Cotidiano

O sucesso profissional atrapalha a vida amorosa das mulheres?

Atualizado em: 26/06/2015

casal

Dizem que o poder é solitário, mas não é bem assim. O homem poderoso atrai as mulheres. Para ele, o topo é afrodisíaco. Não se pode dizer o mesmo das poderosas. Em 2008, a pesquisa Executivas X (In) Felicidade, realizada pela psicóloga e doutora em administração de empresas Betania Tanure, professora associada da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte – segunda maior instituição de educação executiva do país, de acordo com o ranking da revista VOCÊ S/A –, analisou a superexecutiva às voltas com a carreira, o amor e a maternidade e comprovou o que tantas de nós já sabiam é difícil equilibrar o tempo dedicado à profissão e aquele destinado ao parceiro e aos filhos. Aliás, é complicado até arrumar um parceiro. Embora o estudo tenha abordado o mundo corporativo, ele reflete a realidade de mulheres das mais diversas áreas: para todas é um desafio unir realização profissional e pessoal.

“Pesquisamos um universo de 1034 profissionais que exercem cargos de presidente, vice-presidente, gerente e diretor executivo empregados nas 500 Maiores S.A. (ranking anual do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas, que elege as 500 maiores empresas do Brasil), sendo 25% mulheres e 75% homens. Nessa amostra, 80% dos homens são casados, ante apenas 20% das mulheres”, revela a professora Betania Tanure. O motivo dessa disparidade é óbvio para a pesquisadora. “Num país latino, o papel da mulher é cuidar da harmonia das relações sociais, das tarefas domésticas, da educação dos filhos e se desdobrar em dez. Mesmo ganhando mais do que o marido, ela não se isenta dessa missão”, afirma Betania.

“Toda escolha implica renúncias e, hoje, a balança pende para o trabalho”, diz a psicóloga Rita Khater, professora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp). “O problema é que essa opção pode trazer perdas irreparáveis”, enfatiza Luiz Cuschnir, psiquiatra e coordenador dos grupos de gênero do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Ele lembra que uma casa não é feita apenas de quatro paredes e contas a pagar, mas também de aconchego – e isso depende da proximidade do casal e do nível de afinidade que ele tem no intervalo extratrabalho. O drama é que esse intervalo está cada vez menor, mas boa parte das mulheres quer conciliar e não escolher entre profissão e amor. “Todas as conquistas são importantes para elas. A carreira e o convívio com a família são realizações diferentes que se completam”, resume Cuschnir.

No topo, mas sozinhas

• O porcentual de mulheres sem filhos é mais que o dobro dos homens. Elas somam 40%; eles, apenas 19%.

• Nos cargos de presidente, vice-presidente, diretor executivo, diretor e gerente das 500 Maiores S. A., há quase três vezes mais mulheres solitárias do que homens. São 36% de separadas, solteiras ou viúvas, enquanto apenas 13% dos homens não têm parceiras estáveis.

• Também é desigual a porcentagem de executivas que têm apenas um filho em relação aos líderes do sexo oposto: 44% ante 29%.

Fonte Pesquisa Executivas X (In) Felicidade, coordenada pela professora Betania Tanure, de Belo Horizonte

Ele disputa o meu tempo com a empresa. E perde

“No começo, meu namorado teve dificuldade em se adaptar ao meu ritmo. Não raro fico na empresa até 2 da manhã ou bato ponto no domingo. Brigamos muito por isso. Ele diz que sou fria, só penso no trabalho. Mas as mulheres da minha família sempre foram ótimas profissionais e não serei uma exceção. O pior é quando tenho que desmarcar nossos compromissos para ir a reuniões ou viajar a trabalho. No ano passado, por exemplo, não fui à festa de aniversário dele. Ele é um comerciante de sucesso, mas sente-se menos importante do que minha carreira. E, de certa forma, é. Nunca escondi isso. Mesmo assim, continua disputando meu tempo com a empresa. Vamos casar em dois anos e, às vezes, ele me questiona: Mas quem vai fazer meu jantar? Quem vai ficar com nossos filhos?” Eu vou tocar como toda mulher que trabalha: conciliando, estabelecendo prioridades em cada fase de vida. Depois de muita conversa, sofrimento e reclamação, penso que ele está se acostumando e até se orgulha das minhas conquistas. Sou diferente das mulheres da família do meu namorado. Estou tentando, amorosamente, educá-lo para conviver com uma namorada que ainda quer trabalhar muito e espero que possamos colher os frutos juntos no futuro.”

