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Medicina popular: que mal tem?

Atualizado em: 25/06/2015

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Encontrar solução para um problema cujo funcionamento não se conhece ao certo é, talvez, a principal razão pela qual as simpatias são tão comuns. “Se do nada surgem verrugas e não conseguimos explicar sua causa ou como curá-las, as simpatias acabam servindo como um mecanismo que nos dá uma sensação de controle”, explica André Souza, psicólogo e professor da Universidade de Concórdia (Canadá).

Segundo ele, além dessa impressão, as “coisas absurdas” que algumas simpatias sugerem são feitas simplesmente porque pensamos: “se todo mundo faz, de certa forma, existe uma probabilidade de ser algo que funciona”. Outro ponto interessante é que o ser humano é um “leitor de intenções”. Souza sugere que tudo o que ocorre ao redor de nós, para o nosso sistema cognitivo, tem uma causa, um propósito e uma intenção: “Se eu não sei a causa de uma verruga, mas sei que existe um procedimento com passos A, B e C, mesmo não fazendo a menor ideia para que serve cada passo, eu vou entender que eles têm um propósito e vou, então, executá-los”.

Crença no fato científico

Silvio Marques, do Departamento de Dermatologia e Radioterapia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual SPaulista (Unesp-Botucatu) afirma que “Mesmo que seja declinante em termos de aceitação popular, várias das simpatias e conceitos populares ainda são tomados como verdade por um grande número de pessoas”.

A experiência de 30 anos no hospital universitário faz que ele tenha acompanhado uma crescente conscientização da população sobre sua saúde. “Ou seja, as pessoas já sabem que o melhor método diagnóstico, o melhor tratamento, o prognóstico de determinada doença e a comprovação de melhora, devem estar baseados, o quanto possível, no fato científico, pois essas conclusões são fruto da observação criteriosa e não do ‘eu acho'”, pontua o especialista.

Mente aberta

Entretanto, não se deve ser extremista, contrapõe Souza. “Em qualquer área, ter uma visão determinística e de poucas perspectivas é perigoso. “As pessoas convivem com os dois tipos de ‘cura’ e existe evidência mostrando que medicina e curandeirismo via simpatia não são mutuamente exclusivas”, ressalva. E completa: “ter a mente aberta para alternativas é importante. O perigo mora na mente fechada, e não na simpatia em si”. Confira a lista de problemas de saúde e suas soluções populares… Descubra o que é correto e o que não é. Adote só o que funciona!

TERÇOL X ANEL DE VIÚVA

De acordo com o dermatologista Silvio Marques, professor do Departamento de Dermatologia e Radioterapia da Faculdade de Medicina da Unesp (Botucatu), usar um anel de ouro de uma viúva, esfregando-o na roupa e tocando o terçol três vezes não irá auxiliar na cura. Essa infecção da pálpebra é chamada pelos médicos de hordéolo e é causada por bactérias (Staphylococcus aureus). “Ela pode ser grave e necessita de avaliação médica. Eu contraindico totalmente a automedicação e, mais ainda, tais simpatias”, destaca.

DOR DE OUVIDO X SUCO DE ALHO

Nada de usar algodão embebido em suco de alho ou chá de arruda aquecidos para cuidar da sua dor de ouvido. “Você pode lesar o epitélio do ouvido e furar a membrana timpânica”, sinaliza o otorrinolaringologista Denílson Fomin, do Hospital Israelita Albert Einstein (SP). Não existem temperaturas ou substâncias caseiras seguras para essa prática, quaisquer que sejam as dores ou coceiras. A investigação sobre a causa do incômodo é muito importante. Até mesmo corpos estranhos podem comprometer a audição, como o algodão ficar preso dentro do ouvido, agravando o problema.

CRESCIMENTO DOS PÉS X ANDAR DESCALÇO

Para impedir o crescimento exagerado do pé, você faria seu filho andar calçado desde pequeno? “Absolutamente nada pode comprovar que o uso de calçado na infância ou na adolescência impeça o potencial genético de crescimento dos pés. Pelo contrário, o uso de calçado muito apertado nessa fase tende a criar deformidades de difícil correção no futuro”, avalia o ortopedista Marco Antonio Ambrósio, do Hospital Samaritano (São Paulo). Os calçados devem ser adaptados ao pé da criança, e não o contrário. As consequências dessa prática seriam deformidades, calosidades e lesões nas unhas. “É fundamental permitir que a criança também caminhe descalça. Isso auxilia na obtenção de equilíbrio e até na formação do arco normal do pé”, recomenda.

VERRUGAS X TOUCINHO

É “estapafúrdia”, na opinião do dermatologista Silvio Marques, a simpatia que sugere esfregar um pedaço de toucinho de porco sobre uma verruga até que a mesma sangre e, então, jogá-la em um formigueiro. Em poucos dias, de acordo com a crença popular, as verrugas sumiriam. Entretanto, o médico pondera que “as verrugas são passíveis de responder ao efeito placebo”. Ou seja, em associação com medicamentos, acreditar que está sendo curada pode trazer efeitos positivos.

INTESTINO PRESO X ÁGUA DE AMEIXA

Segundo a nutricionista Elaine de Pádua, da clínica DNA Nutri, deixar ameixas secas dentro de um copo com água de um dia para o outro e, ao amanhecer, beber o líquido após jogar as frutas fora não vai lhe ajudar a se livrar da prisão de ventre. “A ameixa tem a propriedade de ser laxativa por ser rica em pectina, uma fibra que fica entremeada na casca e na polpa. Se a pessoa comer a fruta in natura, obterá o benefício. É a fibra que faz o intestino funcionar”, ela avisa.

