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A ALB pela primeira vez terá como presidente uma mulher

Atualizado em: 25/03/2015

ALP

A ALB – Academia de Letras da Bahia, instituição que completará cem anos em 2017, pela primeira vez será dirigida por mulheres: Evelina Hoisel (presidente) e Myriam Fraga (vice).

“Diz da inserção da Academia no seu tempo, na sua época”, afirma a nova presidente, que substitui o escritor Aramis Ribeiro Costa. Integrando os ritos de abertura do ano acadêmico, a posse da nova diretoria acontece quinta-feira, às 18 horas, no Palacete Góes Calmon, em Nazaré. Eleita para a cadeira de número 34 em 2005, Evelina Hoisel é professora e pesquisadora do Instituto de Letras e da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Nesta entrevista, ela fala sobre a ALB, que considera “casa das letras e também da cultura”, projetos, situação financeira da instituição e relação com o governo do estado e outros parceiros. A literatura e seus movimentos contemporâneos também foram pontos da conversa. “Uma das angústias do leitor hoje é como ler tudo o que se publica”, diz.

O que significa ter duas mulheres à frente da Academia de Letras da Bahia?
Diz da inserção da Academia no seu tempo, na sua época, de contingências históricas e do papel da mulher. Só estamos inaugurando esse espaço, que eu vejo como uma soma aos que a mulher já vem ocupando. Minha parceria com Myriam Fraga vem desde a década de 1980, quando ela era diretora do departamento de literatura da Fundação Cultural. Nós organizamos dois eventos na época: o Primeiro e o Segundo Encontro de Literatura Emergente na Bahia. A partir daí realizamos várias parcerias entre a Fundação Casa de Jorge Amado e o Instituto de Letras.

Nesses 30 anos, o que aconteceu na literatura baiana?
A proposta daqueles eventos era pensar o que se fazia na Bahia em termos de literatura, o que estava surgindo. Hoje, temos uma produção significativa, embora não circule como poderia circular, por causa das dificuldades que temos, de editoras que publiquem poetas, romancistas, contistas. Falta isso, mas temos nomes muito importantes da literatura brasileira.

E o panorama brasileiro?
É uma avalanche de publicações. Uma das angústias do leitor hoje é como ler tudo o que se publica. Ainda tem o atraso do que já se publicou. Não é só a literatura. Nós temos uma série de outras leituras também, como filmes, internet.

Quais são seus principais projetos para o mandato?
A Academia tem os seus rituais e atividades, algumas já estão aí há algum tempo, como o Curso Castro Alves e Colóquio de Literatura Baiana e o Curso Jorge Amado e Colóquio de Literatura Brasileira. São espaços para discutir os autores baianos e brasileiros, em que participam escritores e pesquisadores de diversas partes do País. É importante mantê-los. Temos também uma proposta de alguns acadêmicos de fazer um outro curso na área das ciências humanas. Iniciaríamos, por exemplo, com uma proposta de reler o antropólogo Thales de Azevedo. A ideia é fazer com que esse curso permaneça também no calendário da Academia. Além disso, temos as posses, outros cursos de curta duração, palestras, seminários, centenários de acadêmicos. São uma espécie de preservação e atualização da memória cultural da Bahia. A Academia de Letras da Bahia é essa casa das letras e também da cultura. Preservar essa memória é muito importante, principalmente na Bahia, que não é um lugar com uma vocação memorialista muito grande.

A Academia de Letras da Bahia é hoje uma instituição mais aberta à sociedade e às novas formas de literatura?
Tem havido uma abertura muito grande em várias instâncias. Através desses cursos, por exemplo, temos muitos jovens que frequentam. Hoje, muita gente ainda diz: “Mas pode ir na Academia?”. Pode. A Academia é aberta, é pública, suas sessões, seminários. É importantíssimo que o público saiba disso e participe desse ambiente. Uma das formas de abertura são as parcerias com várias universidades.

Em que aspectos a Academia tem contribuído para a aproximação de novos leitores?
A Academia tem programas de atendimento a estudantes de escolas públicas. Funcionavam como oficinas, encontros e debates com escritores. Nós precisamos de um investimento maior para que possamos concretizar essas atividades. No momento, elas não estão acontecendo. Hoje as solicitações para o jovem são muito grandes. O interesse pela leitura fica sufocado pela avalanche de informação que tem cotidianamente. A Academia é importante no sentido de disseminar essa possibilidade de um outro olhar para o escritor, para o livro, para a leitura, para o imaginário.

Como a senhora conduzirá as relações da Academia com o governo do estado?
Tanto da parte da Academia, quanto da parte do governo, a intenção é manter as relações que vêm sendo estabelecidas no sentido de preservar a própria Academia, pra que ela possa gerir seus projetos.

Como está a instituição financeiramente?
No momento, não é muito fácil se manter. Nesse ano de crise vamos ver como é que fica. O que a Academia recebe não é suficiente para o volume de atividades que faz. Além do estado, nós temos a parceria com a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, através da qual publicamos a coleção Mestres da Literatura Baiana, projeto de Aramis Ribeiro Costa. Tem também o Concurso da Academia de Letras, que era patrocinado pela Braskem, mas depois nós teríamos que também concorrer a um edital para obtenção do recurso. Tivemos que buscar uma outra parceria, que foi com a Petrobras.

É importante recorrer à iniciativa privada?
É preciso abrir as portas e insistir. Uma das tarefas nesse momento é buscar outros parceiros para que possamos realizar as nossas atividades como nós gostaríamos.

Escritores importantes como Judith Grossman e Silviano Santiago foram seus orientadores de graduação e mestrado. O que eles representaram para a sua formação?
Além das múltiplas lições de teoria da literatura de Judith Grossman, o amor pela literatura e pela sala de aula foram cruciais. Foi uma convivência riquíssima, ela era uma pessoa que pensava cem anos na frente. Silviano Santiago me colocou em contato com teorias do pensamento contemporâneo. Hoje, ele faz parte dos meus estudos como um ficcionista, teórico, crítico e professor que tem uma produção cultural muito vasta e instigante.

O que a senhora acha dos movimentos culturais e literários que têm acontecido nas periferias brasileiras? Conhece o trabalho dos saraus da Cooperifa (em São Paulo), da Onça e Bem Black (em Salvador)?
Eu tenho notícias, mas não conheço. Penso que tem uma série de movimentos culturais que são importantes e estão precisando ter mais espaço também. Hoje, a cultura não é mais um centro cultural, ela acontece em diversos espaços, lugares, com diversas linguagens. É essa proliferação de linguagens que nós temos que conhecer, divulgar.

O que a senhora acha do movimento da escrita criativa?
Foi Judith Grossman quem primeiro introduziu isso na universidade, na Ufba, quase paralelamente à UFRJ. É muito importante. É uma tarefa, porque escrever precisa de talento, claro. Tem que ter a força criadora, mas também o labor, o suor, o laboratório do escritor.

O que o trabalho de 15 anos com o Grupo de Pesquisa o Escritor e seus Múltiplos: Migrações vem mostrando?
O que nos interessa é verificar os diversos locais de fala desse sujeito, que é múltiplo (teórico, crítico e docente), se estrelaçam na produção dele, principalmente na ficcional. Há uma proliferação muito grande dessa figura, que tem o texto híbrido por excelência: a ficção vem enxertada de questões teóricas, críticas e até pedagógicas.

Fonte: atarde.com

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