PAULA*, 28 anos, solteira, gerente de vendas de uma indústria de cosméticos

Meu sucesso ficou insuportável para ele

“Quando conheci meu ex-marido, ele era diretor de marketing e eu procurava trabalho. Já havia atuado numa multinacional por oito anos, mas a empresa mudou de cidade e decidi ficar. Começamos a namorar e arranjei um emprego promissor. Casamos e cresci na empresa. Mas, quando eu compartilhava uma conquista, ele precisava contar uma maior. Reparei que estava começando a competir comigo. Quanto mais eu crescia na profissão, mais ele tentava me diminuir. E reclamava: “A casa está sempre uma bagunça! Seus filhos precisam de você”. Ele me cobrava e tentava me deixar culpada. Então, passei a omitir minhas vitórias e os aumentos salariais para não piorar a situação. Fiquei casada por 15 anos e durante esse tempo ele fez duas tentativas de me tirar do mercado. Na primeira, eu estava grávida e ele propôs que eu parasse de trabalhar e ficasse administrando seus imóveis, assim teria mais tempo para cuidar do bebê. Não topei. Depois, quando já tínhamos dois filhos, ele aceitou um cargo fora do Brasil e queria que eu largasse tudo para acompanhá-lo. Falei que iria se encontrasse um emprego lá e acabei não indo. Ele voltou, mas a partir daí passou a me culpar pelos seus fracassos. Nos separamos. Homem gosta que a gente trabalhe pero no mucho. Se você está em pé de igualdade ou o ultrapassa, isso mexe com o ego dele. Escolhi o lado bom da vida, tive coragem de eliminar o que me fazia sofrer.”

SUZANA*, 45 anos, divorciada, diretora executiva de indústria alimentícia

Pedi demissão para contornar uma crise conjugal

“Tínhamos cinco anos de casados e uma filha de 2 anos quando recebi uma proposta irrecusável – seria promovida de supervisora a gerente regional em uma multinacional. Ganharia o triplo, mas teria que me mudar para uma cidade do interior. Aceitei, com apoio de meu marido, que é designer autônomo. Queríamos qualidade de vida, criar filhos no interior etc. Mas o sonho caiu por terra: eu trabalhava 14 horas por dia e ele não parava de me cobrar. Nossa vida sexual decaiu, a autoestima dele despencou. Não dei valor a esse sinal de descompasso, tamanho era o meu desejo de realização profissional. Resultado: ele teve um caso com outra. Não me importei tanto, até entendo que ele precisava exercer sua virilidade. Acabamos nos separando, mas em função da nossa crise. Ele pediu o divórcio e a guarda da criança, argumentando que eu não me dedicava à menina, mas nunca chegou a mover a ação. Ainda nos gostávamos e, depois de um ano e meio separados, resolvemos reatar com a condição de que eu pedisse demissão e trabalhasse menos. Aceitei. Pela primeira vez na vida, vi que trabalho não era tudo e que a vida é efêmera. Voltei para nossa cidade de origem, onde ele já havia arrumado emprego. Me recoloquei, mas reduzi meu salário a 30% do que era – assim, ficamos equivalentes. Tivemos mais dois filhos e continuamos juntos. Hoje sou gerente comercial de uma construtora. Tudo isso ocorreu há mais de cinco anos. Concluo que ele foi machista, não suportou ser coadjuvante, tinha que ser o protagonista. Optei pelo meu casamento e minha maior frustração não foi retroceder na carreira, e sim a falta de cumplicidade do meu parceiro.”