GORDURA ABDOMINAL X BARBANTE

Seria possível afinar a cintura com um barbante amarrado a ela? “Será uma maneira prática de visualizar a diminuição da circunferência da cintura, mas não pode ser considerada como comprovação de emagrecimento e de ganho de peso”, alerta Luciana Mankel, fisiologista e educadora física da Academia Curves. Ela completa: “acredito que há maneiras melhores de afinar a cintura, como praticar exercícios e ter uma alimentação saudável. Atividades aeróbicas e de fortalecimento muscular três vezes por semana irá ajudar bastante”.

ASMA, BRONQUITE E COLESTEROL X BANHA

Derreta banha de carneiro ou lagarto para colocar no café e beba a mistura diariamente, indicam muitas pessoas. “Não há benefício nessa simpatia. O uso desse tipo de remédio leva as pessoas a tratarem de forma inadequada a doença. Em alguns casos, os pacientes colocam a saúde em risco, já que retardam o tratamento adequado”, diz a pneumologista Maria Alenita de Oliveira. Consultar um médico é o ideal, que poderá sugerir um tratamento com uso de corticoides inalatórios (as famosas bombinhas).

ENXAQUECA X BATATA NA TESTA

Cortar uma batata grande em rodelas finas, dispondo-as sobre a testa e as têmporas; após isso, cobrir o rosto com um pano úmido e ir descansar em um quarto escuro. Funciona? Em parte. “A enxaqueca é uma manifestação de dor de cabeça acompanhada pela sensibilidade à luz. Estar dentro de um quarto escuro já melhora qualquer o sintoma. A sensação térmica que o pano úmido proporciona ameniza a sensação de dor”, adianta o neurocirurgião Fernando Gomes Pinto, do Hospital das Clínicas (SP). “Mas a batata em si não surte nenhum efeito”, pondera.

CASPA X VINAGRE

Usar vinagre no couro cabeludo para se livrar das caspas (dermatite seborreica) não é recomendado. “É um problema comum, que responde mesmo, ainda que temporariamente, aos xampus anticaspa e, dependendo da intensidade, a loções capilares à base de corticosteroides. Nunca vão responder satisfatoriamente com vinagre e limão”, diz Marques.

DEPRESSÃO X TECIDO VERMELHO

Um pedaço de tecido vermelho na cabeceira da cama pode ajudar a pessoa a sair da depressão? “As pessoas ainda veem o problema como algo mental e pouco palpável, de causas pouco definidas e, por isso, tendem a usar mais as simpatias para esse tipo de enfermidade”, explica o psicólogo André Souza. Por que pode ser perigoso? “Você pode aumentar a gravidade do caso clínico” e não prestar a devida atenção à doença.

CAXUMBA X FRALDAS

Para evitar que a caxumba (ou papeira) “desça”, é costume envolver a cabeça do indivíduo com uma fralda de tecido. “Pode dar um pequeno grau de conforto para o paciente, uma vez que a caxumba faz que a glândula parótida fique bem inflamada e inchada”, explica o infectologista Ralcyon Teixeira, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas (SP). Só que essa simpatia não evita que o vírus da caxumba se espalhe pelo corpo, afetando outros órgãos, como os testículos, os ovários, as meninges e as articulações. Segundo ele, repouso, medicações para reduzir a dor e a inflamação são as medidas do tratamento. Em casos mais graves, há internação. Se você insistir na prática, o médico recomenda não amarrar muito forte a fralda, evitando machucar a pele ou outra parte do rosto já fragilizada.

SOLUÇO X FIO VERMELHO E SUSTO

Segundo a pneumologista Maria Alenita de Oliveira, do Hospital da Beneficência Portuguesa (SP), “O soluço é resultado do estímulo involuntário dos músculos da respiração levando a uma inspiração não sincronizada com o ciclo respiratório”. Com o susto a pessoa passa a ter uma inspiração rápida, cessando o processo. Já se o soluço vem de um bebê, um pedaço de linha vermelha umedecida pela saliva da mãe e colocada sobre a testa da criança daria conta do recado? “Não há explicação para essa simpatia, porém o fato de a criança receber atenção pode ajudar a melhorar o soluço”.

ODOR NAS AXILAS X LIMÃO

Sim, faça um belo suco com o limão, mas não o utilize sob as axilas para eliminar odores. “Essa prática pode ocasionar uma enfermidade chamada fotofitodermatose. Essa é consequência da existência, nas frutas cítricas, caju, manga, folhas de figo e outras, de compostos químicos que, em contato com a pele e a exposição ao sol, vão provocar queimaduras”, alerta o dermatologista Silvio Marques. “É totalmente proibido colocar limão na pele. Assim como é totalmente proibido usar os chás com folha de figo para se bronzear”, completa.

QUEIMADURAS X PASTA DE DENTE

“Passar pasta de dente, clara de ovo ou manteiga pode trazer um resultado absolutamente contrário ao esperado”, alerta Silvio Marques, dermatologista. As queimaduras de primeiro grau são aquelas com vermelhidão local, sem bolhas, mas com calor e dor. Para tratá- -las, é importante remover a fonte de calor e, em seguida, resfriar o local queimado com água corrente da torneira (esqueça a água gelada!). A depender da extensão e da gravidade, leve a pessoa até uma unidade de saúde. As queimaduras de segundo e terceiro graus são mais complexas e dependem de avaliação profissional.

 

Fonte: Viva Saúde

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