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Pequenos desastres levam noivas à Justiça, ao Procon e à internet

Atualizado em: 01/03/2012

Quando abriu os olhos, a defensora pública Elisa Maria Rudge Ramos da Silva Telles, 28, mal se reconheceu. “O visual era supercarregado, eu estava parecendo uma cantora de rock.”

Em plena prova de maquiagem, a noiva pediu mais leveza ao profissional e teve uma resposta, no mínimo, inesperada: “Se não gostou, procure outro”. Tarde demais, o serviço já estava pago.

Era março de 2011 e faltavam três meses para a cerimônia. Diante da recusa do maquiador em refazer o teste, ela decidiu seguir seu conselho e tentou rescindir o contrato. Não conseguiu.

Para pegar o dinheiro de volta, precisou recorrer ao Juizado Especial Cível, que recebe causas de até 40 salários mínimos (R$ 24.880). Embora tenha aceitado a conciliação, não ficou satisfeita -pouco mais da metade do valor foi ressarcido.

Elisa não está sozinha. Um registro não oficial ajuda a dar uma dimensão dos problemas no setor.

Só no ano passado, o site Reclame Aqui acumulou 2.064 queixas de paulistanos ligadas ao tema casamento. Sobre formaturas, foram 698.

Na jurisprudência da Justiça paulista, a reportagem levantou seis casos mais graves, que envolvem danos morais, entre 2009 e 2011.

Os noivos reclamam de café frio, carne requentada, maionese azeda, uso de talheres e pratos descartáveis pelo bufê e músicos diferentes dos contratados.

Um dos processos é o da noiva V.P.O., 46. A festa realizada em 2009 no Moreno’s Buffet e Recepções, com sede no Sumaré (zona oeste), não contou, segundo ela, com cadeiras e garçons suficientes para os 150 convidados e teve comida servida fria e salgada demais. Até o bolo acabou desmoronando.

“Ela esperou 44 anos para casar, imagine a decepção”, afirmou o marido. Ela não quis dar entrevista.

Em nota, a empresa disse que não recebeu a segunda parcela do pagamento, a 13 dias do evento, mas agiu de “boa-fé” e realizou a festa.

Sobre os problemas relatados, argumentou que atua há anos no mercado e nunca teve nenhuma reclamação. Já o bolo teria sido derrubado acidentalmente pelo DJ contratado pelos noivos.

Foi sentenciado em segunda instância que o casal deve pagar ao bufê o valor do cheque sustado, de R$ 6.500. E o proprietário do Moreno’s foi condenado a pagar uma indenização por danos morais no mesmo valor.

Casada em 2009, a farmacêutica Aline Ferrari, 31, usou a internet para relatar sua insatisfação com a loja Nova Noiva da av. Rebouças.

Ao buscar o vestido, foi descoberto um rasgo com remendo “grosseiro” na renda. “Comecei a chorar, me tiraram de perto das outras noivas e me isolaram numa salinha. Ameacei chamar a polícia quando sugeriram que o escândalo era por ter me arrependido do modelo”, diz ela, que pagou cerca de R$ 5.000.

A casa concordou em fazer as alterações e o vestido foi entregue na véspera. “Perdi o coquetel de entrega da chaves do meu apartamento e parte do meu dia de noiva”, lamenta.

A loja informou que havia um “furo diminuto na renda” e, como não daria tempo para confeccionar uma nova peça, foi feito um “prolongamento”.

A Nova Noiva disse ainda que a cliente preencheu uma pesquisa de satisfação dizendo que o “vestido ficou de acordo com o combinado”. Aline confirma, mas conta que preencheu o questionário antes de constatar o problema.

Venda casada

Considerada abusiva pelo Código de Defesa do Consumidor, a venda casada (quando o templo impõe aos noivos a contratação de um fotógrafo, por exemplo) é outra queixa comum.

“Os consumidores ficam coagidos porque a atitude das igrejas geralmente é: ‘Só faremos se for assim'”, diz Karina Alfano, a gerente de relacionamento do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor).

Nesse caso, a recomendação é rejeitar a “sugestão” da igreja ou do bufê e, se necessário, acionar o Procon-SP.

O QUE FAZER PARA EVITAR DOR DE CABEÇA:

PUXE A FICHA
Pesquise a situação dos fornecedores nos órgãos públicos ou em sites de reclamações: Junta Comercial, Receita, Tribunal de Justiça, Reclame Aqui.

DIGA NÃO
O consumidor não pode ser obrigado a contratar serviços indicados pela igreja ou pelo salão. O Procon-SP considera essa prática abusiva. Mas é preciso respeitar restrições de música e decoração determinadas pelo local

VISTORIE ANTES E DEPOIS
Roupas, móveis e objetos alugados devem ser vistoriados por contratante e contratado na entrega e na devolução. Ambos devem assinar um documento
relatando as condições

PEÇA RASCUNHOS
Antes de mandar fazer convites, vestidos e outros produtos exclusivos, peça um croqui ou layout. Na entrega, se não estiver conforme o combinado, o consumidor
tem direito à reexecução ou restituição do valor

FAÇA TESTES
Assistir a shows da banda que quer contratar, ver uma festa organizada por uma empresa e outros testes ajudam a evitar decepções com potenciais prestadores
de serviço

OFICIALIZE TUDO
O contrato deve conter tudo o que foi tratado verbalmente, incluindo cumprimento de horários, prazos de entrega e número de provas, no caso das roupas e do dia da noiva. Não esqueça de ver as condições para cancelamento do contrato

ONDE COBRAR:

PROCON-PB
www.procon.pb.gov.br

Com informações da Folha Online

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