Cotidiano

Mães deixam empregos para cuidar de filhos com câncer na Paraíba

Atualizado em: 11/05/2015

lucimar

Mãe e avó não trabalham para cuidar de criança que ficou com sequelas.
Projeto de lei quer incluir licença remunerada para esses casos na CLT.

 

Conciliar o trabalho e a maternidade é uma tarefa difícil e este problema aumenta quando o filho desenvolve uma doença grave. Algumas mães da Paraíba se viram obrigadas a deixar seus empregos para cuidar e acompanhar de perto o tratamento dos filhos que tiveram câncer.

Lucimar da Silva, de 31 anos, é mãe de Maria Cecília, de 7. Ela começou a trabalhar no comércio informal aos 13 anos e, seis anos depois, teve seu primeiro trabalho com carteira assinada. Porém, há pouco mais de dois anos ela teve que abandonar o emprego de vendedora em loja de confecção para cuidar da filha, que estava com um tumor na cabeça.
“Quando a gente descobriu, eu não voltei mais pro trabalho. Uma semana depois eu comuniquei que teria que sair. Como ela é filha única e eu nunca morei com o pai dela, tive que deixar de trabalhar. Minha mãe também. Porque tudo que ela faz, é preciso duas pessoas pra ajudar, pelo peso dela”, explicou a mãe.

A família de Maria Cecília descobriu o tumor de 5 centímetros em dezembro de 2013. Três dias depois, a menina fez a cirurgia de retirada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Com a biópsia, os médicos constataram que o tumor era maligno. Em seguida, ela fez sessões de radioterapia para destruir as células cancerígenas que restaram. Apesar da equipe ter conseguido retirar o câncer, ela ficou com sequelas.

“Graças a Deus ela está voltando falar, mas ainda não consegue andar. É como se fosse um bebê. Ela faz fisioterapia, equoterapia e tem o acompanhamento de uma fonoaudióloga”, contou Lucimar. “Ela é uma criança limitada pela situação dela, só tem um ano de cirurgia. Antes, ela corria, passeava. Mas ela já interage, canta, pergunta, entende, faz carinho. Quando ela voltar a andar, eu posso voltar a trabalhar”.

Por enquanto, Lucimar sustenta a casa com o auxílio-doença que a filha recebe e com campanhas e rifas feitas com a comunidade. “Mas vale a pena fazer tudo isso, porque se não fosse essa dedicação que nós damos a ela, do dia-a-dia, a gente não sabe se ela teria chegado onde já chegou”, comentou.

Leila deixou um dos empregos para acompanhar o tratamento da filha, Maria Luiza (Foto: Leila Lira Melo/Arquivo Pessoal)

Outra mãe que teve que abrir mão de parte da renda familiar foi Leila Lira Melo, de 48 anos. Em maio do ano passado, a filha dela, Maria Luiza, com 4 anos na ocasião, foi diagnosticada com câncer pélvico. Durante o tratamento, a menina teve que fazer quimioterapia, radioterapia e duas cirurgia. Sentindo a necessidade de ficar ao lado da filha, Leila, que é fisioterapeuta, pediu demissão de um dos seus dois empregos.

“Eu tentei pedir um afastamento remunerado pelo INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], mas não consegui, mesmo depois de contribuir por 18 anos. Como não dava pra trabalhar todo dia, o dia todo, eu tive que pedir demissão de um dos hospitais. O outro era o mesmo onde ela fez o tratamento, então eu só precisei trocar os meus horários para estar trabalhando quando ela estava internada”, relatou.

João Eduardo, pai de Maria Luiza, iniciou campanha para tentar incluir na CLT o direito a licença dos pais de crianças com câncer (Foto: Leila Lira Melo/Arquivo Pessoal)

Em dezembro do ano passado, Maria Luiza se viu livre do câncer. Leila, no entanto, permanece em casa, com a filha, fazendo o acompanhamento necessário. “Eu não me arrependo porque o motivo foi justo. Se tivesse que ter deixado os dois, eu teria deixado os dois”, garantiu.

“Eu preferia que tivesse sido comigo. Eu tenho 48 anos, já vivi muita coisa. Minha bebêzinha está só começando a viver. Um dia a menina está fazendo balé na escola e de repente vai para o médico e não volta mais. Passou um ano da vida dela praticamente fazendo tratamento. Minha filha amadureceu muito e a família toda também”, disse, emocionada.

Com 50% da renda de Leila perdida, a família contou com a ajuda do salário do marido, que é servidor público, mas cortando o que era supérfluo. “Como uma pessoa de 4 anos vai se submeter a um tratamento desse sem o pai e a mãe?”, questionou.

Diante das dificuldades enfrentadas pelo casal, o marido de Leila, João Eduardo Melo, deu início à campanha Vem Cuidar de Mim. O casal e mais um grupo de pessoas querem pressionar a Câmara dos Deputados, em Brasília, a colocar em votação um projeto de lei de 2011 que inclui na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) o direito à licença pelos pais de crianças com câncer para acompanhar o tratamento.

“Fizemos um abaixo-assinado e chegamos a 70 mil assinaturas. No dia 10 de abril, entregamos o documento, que é um requerimento de urgência, ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Em 4 de maio, vi que o abaixo-assinado foi acostado ao processo. Isso nos dá esperança de que eles coloquem o projeto para votação”, explicou.

Segundo João Eduardo, a situação de muitas mães de crianças com câncer é preocupante. “Muitas voltam pra casa do pai e da mãe, perdem sua dignidade. Porque mãe faz isso mesmo, deixa o emprego e vai cuidar do filho. Minha esposa pagou 18 anos de INSS e, quando precisou, teve que jogar fora esses 18 anos de trabalho”, lembrou João Eduardo.

A pauta de votação da Câmara Federal é determinada semanalmente, segundo a assessoria da Casa. A pauta prevista para o período de 12 a 14 de maio ainda não inclui a votação do Projeto de Lei 3011/2011.

Fonte: G1

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