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Serra Pelada, A Lenda da Montanha de Ouro, estréia nos cinemas

Atualizado em: 25/10/2013

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Recentemente, a história de Serra Pelada foi contada nos cinemas brasileiros em uma grande produção da Globo Filmes, tentando captar a sensação de se estar dentro do garimpo, junto dos homens, em plena busca pelo ouro. Uma semana depois, Serra Pelada, A Lenda da Montanha de Ouro decide efetuar o caminho oposto, abordando esta parte da história com distanciamento, ouvindo diversas partes envolvidas na febre do ouro. A ficção queria recriar a ilusão, já o documentário se encarrega de desconstruí-la.


O diretor Victor Lopes efetua boas escolhas éticas: ao invés de querer mostrar “a verdade” por trás de Serra Pelada, apresentando fatos e contestando versões, ele decide explorar justamente o fato de que esta história é controversa, mal documentada, e pode ser interpretada de diversas maneiras. O documentário escuta com igual atenção os garimpeiros, o Major Curió, prefeito autoritário do garimpo, e o presidente da Vale do Rio Doce, que se sente lesado pela extração frenética.

Mas talvez os depoimentos mais ricos venham de antigos trabalhadores do local que relatam, com nostalgia ou remorso, seus anos de mineração. O cineasta aparenta ter grande proximidade com seus entrevistados, criando um tom de conversa informal, despretensiosa, que permite justamente as histórias mais inusitadas – e mais valiosas. Enquanto alguns evocam a convivência no garimpo como uma “sociedade perfeita” (com distribuição igualitária das terras, amizade entre os homens e mulheres à vontade), outros descrevem a organização de Serra Pelada como uma “Auschwitz tropical”.

Aí reside o maior mérito deste documentário: superar as questões históricas para chegar às implicações políticas e sociológicas desta nova cidade, criada às pressas, em torno da descoberta do ouro. Lopes usa Serra Pelada como uma metáfora para a utopia política de extrair da natureza uma riqueza que esteja ao alcance de todos, em igual proporção. Mas ao invés de se contaminar pela euforia da época, ele prefere mostrar o fim da festa, a reflexão após o baque. Conexões preciosas são feitas com os governos brasileiros, desde a ditadura militar até a privatização da Vale do Rio Doce por FHC.

Sem adicionar uma narração própria sequer, o documentário consegue contrapor diferentes pontos de vista e suscitar uma reflexão equilibrada a respeito da lenda, construída por histórias populares, fatos pouco comprovados, números aproximados. A incerteza sobre como retratar Serra Pelada é um dos principais temas do filme, que funciona também como reflexão sobre a própria representação da História no cinema.

Tecnicamente, a produção não tenta nenhuma ousadia estética, mas usa com inteligência os recursos da linguagem documental. Ao invés de abusar da trilha sonora, do som sincronizado para os depoimentos e de outras ferramentas típicas das reportagens (e dos documentários mais ingênuos), Serra Pelada, a Lenda da Montanha de Ouro tem uma montagem enxuta, tanto de som quanto de imagem, conseguindo criar novos significados para fotos e materiais de arquivo a partir do momento que são sobrepostos a depoimentos de época, em off. Lopes construiu uma obra de aparência modesta, mas inteligente como reflexão sobre o cinema e sobre a História.

Fonte: Bruno Carmelo, Adoro Cinema.com
 

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