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‘Uso a flexibilidade e a sabedoria chinesa sempre que encaro dificuldades’

Atualizado em: 17/08/2013

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Ping Fu é hoje uma empreendedora de sucesso. Mas, antes de começar seu negócio, ela sofreu na pele a violência da Revolução Cultural na China. Ping nasceu em 1958, no auge do movimento político e ideológico liderado pelo então presidente do país, Mao Tse-tung. Por conta do regime, foi separada dos pais aos 8 anos de idade e enviada de Shangai, onde morava, para Nanjing, a 300 km de distância. Ela se tornou responsável por criar a irmã caçula como se fosse sua filha, fez trabalhos forçados e sofreu abusos de todo tipo, de verbais a sexuais, conta Ping. Aos 25 anos, foi “convidada a se retirar” da China e mandada aos Estados Unidos, com US$ 80 no bolso e três palavras em inglês na cabeça.

Formada em literatura, Ping dedicou-se a estudar informática. Instalou-se em Morrisville, na Carolina do Norte e, em 1997, fundou a Geomagic, uma empresa de criação de softwares para impressoras 3D. Em fevereiro deste ano, sua empresa foi incorporada à 3D Systems, maior empresa de impressão 3D do mundo, em um negócio de US$ 55 milhões. A trajetória da chinesa é contada no livro A Teoria do Bambu, lançado no mês passado pela Portfolio-Penguin. Uma das características do bambu é a sua resiliência – isto é, sua capacidade de se manter firme e se curvar para não quebrar. Assim como a planta, é preciso ter resistência e flexibilidade para atingir o sucesso.

Em entrevista a Pequenas Empresas & Grandes Negócios, Ping Fu falou sobre sua inspiração para o negócio, dos altos e baixos na vida de uma startup e da participação do Brasil no setor em que atua.

Em A Teoria do Bambu, você faz uma analogia entre um provérbio chinês, dos três amigos do inverno, e os valores necessários para o sucesso. Como esse provérbio a ajudou na vida e na carreira?

Essa história é usada para ensinar as pessoas sobre o valor da dignidade, do orgulho e da resiliência. O primeiro amigo do inverno é o pinheiro, que representa a dignidade, por estar sempre verde, ereto e impassível frente a qualquer situação desfavorável. O segundo é a flor da ameixeira. Mesmo no inverno mais rígido, ela é a primeira a florescer. É como uma mulher que se mostra bela na mais rígida das situações – essa característica representa o orgulho. Já o bambu representa a resiliência. O bambu se mantém de pé, não importa de onde o vento venha. E, para aguentar os ventos, ele se dobra, é flexível.

Eu me lembro dessa flexibilidade e de toda a sabedoria tradicional sempre que encaro dificuldades durante minha jornada nos negócios e na vida.

Mesmo sendo uma empreendedora de sucesso, no livro você conta que não tinha vontade de ter seu próprio negócio. Nos anos 90, você chegou a escrever um livro na China, criticando quem queria se tornar um empreendedor, certo?

Sim. Até três anos antes de ter a ideia da Geomagic, eu pensava que nunca teria um negócio. A forma como eu cresci na China me fez acreditar que o dinheiro era ruim, e eu via muitos empreendedores, homens de negócios e pessoas que estudaram sendo punidas na Revolução Cultural. Eu fui condicionada a acreditar nesses conceitos. Mas o ser humano muda muito através do tempo. Começar uma empresa e uma família me tornou muito diferente do que eu era naquela época.

Como surgiu a ideia da Geomagic?

Quando decidi montar meu próprio negócio, comecei a pesquisar em diversas áreas. Na procura, vi uma demonstração de uma impressão 3D feita por Chuck Hull, que foi o inventor da tecnologia e é o fundador da 3D Systems, a companhia que incorporou a Geomagic.

Eu sempre tive afinidade por criar coisas. Quando vi aquela máquina, meus olhos se arregalaram e eu fiquei tão atraída por aquela tecnologia, pensando: “Uau, essa máquina pode imprimir qualquer coisa”. Eu logo percebi que, por outro lado, não havia no mercado softwares para essas impressoras.

Essas máquinas precisam de softwares para funcionar, assim como uma impressora 2D precisa do Microsoft Word ou do pacote Adobe. A partir daí, comecei a pensar em uma empresa para criar conteúdo para as impressoras.

No livro, você fala que uma ideia de “fábrica pessoal” a inspirou a criar seu negócio. Como esse conceito surgiu?