GABRIELA*, 36 anos, casada, gerente comercial

Conquistei o título de doutora, mas perdi a paixão da minha vida

“Na época em que estava preparando minha tese de doutorado, eu passava horas estudando e ainda dava aulas à noite. Os momentos com meu marido eram raros, mas achava que nossa relação estava segura. Um dia, ele falou que os meus estudos eram um amante com o qual não podia lutar. Não vi nisso uma reclamação. Mesmo já madura, com 41 anos, acreditava que fosse uma maneira carinhosa de me estimular, pois ele sempre me apoiou muito. No auge das pesquisas, eu só via livros na minha frente. A vida sexual ficara de lado, parecíamos irmãos. Eu não me incomodava, pois tinha meus “orgasmos intelectuais”. Para mim, meu marido era meu maior cúmplice. Em todos os sentidos, tanto emocional quanto prático – como assessor de imprensa da universidade federal da cidade (Itajubá, MG), ele ganhava mais do que eu e geria a casa –, eu ficava com despesas miúdas do dia-a-dia. Eu tinha orgulho de sua compreensão, tanto que, na época do mestrado, escolhi uma frase da escritora francesa Simone de Beauvoir para definir nossa relação e coloquei na dissertação, dedicada a ele: “É realmente formidável podermos gostar tanto um do outro continuando livres”. Acho que faltou uma manifestação dele sobre tudo que o afligia enquanto eu estava voltada para a carreira acadêmica. Quando falou, não havia mais retorno. Foi numa noite em que vimos na TV uma cena que mostrava o tédio de um casamento. Ele disse que o nosso estava igual, que não aguentava mais e que iria embora. Perguntei se estava brincando. Indignado, ele respondeu que era sério. Passou a dormir no quarto de hóspedes e dois meses depois foi embora, pondo um ponto final em uma união de 11 anos.”

MARTHA*, 52 anos, professora universitária, de João Pessoa

Diminuí o ritmo para salvar meu casamento

“Há um ano, minha vida era uma loucura. Eu era produtora de moda e trabalhava das 8 às 23 horas, de segunda a sexta, para dar conta da minha empresa particular e do meu emprego numa editora. Resultado: vivia ocupada até nos finais de semana, viajava muito a trabalho e, no tempo “livre”, não saía do computador e do celular. Meu chefe me ligava até de madrugada. Eu não tinha mais vida familiar nem social, muito menos disposição para o sexo. Meu marido reclamava e chegou a questionar se eu não sentia mais atração por ele. Eu sentia, mas estava exausta porque não sabia impor limites. E o pior: acreditava que meu marido me amava o suficiente para aguentar meus horários malucos, mesmo ele tendo uma carga horária convencional de trabalho. Mas nós começamos a brigar. Até que um dia houve uma discussão horrível e ele falou em separação. Fiquei apavorada e caiu a ficha. Eu não suportava a ideia de perdê-lo, ainda mais que meu casamento anterior havia acabado por essa razão. Mudei minha prioridade e optei pela vida afetiva. Pedi demissão da editora e fiquei apenas com a minha empresa, fazendo frilas. Meu rendimento mensal caiu — antes, eu ganhava mais do que ele, agora estamos em pé de igualdade. Em compensação, agora tenho tempo, calma e um marido feliz ao meu lado. Não existe salário nem sucesso no mundo que pague essa paz de espírito.”

