Educação

Queremos educar as crianças pra vida, mas por onde começamos?

Atualizado em: 25/04/2017

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Quando educamos nossos filhos, pensamos no melhor pra eles.  Colocamos na escola, ensinamos as letras, os números, as cores… Mas, e as emoções? Como ensinar os pequenos a lidar com emoções?

Como fazer com que tratem o que tem dentro de si, para poderem tratar que está por fora? Isabella Ianelli debate um pouco desse assunto. Leia a matéria na integra, abaixo.

Queremos educar as crianças pra vida, mas por onde começamos?
Um dos caminhos possíveis é o da educação emocional. E podemos olhar com mais atenção para ele.

Ela tem dois anos de idade, mas queremos nos assegurar de que vai saber nadar – é importante, desenvolve o pulmão e ela precisa saber se virar. Aos três, tomara que ele consiga contar até dez, pra gente dizer: que inteligente! Pensamos em fonoaudiologia se até os quatro a criança ainda não tiver habilidades na fala. Aos cinco, a escola nos emociona quando mostra algumas palavras rabiscadas. A gente sente que está no caminho certo, que crescer é tão linear, não é?

Nos relatórios de avaliação das escolas podemos ver a importância das questões comportamentais. A instituição de ensino, esse patrimônio que educa nossas crianças, sabe da necessidade de uma educação para a vida. Compartilhar brinquedos, brincar bem com os amigos, ser uma criança tranquila, gentil, solidária, participativa, sensível, segura… Tudo isso professores e professoras valorizam cotidianamente em seus alunos.
São qualidades que agregam não só na escola, mas também fora dela, para o resto da vida. Queremos filhos educados, que conheçam seus direitos e os dos outros, queremos
alunos felizes, que contribuam para o bem-estar do grupo, queremos criar cidadãos conscientes, compassivos, amigáveis, tranquilos. Mas que métodos estamos usando para
ensinar isso?

Já parou para pensar na escola do seu filho, na sua casa, no encontro de domingo que você tem com sua afilhada: que tipo de mente esse ambiente está cultivando? Onde estão as referências para serem tomadas essas ou outras atitudes? Para além da teoria, que trabalho é desenvolvido na prática para aflorar todas essas qualidades que desejamos a eles?

Hoje em dia, não há nada que eu, professora de educação infantil, considere mais necessário do que olharmos para as crianças que educamos como seres. Se a gente pudesse facilitar uma única coisa na vida delas, qual seria? O que a gente começaria a ensinar hoje? Antes de inglês, nadar, usar crase ou a fórmula de bhaskara, eu acho que o mais necessário de ser cultivado desde sempre é educação emocional.

Uma base sólida que possibilite uma vida muito mais empoderada. Saber trafegar bem por suas emoções é um conhecimento muito mais significativo e efetivo: afinal, talvez você não tenha usado seu largo conhecimento de saber de cor todas as capitais dos estados brasileiros. Mas você certamente já passou por momentos de raiva incontrolável, tristeza sem fim, medo desesperador. Não seria incrível se a gente aprendesse na escola e em casa a olhar para dentro? Que delícia ter ferramentas para lidar com nossas emoções sem precisar passar pelos extremos de magoar e machucar os outros ou reprimir e perder o sono, a paciência e a alegria.

"Um dragão meditando" foi a descrição dessa representação no desenho de um garoto de 4 anos de idade. A selvageria das nossas mentes, o descobrimento dela.

“Um dragão meditando” foi a descrição dessa representação no desenho de um garoto de 4 anos de idade. A selvageria das nossas mentes, o descobrimento dela.

As escolas já sabem que precisamos educar para que se olhe o mundo interno, para que se entenda o outro. Os pais, os professores, os teóricos e até as discussões acerca da série 13 reasons why na internet clamam por isso. Todos temos muitas frases de efeito e poucas ações práticas. Mal sabemos por onde começar.

Por isso que Susan Kaiser Greenland, uma mãe que se debruçou a entender como ajudar seus filhos (e os dos outros) a lidarem com o estresse, a serem mais felizes, gentis e compassivos, está começando uma revolução no que entendemos como educação socioemocional. No livro Meditação em ação para crianças, Susan dá inúmeras ideias de exercícios de atenção plena que oferecem de maneira simples, divertida e com muito senso de humor possibilidades de as crianças olharem um pouco para dentro:

“Ao praticar a atenção plena, as crianças aprendem habilidades que ajudam a que elas mesmas acalmem-se, tragam consciência para sua experiência interna e externa, e agreguem uma qualidade reflexiva para suas ações e relacionamentos. Viver desta maneira ajuda as crianças a conectarem-se consigo mesmas (O que eu sinto? Penso Vejo?), com os outros (O que eles sentem? Pensam? Veem?), e talvez com algo maior do que elas próprias.

