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Mulheres que você deveria conhecer

Atualizado em: 17/03/2017

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Diversas mulheres são importantes e chamam atenção para o seu dia como trabalhadoras, lutadoras e guerreiras.

Algumas dessas muitas mulheres ficaram marcada na história, por suas conquistas heroicas. Uma delas é a Ana Nery, de quem o site Papo de Homem comenta um pouquinho pra nós, em sua série : “Mulheres que você devia conhecer”. Leia a matéria na integra abaixo.

Ana Justina Ferreira Nery | Mulheres que você deveria conhecer #13

Ana Nery é a primeira mulher a ter seu nome no Livro dos Heróis da Pátria do Brasil, e é tida como a mãe dos brasileiros devido a sua atuação como enfermeira voluntária na Guerra do Paraguai

A primeira vez que ouvi falar sobre Ana Neri foi em 2003, quando iniciei a faculdade de enfermagem. Ironicamente, não foi em sala de aula. Eu estava na casa dos meus pais, usando o saudoso ICQ em uma conversa em grupo com “colegas” do cursinho, e disse que havia passado para enfermagem. Foi quando li a mensagem “Vai lá Ana Nery”, seguida de risadas.

Eu lembro de sentir um misto de raiva e vergonha devido ao preconceito com a enfermagem, o curso que eu estava iniciando. Após aquele dia nunca mais encontrei aqueles “colegas”, mas fui pesquisar sobre essa personagem brasileira e sua importância histórica.

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Ana Justina Ferreira Nery nasceu em 13 de dezembro de 1814, na Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto de Cachoeira, município situado às margens do rio Paraguaçu, no estado da Bahia, distante 120 quilômetros de Salvador.

Ana Nery era de uma família de “patriotas legítimos”: José Ferreira de Souza e Luiza Maria das Virgens. Irmã de quatro homens, dois tenentes-coronéis do exército, um médico e um conceituado corretor em Cachoeira. Naquela época, na conservadora sociedade baiana brasileira, as profissões masculinas eram indicadores da posição social. Membros do exército, assim como da medicina e direito, as mais prestigiadas profissões liberais, eram considerados como classe média alta. A mulher era vista apenas como uma criatura que Deus colocara no mundo, com a missão de servir ao homem, ter filhos e prepará-los para vida. E foi nessa sociedade, educada na clausura e confinamento do lar, sendo preparada para o matrimônio, que ela cresceu. Casou-se aos 23 anos com Isidoro Antônio Néri, capitão-tenente da marinha, com a idade de 38 anos. Do casamento vieram três filhos: Justiniano, Isidoro Antônio e Pedro Antônio.

Em 05 de julho de 1844, Isidoro Antônio Neri faleceu, aos 43 anos, mas não há registros sobre sua súbita doença. Viúva aos 29 anos, com três filhos pequenos, o mais novo com cinco anos, ela ganhou uma vida autônoma, independente e coroada por responsabilidades. Após a morte do marido e, supostamente, após os filhos terminarem a instrução secundária, ela mudou-se para Salvador, onde permaneceu até o início da Guerra do Paraguai.

Guerra do Paraguai

A sociedade do início do século XIX possuía uma visão específica sobre as mulheres viúvas. Havia uma ideia de uma posição de autonomia na família, caracterizadas por uma vida independente, de liderança no grupo familiar. A viúva devia viver como as mulheres virgens, ser vigilante com as mulheres casadas e servir de exemplo moral, sendo amiga dos retiros e inimiga dos divertimentos mundanos. Dedicada às orações, devia zelar pela sua boa reputação, amar a mortificação e trabalhar para a glória de Deus, ou seja, sustentar-se em obrigações impostas pela influência da Igreja. Desta forma ela vivia com dois de seus filhos em Salvador. Todos os seus filhos seguiram o serviço militar, a exemplo do pai, sendo que dois deles tornaram-se médicos.

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Em dezembro de 1864 estourou a Guerra do Paraguai, o maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul. Foi travada entre o Paraguai e a Tríplice Aliança, composta pelo Brasil, Argentina e Uruguai. A guerra estendeu-se até março de 1870.

