu marido, Norman, havia decidido seguir carreira no segmento de restaurantes. Embora houvesse poucos empregos de destaque para mulheres na época, disse Brinker, ela aceitou o emprego na Neiman Marcus porque seu fundador, Stanley Marcus, dissera — e suas palavras tiveram grande repercussão — que não havia limites profissionais em suas lojas para as mulheres. Brinker sabia que não era uma vendedora glamourosa, mas percebeu que sabia como insistir com as clientes sugerindo que experimentassem diferentes modelos de vestidos que ia buscar no estoque ou nas prateleiras da loja. “Como dizia meu pai, fiz o melhor que podia: criei um nicho e me dediquei a ele.”

Essa estratégia, acrescentou, é um de seus principais critérios de liderança: concentrar-se no objetivo. “Não se distraia. Haverá contratempos. Nada é perfeito”, disse Brinker. Com o passar dos anos, ela desenvolveu uma relação muito próxima com a ex-primeira dama Laura Bush. Quando o mandato de George W. Bush na presidência chegou ao fim, Laura Bush perguntou a Brinker o que ela achava que deveria fazer com o tempo de que agora dispunha. “Disse a ela que escolhesse um objetivo e se concentrasse nele”, disse Brinker. “Há tantas coisas que distraem a gente; temos de controlar o que podemos controlar e deixar para lá as distrações.”

O líder também precisa saber qual o seu objetivo antes de qualquer coisa, disse Brinker.”Parece simples dizer que não se deve começar nada com o fim em mente, mas como muita gente não sabe aonde quer chegar, o objetivo não é nunca atingido.”

Um equívoco gigantesco

Norman Brinker, de quem Nancy Brinker se divorciou amigavelmente em 2003, faleceu em 2009. Ele foi um grande doador para a causa Republicana. Nancy Brinker acabou tendo dois empregos importantes no governo de George W. Bush — primeiro, como embaixadora dos EUA na Hungria; depois, como chefe de protocolo.

Quando foi nomeada para a embaixada da Hungria, ela achou que sua missão principal fosse divulgar a mensagem da fundação Komen na Europa Oriental, onde o tratamento do câncer de mama e a conscientização a respeito da doença ainda davam os primeiros passos. “A Hungria era um país de nível intermediário que podia estar numa situação melhor do que essa. Eu estava muito empolgada e pronta para trabalhar com as ONGs”, disse ela. Na manhã em que deveria voar para Budapeste, Brinker ficou sabendo que um avião havia colidido com um edifício. Era 11 de setembro de 2001. “As coisas ficaram então um pouco diferentes no leste europeu, e eu tive de mudar meus planos.”

Apesar dos empregos de alto nível no governo, Brinker disse que nunca perdeu o foco de sua principal ambição: livrar o mundo do câncer de mama. A taxa de sobrevivência nos EUA depois de cinco anos, disse Brinker, havia passado de pouco mais de 70% para mais de 90% durante o tempo que passou na fundação Susan G. Komen for the Cure.

Ela disse ainda que jamais ignora as críticas, mas tenta usá-las para fortalecer a fundação e sua mensagem. No ano passado, o grupo anunciou que pretendia cortar a ajuda financeira que dava ao Planned Parenthood, uma organização que faz exames de câncer de mama e outros serviços — inclusive abortos — para mulheres de baixa renda. A ira — e a ameaça de corte de doações — que essa notícia suscitou nas mulheres de todo o país fez com que Brinker acabasse por cancelar a decisão da fundação.

“Felizmente, isso passou”, disse ela, acrescentando que pediu desculpas em público e ao Planned Parenthood por ter trazido à tona o problema em má hora. “Havíamos financiado 16 projetos e queríamos reinventá-los. Não tínhamos experiência política. Nossa única preocupação era nossa missão, por isso cometemos um grande equívoco pelo qual pedi desculpas. Aprendi que é preciso prestar atenção às coisas pequenas, à maneira como usamos cada palavra, caso contrário, essas coisas podem nos derrubar. Acho que estamos de volta aos trilhos agora”, disse.

A controvérsia com o Planned Parenthood também a deixou mais atenta às implicações das mídias sociais, como Twitter e Facebook, que, no seu entender, fizeram com que a polêmica se alastrasse mais rapidamente do que sua capacidade de gerenciá-la.

A mensagem da fundação Susan G. Komen também tem de se manter atualizada com as mudanças, disse Brinker. A fundação faz isso, por exemplo, adaptando o linguajar que usa com as mulheres mais jovens. “Não usamos o termo ‘vítima’, porque todas são ‘sobreviventes’ mesmo que estejam morrendo”, disse. “Não quero que as pessoas se sintam como se tivessem fracassado. Fomos criticados por causa disso, mas o linguajar que usamos é dirigido a uma geração diferente. As pacientes querem se sentir mais importantes para si mesmas e para sua família. Elas têm mais poder de decisão e mais instrução do que as mulheres dos primeiros tempos da instituição.”

Apesar disso, acrescentou, “as mulheres precisam de consolo e de um meio de lidar com a doença. Não podemos simplesmente animá-las a se vestirem de cor-de-rosa ou participar de corridas. O mundo hoje é mais complicado”.

Brinker, porém, está preocupada. Ela teme que o sucesso da fundação ao se aproximar cada vez mais do seu objetivo original possa, de algum modo, acarretar cortes nos fundos de pesquisa. Embora a fundação Susan G. Komen tenha feito doações para a pesquisa do câncer de colo de útero e para outras doenças que acometem as mulheres, o foco principal da instituição continua a ser a erradicação do câncer de mama.

O importante é manter o foco no objetivo o tempo todo, sem cessar”, disse ela, salientando que a pesquisa pode tomar vários caminhos — desde testes médicos tradicionais à medicina holística, além de perfis psicológicos, que podem detectar se o câncer é causado pelo estresse. “Contudo, me preocupo, e não tenho muitas esperanças, com a situação atual da pesquisa do câncer. As pessoas em cujo preparo investimos — para que seguissem carreira na pesquisa — já não conseguem mais doações do governo. Não que trabalhar com tecnologia seja ruim, mas será que essas pessoas não se sentirão frustradas preferindo, em vez da pesquisa, criar aplicativos maravilhosos para a Apple? Tentamos criar um movimento, mas se perdermos toda uma geração de gente brilhante, o que foi que conseguimos afinal?”, indagou. “Por isso não posso parar até que meu objetivo — a promessa que fiz à minha irmã — seja finalmente alcançado.”

Fonte: .knowledgeatwharton

 

 

 

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