Esta é uma visão de mundo em que tudo é visto de forma interligada. Quando as crianças entendem que elas e aqueles a quem amam estão de algum modo conectados a todas as pessoas e a todas as coisas, um comportamento ético e socialmente produtivo surge naturalmente, e elas também sentem-se menos isoladas – um problema comum entre crianças e adolescentes. Em um mundo onde os mais populares reality shows envolvem ridicularização e duras críticas aos concorrentes, não é de se admirar que as crianças muitas vezes façam pouco caso de valores antiquados como bondade, compaixão e gratidão.

No entanto, na prática da atenção plena, essas qualidades são altamente valorizadas. Como as crianças aprendem a ter consciência do impacto de suas ações e palavras nos outros, elas passam a considerar outras pessoas ao estabelecer metas e planejarem algo, e também são mais propensas a serem gentis com elas mesmas nos momentos de fracasso (reais ou não).”

(…)

EXERCÍCIOS
NOTA DO EDITOR: Colocamos alguns exercícios do livro, para que possamos entender na prática a abordagem da Susan. São atividades simples, complementares a fala do último trecho, que você pode fazer com crianças e elucidam a relevância da prática da meditação e de se relacionar com nosso mundo interno.

JOGO DA MENTE CLARA

Pegue um cilindro de vidro cheio de água, coloque-o sobre uma mesa e peça a seus filhos que olhem através dele e vejam o que está do outro lado. Eles provavelmente verão você ou o que estiver sobre a mesa. Despeje uma xícara de bicarbonato de sódio na água e agite o cilindro. O que eles veem agora? Ainda conseguem enxergar o que está do outro lado através da água? Provavelmente não: o bicarbonato de sódio condensa o líquido e obscurece a visão. Assim como o bicarbonato de sódio na água, pensamentos e emoções podem criar confusão em nossas cabeças e embaçar nossas mentes, que são límpidas. Após um minuto ou dois, olhe de novo para a água. O que acontece quando você a deixa parada? Com certeza, quanto mais a água descansa, mais o bicarbonato de sódio assenta e mais clara a água se torna. Logo todo o bicarbonato de sódio irá depositar-se no fundo do copo e seus filhos serão capazes de ver através do vidro novamente. O mesmo acontece com nossas mentes. Quanto mais tempo nós descansamos no ritmo constante de nossa respiração, mais nossos pensamentos e emoções acalmam-se e mais claras nossas mentes se tornam.

SINO DE ATENÇÃO PLENA

Uma prática conhecida por interromper a vida cotidiana é o sino da atenção plena. O mestre zen vietnamita Thich Nhat Hanh recomenda que famílias usem o sino de atenção plena para sinalizar que é hora de dar uma breve pausa no que quer que estejam fazendo e verificar sua respiração. O sino pode ser qualquer coisa que produza um som
agradável e contínuo. Integrar um sino de atenção plena em sua rotina familiar geralmente traz oportunidades surpreendentes e divertidas para a tomada de consciência.

Então, se a gente quer começar a agir sem depender de uma lei que institua nas escolas educação socioemocional – o que seria ótimo, mas bastante demorado -, precisamos começar agora, por nós mesmos.

E se o seu olho brilha como o meu ao ler sobre este assunto, talvez te interesse o grupo de estudos que começaremos agora dia 27, nO Lugar. Vamos estudar o livro Meditação em ação para crianças em dez encontros, que conduzirei.

O grupo de estudos não tem custo, além da inscrição nO Lugar, e é voltado para pais, professores e qualquer um que queira entender um pouco como sair da teoria e começar a cultivar práticas de atenção plena com as crianças que estão ao nosso redor.

Para saber mais dO Lugar e participar da comunidade e do grupo, é só acessar aqui. Vamos aproveitar o trabalho coletivo de olhar para o mundo interno que fazemos no lugar para começarmos a ajudar os outros também.

Fonte: Papo de Homem 

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