Devido a entrada do Brasil na Tríplice Aliança em 1865, ela viu, aos 51 anos, seus filhos partirem para a guerra contra o Paraguai. Diante deste fato que a consternou, escreveu uma carta ao Presidente da Província da Bahia, Manuel Pinto de Souza Dantas, datada de 08 de agosto de 1865, oferecendo-se para ir ao front de batalha servir aos feridos de guerra.

Em sua carta, ela menciona o desgosto devido a separação com seus familiares. Ela escrevera “como mãe, não resistiria à separação dos filhos”, uma expressão romântica e decisiva na comoção dos leitores, apelando aos mais profundos deveres da maternidade. Viúva e afastada dos filhos ela mobilizou-se para não perdê-los, e sua atitude repercutiu no rompimento da imagem social da mulher, uma vez que desempenhava mais do que era exigido pela sociedade. Ela se pôs à disposição para atuar em hospitais do Rio Grande do Sul, o que gera dúvidas sobre que tipo de experiência ela poderia ter no ofício da enfermagem. Sabe-se que em meados do século XIX foram fundadas em Salvador diversas associações de caridade, como a Sociedade das Damas de Caridade, o qual reunia mulheres de camadas elevadas da sociedade local. Essas mulheres eram importantes auxiliares das Irmãs de São Vicente de Paulo, as quais eram responsáveis pela maior parte das obras de caridade de Salvador.

A resposta do Presidente da Província foi breve, ordenando ao Conselheiro Comandante das Armas para que Ana Nery fosse contratada como primeira enfermeira. Diante deste fato deduz-se que ela possuía algum treinamento e que possuía uma imagem respeitada na sociedade baiana da época. Em 13 de agosto de 1865 ela embarcou para os campos de batalha, onde sua atuação parece ter sido primorosa.

Em sua passagem no Rio Grande do Sul, ela teria recebido treinamento junto as Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo, assim como realizado um curto estágio em Salto e Curriente (Argentina), local onde os feridos dos últimos combates convalesciam de seus ferimentos e atuou em Humaitá e Assunção (Paraguai). Além de enfrentar a dor e a morte dos feridos que atendiam, ela teve que enfrentar a morte do filho mais velho, Justiniano e a do sobrinho, Arthur Rodrigues Ferreira.

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Durante a guerra ela enfrentou o caos na saúde, quando as doenças mais presentes eram a cólera, a varíola, a febre tifoide e a malária. Ela atuou em hospitais na Argentina e no Paraguai, além de hospitais de campo, na frente de operações militares. Adquiriu seus conhecimentos junto com o trabalho com médicos e outros profissionais. Ela conseguiu transformar a realidade sanitária local, impondo condições mínimas de higiene para evitar a transmissão das doenças e o tratamento das feridas. Naquelas difíceis condições ela organizou os hospitais de campanha e a primeira enfermaria foi montada em sua própria casa, em Assunção, as suas expensas. Chama atenção para o fato dela atender feridos dos dois exércitos, acolhendo-os nos momentos de necessidade. Esse fato gerou críticas por parte do Comando do Exército Brasileiro, mas isso não a impediu de continuar seu trabalho.

Ana Nery recebeu a alcunha de “Mãe dos Brasileiros” graças a obra de Rozendo Muniz Barreto, no poemeto histórico ” A Mãe dos Brasileiros”. Nesta obra única, o autor afirma com convicção a caridade de Ana Nery, tendo sido ele testemunha da atuação que prestava aos feridos. (Rozendo Muniz Barreto era um estudante baiano do 4º ano de medicina, voluntário a servir nos hospitais do Rio Grande do Sul de 1866 até o fim da guerra).

Retorno ao Brasil, reconhecimento e morte

Com o fim da guerra em 1870 ela retornou ao Brasil, trazendo consigo seis órfãs. Desembarcou no Rio de Janeiro em 06 de maio de 1870, sendo recebida por senhoras baianas ali residentes, as quais a aclamaram. O Governo Imperial concedeu-lhe ainda a Medalha de 2º Classe, a medalha de Campanha e a pensão anual de um conto e duzentos mil reis. Ela então rumou para Salvador onde foi recebida pelas senhoras das mais ilustres famílias baianas, além da filarmônica Minerva e da música do Corpo da Polícia.