A impressão 3D é uma combinação entre o artesanato e a tecnologia trazida pela internet. Por milhares de anos, criamos artefatos com as mãos. Cada produto era singular. Com a revolução industrial e a internet, passamos a criar milhões de produtos iguais, milhões feitos a partir de um único modelo. Na impressão 3D, produzimos em linha de montagem, mas cada um dos produtos pode ser diferente. A partir dos softwares, conseguimos personalizar as peças e mesmo assim fabricá-las em massa.

Fora essa combinação entre artesanato e produção em massa, quais outras vantagens a impressão 3D tem?

A primeira vantagem é que a produção é localizada. Por exemplo, os produtos encontrados em São Francisco foram feitos em São Francisco – não foram fabricados em Nova York e transportados para lá. Com a impressão 3D, você fornece o design globalmente e produz localmente. Isso faz com que empregos sejam criados nas cidades, e cada país pode ter suas indústrias. Além disso, o fabricante está mais próximo dos clientes, o que garante um atendimento mais personalizado.

O serviço também é mais verde, porque a produção local faz com que o transporte não seja necessário, o que traz economia de combustível. Como os produtos são feitos sob demanda, não é preciso produzir um monte de coisas que acabarão não sendo compradas.

Outra vantagem da impressão 3D é que criamos vagas com altos salários. O setor é um multiplicador de empregos: está criando vagas nas áreas de software, comércio eletrônico, distribuição de produtos e serviços personalizados, entre outros.

No livro, você fala algo muito diferente do que os empreendedores costumam dizer. Muita gente começa um negócio porque quer trabalhar para eles mesmos, sem um patrão. Mas você diz que essa ideia é incorreta e que quem tem uma startup tem que trabalhar para todo mundo. Fale um pouco mais sobre isso.

Eu creio que o pensamento de ser um empreendedor e não trabalhar para ninguém é um mito porque, assim que as pessoas começam um negócio, elas percebem que, na verdade, trabalham para todo mundo. Para os funcionários, para os clientes e para os parceiros. A última coisa que eles fazem é trabalhar para eles mesmos. Muitos empreendedores, aliás, acabam fazendo algo que eu mesma fiz: cortar o próprio salário.

Como empreendedor, você ganha um certo poder de decisão, mas isso não significa que você trabalhe para si mesmo, porque ninguém paga pelas suas decisões. Você é pago pelo serviço que presta. Quem vai começar um negócio tem de ter isso claro. Quem pensar de forma egoísta, que vai trabalhar apenas para si mesmo, vai falhar.

Em A Teoria do Bambu, você menciona uma frase muito interessante do CEO do LinkedIn, Reid Hoffman, que diz que “começar uma empresa é como cair de um penhasco e construir um avião enquanto cai”. Fale sobre alguns problemas que você teve antes de começar a voar.

No começo da empreitada, há muitas coisas sobre o negócio que você não sabe. Você não sabe como tratar seus funcionários, como falar com seus clientes e muitas, muitas outras coisas. E você tem de aprendê-las e se aliar a pessoas que sabem mais do que você. Perceber que você não sabe de tudo e a habilidade de aprender rapidamente, enquanto cai do abismo, são valores formidáveis.

As pessoas dizem que começar um negócio envolve muitos riscos, e que você pode se arrepender. Já eu falo que montar um negócio é o começo de uma longa jornada, que será cheia de percalços. O sucesso na empreitada não se baseia em nunca falhar, nem em se arriscar demais. Para ser bem-sucedido, é importante suavizar esses riscos. E montar um avião enquanto cai de um abismo é suavizar o risco que você tem de encontrar o chão após o salto.

Como sua empresa vê o Brasil como um alvo para a impressão 3D e um lugar para empreender?

Ainda não visitei o Brasil, mas adoraria conhecer o país. Nós fazemos negócios com o Brasil e nós sabemos que é um dos países que mais crescem. Claro que o país tem alguns problemas, como a carga tributária não muito amigável, mas que faz parte da política do governo. As pessoas, no entanto, são muito inovadoras.

Eu escuto de pessoas que fazem negócios com o Brasil que o país adota rapidamente novas tecnologias. Por exemplo, uma das companhias com quem trabalhamos anteriormente, a Invisalign, que é especializada em aparelhos ortodônticos, tem no Brasil seu segundo principal mercado, atrás apenas dos Estados Unidos. E o Brasil foi o primeiro a adotar a impressão 3D nos produtos e mostrar que os aparelhos eram de qualidade.

No geral, o país me impressiona bastante. Esperamos que o governo torne o ambiente de negócios do país amigável, porque isso realmente ajudaria o Brasil a brilhar no século 21.

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