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O próximo passo pós-conquistas femininas

Atualizado em: 24/04/2014

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A bem-humorada artista plástica americana Suzanne Heintz teve uma grande sacada. De tanto ouvir que deveria arranjar alguém, que era incompreensível uma mulher bacana como ela estar solteira, tomou uma atitude pra lá de original: comprou dois manequins para representarem seus marido e filha. Com os bonecos em tamanho real saiu a retratar cenas em família do “american way of life”: à mesa do jantar, lavando a louça, assistindo à TV e até em viagens de férias. Um tapa de luva na cobrança desenfreada que, em pleno século XXI, impinge às mulheres a “obrigação” de casar e ter filhos.

Ser mulher é nascer predestinada a povoar o mundo. Não é explícito, mas é o que (ainda) se espera dela. Que seja recatada, submissa, serviçal, que case e tenha filhos. É o “curso natural das coisas”, alguns dizem. “Está escrito: o papel da mulher é X e do homem é Y”, outros insistem. E seguimos criando filhos e filhas conforme o que esperam de nós, não o que realmente desejamos para nós mesmas. Mas isso está mudando.

Tenho muitas amigas maduras que não casaram, nem tiveram filhos. Ou que juntaram as escovas de dente, mas optaram em não se tornar mães. E quando eu digo “muitas”, leia-se mais de 30 mulheres. Para algumas foi opção, para outras, indecisão (não sabiam se queriam e, na dúvida, não pariram), grande parte apostou na carreira e, quando foi pensar no assunto, ficou tarde demais para o relógio biológico dar conta do recado. Isso quer dizer que são pessoas frustradas, deprimidas, amarguradas? Não mesmo.

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Elas são livres. Leves. Soltas. Inteligentes, bonitas, bem-resolvidas e com tudo em cima, estão felizes, viajando, curtindo a vida. Juro, o que menos vejo é lamentação. Aliás, conheço mais mães frustradas com a maternidade do que amigas sem filhos padecendo com seus estilos de vida. Estilosíssimas. Por que é tão difícil aceitar esta escolha?

Ah, porque não estão dando sua contribuição (biológica?) ao planeta, porque mulher solteira, sabe como é, é um perigo (periguete?). Ou o clássico: porque na velhice não vão ter ninguém para lhes cuidar. A mim, essas teorias conspiratórias soam como inveja. Quem disse que filho é garantia de cuidados futuros? O livre arbítrio é direito de todos. Está na hora de parar de enxergar o sexo feminino como propriedade do estado, da família, do companheiro.

Muitas mulheres não se veem como procriadoras natas. Não apostam todas as suas fichas na maternidade. Não almejam sequer casar! Com poder de voz (e de voto) e métodos anticoncepcionais em punho, estão questionando conceitos seculares arraigados. Ter ou não ter descendentes hoje é opção, não mais obrigação implícita. Socorro, as mulheres querem tomar as próprias decisões, saber o que é melhor para elas e têm desejos? É um choque. A sociedade está pasma. A Igreja está em alerta. Os estatísticos estão preocupados.

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É, as coisas estão feias para o índice de natalidade do planeta. Como toda ação gera uma reação igual e em sentido contrário, os homens também estão mudando suas posturas. Ao perderam o lugar de provedor, já não se sentem assim tão “obrigados” a constituir família e seguir protocolos. Sem papel definido, estão perdendo o interesse inclusive em relações sexuais. Pasmem. Mas é o que já está acontecendo no Japão.

Na terra do Sol Nascente o número de solteiros é recorde. Os jovens japoneses não apenas estão desiludidos com o casamento, como evitam relações casuais. O celibato voluntário está virando regra.

Uma pesquisa de 2011 descobriu que 49% das mulheres e 61% dos homens solteiros, com idades entre 18-34 anos não estão envolvidos em nenhum tipo de relacionamento e um terço dos jovens até 30 anos jamais sequer namorou. Outra, de 2013, da Japan Family Planning Association (JFPA), descobriu que 45% das mulheres entre 16-24 anos não estão interessadas ou inclinadas a terem contato sexual e mais de um quarto dos homens sente o mesmo. Aparentemente, em breve, só o sol vai nascer por lá. Será que caminhamos para este mesmo fim?

Eu tenho uma teoria, estamos vivenciando duas ondas comportamentais: a da redefinição de papeis femininos e masculinos e a era do relacionamento virtual. A primeira está mudando a configuração do que somos, as funções e posturas “macho X fêmea”, o que gera estranhamento, recuo, dúvidas, isolamento. E desilusão. Homens e mulheres estão se sentindo sozinhos, já não encontram mais pares “ideais”. O mito da alma gêmea caiu por terra. As mulheres, antes “caça”, agora são caçadoras. Os homens usufruem dessa liberalidade, mas estão meio chocados. Travados. Incorporamos as mudanças, porém nossas referências (que geram as expectativas) ainda são do século passado. Quais são as regras do novo jogo?

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Junte-se a isso a alteração na forma de se relacionar: do real para o virtual. Trocamos o olho no olho, o chegar pertinho e sentir o cheiro, o tocar, abraçar, beijar, por teclar. O encontro pela videoconferência. A visita física pela curtida no post da rede social. A convivência por fones de ouvido. Nem falar mais, falamos. Calamos. Há quanto tempo você não ouve a voz das suas amigas de Facebook? Abreviamos sentimentos. Mandamos SMS cada vez mais curtos. Não rimos mais, fazemos “kkkk”. Aos poucos, desligamos. Do outro, de nós mesmos.

Homens e mulheres sem papeis definidos estampados em telas de proteção de computadores. Tudo o que sabíamos sobre relacionamentos está mudando. E o que isso tem a ver com um blog de mães? É o futuro dos nossos filhos que está em jogo. Conseguiremos nos libertar de conceitos e preconceitos passados? E aceitar de peito aberto o que está por vir?

Observar as mudanças, assimilar, digerir, refletir, orientar é nosso dever como pais. Como educaremos nossos meninos e meninas nesse novo panorama? Que conselhos daremos, que pilares construiremos, quais nossas noções de certo e errado? Respeitaremos com alegria as escolhas de nossas Suzannes Heintz? Estamos criando nossos filhos em pé de igualdade de gênero, sem diferenças limitadoras? Tudo bem se não formos avós? São muitas as perguntas. Deixo-as aqui para pensarmos juntos.

Fonte:MSN

 

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