Após alguns anos ela mudou-se para o Rio de Janeiro, onde o filho Pedro Antônio Nery, Capitão do Exército, foi enviado para prestar serviços. Ela viveu seus últimos dias no Rio de Janeiro. Adoeceu gravemente no início de 1880, falecendo as 16h30 do dia 20 de maio, aos 65 anos de idade. Ela foi sepultada no cemitério São Francisco Xavier no Rio de Janeiro, sendo exaltada a beira do túmulo que, na lápide, continua a seguinte inscrição: “Aqui descansam os restos mortais de Da. Ana Neri, denominada Mãe dos Brasileiros, pelo Exército, na campanha do Paraguai”. Seu corpo foi exumado em 1979 e os despojos foram transportados à Bahia, para cidade de Cachoeira, levada para a sacristia da igreja da matriz.

Legado

Ana Nery é considerada a primeira enfermeira do Brasil, sendo a precursora da Cruz Vermelha Brasileira. Em 1926, através do Decreto nº 17.268, o governo deu a denominação Ana Neri à Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, que passou a pertencer a Universidade do Brasil, como ensino superior a partir de 1945, hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Além disso, é devido a data de sua morte que é comemorada a Semana da Enfermagem no Brasil, de 12 a 20 de maio, sendo que nesse período devem-se prestar homenagens especiais a sua memória nos hospitais e escolas de enfermagem do país.

Ela também foi contemporânea de Florence Nightingale, enfermeira britânica responsável pela reformulação da enfermagem moderna, que teve atuação fundamental durante a Guerra da Criméia. Contudo, não existem indícios de que elas soubessem da existência uma da outra. Mas há pontos em comum entre elas: ambas eram ricas, estudadas, cultas e poliglotas, respeitadas pela sociedade, disciplinadoras e dedicadas as tarefas de cuidar dos feridos de guerra.

Ambas foram mulheres que realizaram mudanças no sistema de atendimento aos soldados, e suas mudanças permaneceram como legado em seus países.

Muito se questionou a respeito da atitude de Ana Nery e sua solicitação para participar da Guerra. Segundo as professoras Maria Manuela Vila Nova Cardoso e Cristina Maria Loyola Miranda, da UFRJ, em artigo publicado em 1999, tem características muito mais afetivas e pessoais do que patrióticas. As mulheres da elevada sociedade baiana do final do século XIX eram muito ligadas as atividades influenciadas pela igreja e comumente associavam-se a irmandades e ordens religiosas para desenvolver a caridade. Contudo, o que chama a atenção é que, mesmo nas dificuldades do campo de batalha e da morte de seus familiares ela não desistiu de seu trabalho, sendo um exemplo para todos que lá atuavam. Quando da morte do filho ela poderia voltar mas não o fez. Ela continuou lá, transformou sua casa em hospital, adotou órfãs e trouxe-as com ela. O papel de mãe associa-se ao de enfermeira no ato de cuidar.

Ela foi nomeada a primeira enfermeira brasileira, todavia não solicitou receber este título tampouco engajou-se na profissão. Nessa época a reforma de Nightingale estava iniciando na Inglaterra, de modo que era comum que todas as mulheres que atuassem no campo de batalha cuidando dos feridos fossem chamadas de enfermeiras.

Sua imagem também foi usada positivamente como propaganda de guerra, uma vez que este foi o conflito mais sangrento da América do Sul. Sua aprovação para ir ao confronto foi utilizada como motivador para a população abraçar o patriotismo e o voluntariado frente ao esforço de guerra, aliviando a situação dos alistados involuntariamente. Ter uma “Mãe Enfermeira” melhorava a imagem do Brasil em termos de simpatia e aceitação popular. Por fim, no início do século XX, visando elevar o status da enfermagem, ela foi escolhida por reunir formação moral, comportamento disciplinado e demais características que a destacavam socialmente, desta forma, espelhando como deveria ser a nova classe de enfermeiras brasileiras.

Ana Nery é uma das muitas heroínas brasileiras. Em 2009 ela foi a primeira mulher a ter seu nome escrito no Livro dos Heróis da Pátria, que é um livro de aço que fica na Esplanada dos Ministérios na capital federal e destaca personalidades da história brasileira.

Sua memória viverá para sempre.

 

Fonte: Papo de Homem

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