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Qual é o futuro das mulheres no mercado de tecnologia?

Atualizado em: 08/05/2015

Sexismo

A edição de maio da Época NEGÓCIOS, que chegou às bancas nessa quinta (7), sobre machismo em tecnologia. O mercado de tecnologia vem se ocupando nas últimas cinco décadas em criar carros que se dirigem, drones, smartphones cada vez menores e outras inovações, mas parece incapaz de resolver uma questão mais urgente: a da baixa participação feminina. É uma tendência que acompanha a mulher na área da hora que ela entra na faculdade. A programadora vai ser sempre minoria do primeiro dia de aula à aposentadoria. Nós fizemos um levantamos sobre o número de mulheres nas turmas que passaram no vestibular de computação das principais faculdades federais do Brasil no ano passado. A que tem a maior participação feminina é a Federal de Pernambuco: quase 16% dos calouros são mulheres. É daí para baixo. E quem entra na faculdade enfrenta um ambiente cheio de desconfiança dos seus pares masculinos. Muitas desistem antes mesmo de se formarem.

Terminada a faculdade, essa tendência é replicada no mercado de trabalho. No Google, 30% dos funcionários são mulheres. Se levarmos em conta a divisão de engenharia, o mais importante do buscador, a relação é ainda menor: 17%. No Brasil, encolhe ainda mais: só 10% dos engenheiros no centro de engenharias de Belo Horizonte são mulheres. Não é um problema isolado. A mesma relação desigual entre homens e mulheres acontece no Facebook (31% são mulheres), na Apple (30%), no Twitter (30%) e no Yahoo (37%). Não é exclusividade para as assalariadas: só 10% dos aportes financeiros são feitos em startups comandadas por mulheres, segundo estudo da Harvard Business School. Um dos principais argumentos dos céticos quanto ao problema é que mulher não nasceu para computação, que a qualidade é menor. É um conceito que se desmancha quando você conversa com quem contrata engenheiros e programadores nas maiores empresas do mundo. Todos concordam que a qualidade é a mesma. O problema é achar mulher para contratar.

Mas ser minoria não o único problema. Mulheres recebem como os salários menores para as mesmas posições. No Brasil, elas ganham 30% a menos que eles em posições mais técnicas, como analistas de sistemas, engenheiras de software e programadoras, com o mesmo nível de estudo. O número foi compilado a partir do PNAD, do IBGE, pela pesquisadora Barbara Castro, da Unicamp. Mas esse não é um problema só de números. Esse post poderia repetir centenas de estatísticas e, ainda assim, não pintaria exatamente o quão grave ele é. É um problema de histórias. A reportagem ouviu dezenas de mulheres que trabalharam ou trabalham com tecnologia no Brasil e enfrentam esses problemas diariamente.

A experiência das mulheres na faculdade é muito parecido com o que a Camila Achutti, que fez computação na USP em 2010, passou. Os colegas homens todos faziam os trabalhos em horas enquanto ela demorava dias por não ter feito ensino técnico. Ela ainda tinha que ouvir coisas como “ah, mas você tá estudando? acho que você não nasceu para isso”. Tem a história também das mulheres que se masculinizam para serem melhor aceitas pelos homens. A pesquisadora Barbara entrevistou uma executiva de tecnologia que “matou” sua vaidade durante anos. Ela só se sentiu livre para usar cabelo longo, maquiagem e joias quando já era diretora. Daí você ia ver o crachá dela, com foto tirada no primeiro ano de empresa, e ela está de cabelo curto, cara lavada, sem joias nenhuma. Ou da empreendedora que foi convidada para uma reunião com um investidor e, meses depois, soube que a reunião não era para um aporte na startup, mas para um encontro entre os dois. Sem ela que tivesse concordado.

É uma realidade bem triste, por que também há um silêncio gigantesco ao redor dela. O problema existe, mas fala-se muito pouco sobre isso. E mesmo muitas das mulheres consultadas para a reportagem não parecem confortáveis em conversar sobre. Existe o medo de que qualquer promoção após uma reclamação com os chefes seja encarada como privilégio. Só foi promovida por que é mulher. E tem mulheres que acham que o problema não é com o setor, mas com elas. O que torna a realidade ainda mais triste. Não basta ter mais educação, ganhar menos e ser desconfiada, ainda tem um processo de destruição de auto-estima envolvido.

Processo na Justiça, como o perdido por Ellen Pao contra o fundo Kleiner Perkins Caufield Byers, parece ser o caminho para tentar equalizar as relações de trabalho, mas eles não vão magicamente resolver o problema da falta de mulheres que se interessam pela área. Alguns projetos, como o Coder Girl aqui no Brasil, tentam resolver isso atacando a faixa etária onde a menina decide para que área vai: a adolescência. Mas é um esforço de longo prazo, cujo impacto deverá demorar décadas para ser sentido. Mesmo lento, parece ser a melhor alternativa na tentativa de equalizar a distribuição de gênero no atual mercado de tecnologia

 

Fonte: época negócios

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