MÔNICA*, 31 anos, consultora de moda, de São Paulo

Quando a carreira virou prioridade, me separei

“Sou muito emocional e, quando mergulho em algo, vou de cabeça. Primeiro, me apaixonei pelo meu marido e pelos meus três filhos. Só quando o maior tinha 7 anos e o caçula 3 saí de casa para trabalhar, com todo o apoio do pai deles. Aí me apaixonei pela profissão. Tive uma carreira meteórica na área de educação. Fui coordenadora de cursos, diretora de faculdade e hoje sou diretora da universidade, atuo junto à presidência de uma grande instituição. Meu casamento durou 25 anos, separei há três, mas há sete já estávamos em crise. O motivo principal foi minha dedicação à carreira. Meu ex-marido também é bem sucedido, em casa nunca disputamos poder ou dinheiro. O problema é que, quando ele estava pensando em diminuir o ritmo e se aposentar, eu estava a mil. Não queria e não quero parar tão cedo. Ele reclamava porque minha carga horária vai das 7 da manhã às 11 da noite. Sou workaholic, infelizmente. E ele não gostou de ficar para segundo plano, sentia ciúme da minha vida profissional. Claro que separar foi duro, mas não me arrependo das minhas escolhas. Apenas sinto ter perdido alguns jantares em família, conversas gostosas com meu ex e meus filhos – e me comovo ao lembrar disso. Eles me chamavam, mas eu estava envolvida com cursos, palestras… e não ia. Após a separação, já saí com algumas pessoas, mas não tenho namorado fixo, nem pretendo. Além disso, na minha faixa dos 50 anos, os homens preferem… não diria as submissas, mas uma mulher mais disponível. E eu vivo na universidade, viajo, trabalho à noite e de fim de semana. Não vou conciliar nada. Neste momento, meu foco está mesmo na carreira.”

NEIDE*, 52 anos, divorciada, diretora de universidade

A visão masculina

Acompanhar uma mulher bem-sucedida não é simples e, para alguns homens, chega a ser insuportável. “A mulher muito independente pode fazer o parceiro perder o referencial de masculinidade, o sentimento de ser a estrutura, a fortaleza da relação. No entanto, se a esposa demonstra alguma fragilidade, ela deixa de parecer tão poderosa e ele se sente útil, recolocado em sua posição de proteção. O marido tem prazer em exercer o papel de forte, que historicamente é dele”, opina Cuschnir.

“Ela era tão ausente que eu me sentia solteiro”

“O divisor de águas entre o período bom e ruim do meu casamento foi a decisão dela de abrir um negócio. Claro que ela teria que se dedicar ao projeto para dar certo, mas nunca imaginei algo tão insano. Ela saía de casa às 5h30 da manhã e voltava às 22 horas. Eu chegava do trabalho às 18:30 e adorava fazer algo para comermos à noite. Não foram raras as vezes em que ela abria a porta de casa, tomava um chá e ia dormir, de tão cansada. Fui desanimando de cozinhar e aos poucos nos afastamos, já que essa era a única hora que tínhamos para nós dois, pois ela trabalhava nos finais de semana. Com a perda do convívio, voltei a ter uma rotina de solteiro. Era mais fácil tomar uma cerveja com um amigo do que jantar com minha mulher. Tentamos conversar diversas vezes. Ela procurava me sensibilizar alegando cansaço, mas discutíamos e ela me acusava de ser incompreensivo. Nunca reconheceu que estava exagerando, achava que se dedicar ao trabalho daquela maneira era normal. Até que resolvi ir dormir na sala, pois nossa vida sexual praticamente não existia. Nesse período, não tive nenhum envolvimento com ninguém, mas ela cismou que esse era o motivo do meu afastamento e inverteu a situação, me responsabilizando pelo abismo que se abrira entre nós. Minha maior mágoa é que ela poderia ter horários mais flexíveis, mas não optou pelo relacionamento, e sim pelo seu negócio. Não vi alternativa e nos separamos antes de completarmos um ano de casamento.”

FABIO*, 34 anos, engenheiro mecatrônico, de São Bernardo do Campo (SP)

*Nomes trocados a pedido dos entrevistados

 

Fonte: Cláudia, Isabela Leal (© Santi_man72 | Dreamstime Stock Photos & Stock Free Images)

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