Cotidiano

Quando o afeto pelo animal de estimação se torna negativo?

Atualizado em: 25/04/2015

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Humanização dos bichos transfere ansiedades, expectativas e buscas estéticas dos donos para os seus bichos, prejudicando o bem-estar e deturpando as necessidades próprias dos animais

Eles dividem a cama com os donos, fazem refeições especiais à base de salmão e damascos e, em alguns casos, podem até usar aparelhos odontológicos para corrigir algum defeitinho do ‘sorriso’. Os bichos de estimação saíram dos fundos e dos quintais da casa para ocupar um lugar privilegiado, para não dizer central, entre os membros da família. Mas o que pode parecer apenas uma overdose de carinho e cuidado, pode na verdade ser um exagero com consequências negativas.

A chamada humanização dos bichos de estimação se intensificou há cerca de vinte anos para cá, de acordo com Marco Ciampi, presidente da Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal. É característico dos centros urbanos que os pets sejam, efetivamente, parte de uma nova família. Para pessoas que moram sozinhas, algo muito comum hoje em dia, cães e gatos também cumprem esse papel de companhia em tempo integral.

“São várias as situações em que o animal acaba ocupando o vazio da vida daquele dono, algo que pode ser prejudicial. A questão é quando nós queremos representar e projetar no bicho de estimação nossas ansiedades, expectativas, buscas estéticas. Aí a pessoa vai atrás de um animal de uma raça específica, para estar de acordo com aquele ideal que ela almeja e que pode não ser adequado para o estilo de vida dela. É o caso de pessoas que compram cachorros esportivos para deixar dentro de um apartamento”, critica Marco.

ABUSO BEM-INTENCIONADO 

Nesses casos, todo o histórico da raça do animal é deixado de lado e os abusos podem acontecer com mais facilidade, mesmo que com a melhor das intenções, sem que os donos sequer percebam. Cachorros de pequeno porte, por exemplo, são tratados como bebês por alguns donos. Eles só ficam no colo, passeiam em carrinhos infantis – em vez de estar na coleira – e têm pouco contato com outros animais.

Tudo isso pode desencadear um transtorno de personalidade nos bichinhos. Isso porque eles não conseguem ter uma socialização positiva com outros animais, e se veem mais como seres humanos do que qualquer outra coisa. Com o passar do tempo, são animais que demonstram uma agressividade anormal, podendo inclusive atacar os próprios familiares, em situações de estresse e medo.

“Eles precisam reconhecer o próprio espaço dentro de casa e na família, que não deve ser o mesmo que o das demais pessoas. Então, os donos precisam deixar claro que ele tem uma caminha para dormir, só dele, mesmo que todos convivam juntos. Levar para passear e deixá-lo interagir com outros animais também é importante, para que não exista essa confusão de papéis”, pontua Thais Gimenez, médica veterinária do Pet Center Marginal.

Para Marco Ciampi, outro comportamento abusivo é quando os donos acreditam que o pet tem o direito a se alimentar como as demais pessoas da casa. “Isso é uma aberração. Tem gente que come batata frita e acha normal dar para o cachorro, porque senão ele fica triste e com vontade. Os alimentos para seres humanos são carregados de temperos, sódio e só fazem mal para o organismo dos animais. Já vi um caso de um cachorro que foi parar na UTI porque a dona tinha o hábito de dar os restos da feijoada para ele, toda semana”, alerta ele.

 

PASSANDO DO LIMITE 

Até que ponto uma relação de afeto e cuidados com um animal deve ser questionada e combatida? Para o psicólogo comportamental Carlos Esteves, a humanização dos animais de estimação tem dois lados – e um deles é extremamente benéfico para pets e seres humanos. “A gente pode enxergar essa humanização do ponto de vista que os animais são cada vez mais bem cuidados e protegidos por nós, o que é algo bom. O animal sempre retribui o carinho, mesmo quando são tratados com alguma crueldade”, acredita ele.

Nesse sentido, tratar os bichinhos de estimação com carinho, lealdade e respeito é algo que só faz bem, para todos os envolvidos. Isso não quer dizer, porém, que os pets precisam de tantos mimos e serviços exclusivos, como SPA, hidratação dos pelos, aparelhos ortodônticos com finalidade estética e gadgets que reproduzem sons para acalmá-los. Tudo isso ultrapassa aquele limite do que é realmente necessário para o bem-estar do animal.

“Se há o afeto, eu ressalto que a relação com o animal é positiva. O ato de cuidar deles é algo que faz bem para o ser humano, sob o ponto de vista comportamental. Mas se você adquire um bicho de estimação por conta de uma função social, ou porque está na moda e é bacana, aí já não é tão legal. Porque não vai existir o cuidado saudável, e ninguém irá desfrutar dessa relação”, pondera o psicólogo Carlos Esteves.

Antes de adquirir um animal, portanto, é fundamental se informar sobre as características daquela raça e os cuidados que garantem o bom desenvolvimento do bichinho. A relação pode ser carinhosa, claro, sem que os papéis sejam trocados ou que o animal se transforme em um pequeno bibelô perfumado. “Deve sempre existir a diferenciação, para que não se perca essa condição do animal. Ele pode ser um membro querido da família, mas é preciso lembrar que ele tem necessidades próprias”, atenta Marco Ciampi.

 

Fonte: Da Redação com IG

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