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Cresce exposição de jovens na internet

Atualizado em: 09/12/2012

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Maria Rita Nunes até ganhou uma cadeira mais confortável do pai para não sofrer de dores nas costas durante as cerca de seis horas diárias que fica em frente ao computador de casa. Isso sem contar as espiadas na internet do celular durante o intervalo das aulas no Colégio Santa Maria. Não raro, ela troca o tempo de sono da madrugada para assistir a algum vídeo publicado por um amigo ou para postar no Twitter. Afinal, foi por essa ferramenta que ela conheceu uma de suas melhores amigas.

Aos 15 anos, a adolescente é o retrato do que mostra a pesquisa Nós, Jovens Brasileiros, realizada pelo Portal Educacional, que mapeou o comportamento de 4 mil estudantes de 13 a 17 anos, alunos de 60 escolas particulares de todo o País. Neste ano, foram os próprios jovens que sugeriram as questões que, depois de selecionadas, compuseram o corpo do questionário.

E, quando o assunto é internet, as descobertas revelam desde questões mais objetivas – como o tempo de uso, que cresce ano após ano – até temas bem mais delicados, como a disposição a se expor na rede.

Um dos dados mais preocupantes é o que mostra que, do total de entrevistados, 6% deles já apareceram nus ou seminus em fotos na rede e o mesmo porcentual já mostrou partes íntimas de seu corpo para desconhecidos por meio de webcam. Além desses, outros 3% já pensaram em se exibir dessa forma, mas não puseram isso em prática.

Destemidos

"Isso reforça a nossa percepção de que o jovem acredita que a tela e a distância relativizam o risco do perigo", diz o psiquiatra Jairo Bouer, parceiro do Portal Educacional. "Ou ele quer se diferenciar e ganhar fama a qualquer preço, e para isso avalia que vale a pena até mostrar o corpo, ou ele é inocente e acha que não é tão grave."

O caso narrado por Caio Cardoso Fossati, de 15 anos, aluno do Colégio 12 de Outubro, foi de completa ingenuidade, acredita ele. Caio conta que um de seus amigos recebeu de uma paquera uma foto dela nua. "A garota gostava dele e achava que era uma forma de atraí-lo." A estratégia deu errado. Além de não se seduzir, o adolescente mostrou a imagem a um grupo de amigos que a conheciam e o assunto virou piada. "Só não ficou pior porque ela não sabe que todos nós a vimos daquele jeito."

Ivanna Castelli, de 13 anos e estudante do 8.º ano do ensino fundamental, diz que várias de suas amigas se expuseram dessa forma. "Algumas queriam aparecer e outras atenderam ao pedido do namorado. O problema é que isso sempre espalha, e elas acabam se arrependendo."

Para Carmen Neme, professora do programa de pós-graduação em Psicologia da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), essa exposição é resultado da falta de controle dos impulsos sexuais, própria da adolescência, com o imaginário, também típico da idade, de que estão acima de qualquer risco. "O adolescente acha que nada vai acontecer, porque ele é muito esperto."

O único antídoto a isso, explica, é a presença mais atuante dos pais. Uma intervenção que não se limite a um código de conduta com sites proibidos e permitidos, mas que subentenda mais tempo de convivência. "O problema não é a internet. A questão é que os adolescentes estão sozinhos. Nunca se viveu de maneira tão solitária como agora. Os pais estão longe, e a internet parece suprir a ausência", diz Carmen.

Sem orientação, somem os limites. "Uma certa rebeldia é tolerável, porque o adolescente que não se rebela não sai da dependência familiar. Mas a rebelião tem de ser dentro de certos limites. Ele pode questionar valores, confrontar, mas não pode perder o controle de impulsos, destruir os vínculos."

Descuido

Se a questão não for cuidada em tempo, pode ser tarde para que essa intermediação aconteça. O diretor do Colégio Mary, Cesar Marconi, conta que com frequência chama os pais à escola para discutir os limites dos filhos frente à internet.

O maior problema, por ali, é a queda do rendimento por conta do cansaço. "Tem aluno que chega morrendo de sono, não consegue se concentrar e, ao ser questionado, diz que não dormiu porque ficou na internet a noite toda." Ao serem convocados, diz Marconi, oito em cada dez pais dizem conhecer essa rotina. "Mas admitem que não conseguem mais controlar."

Uma outra pesquisa divulgada nesta semana pela Fundação Telefônica – o estudo mapeou o comportamento de crianças e jovens frente às telas de computador, celular e televisão – mostrou que 58,6% das crianças e 76,5% dos jovens acessam a rede sozinhos. O computador, revelou a pesquisa, se localiza preferencialmente no quarto da criança (37,6%) ou do adolescente (39,3%). Quanto à orientação, 31,7% dos jovens declararam que seus pais não costumam fazer nada em relação às atividades que desenvolvem na internet.

Estadão

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