Comportamento

Profissionais largam carreira para cuidar de familiares

Atualizado em: 29/02/2016

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Abandonar a carreira, a rotina e os hábitos em prol dos cuidados de alguém pode parecer uma atitude extrema para alguns, mas para outros é necessidade. Seja por uma doença terminal ou incapacitante, cuidar de um familiar nessa situação exige tempo e dedicação praticamente integral, o que na maioria das vezes prejudica as relações interpessoais e a vida profissional.

Por ser uma situação que demanda preparo psicológico do cuidador, é preciso ficar atento às reações de cada um nesse processo de mudança. “Uma pessoa que abdica de sua vida em prol do cuidado do outro pode, se não emocionalmente fortificado, desencadear depressão, estresse, angústia exacerbada e baixa autoestima”, explica a psicóloga do Hapvida Saúde, Lívia Vieira.

Apesar de ser uma demonstração de carinho, afeto e compaixão pelo próximo, cuidar de algum familiar pode ser emocionalmente desgastante, tendo em vista a dedicação total que a atitude exige. A especialista  esclarece que nessas situações é comum que o cuidador faça tudo em prol da melhoria do parente, esqueça de cuidar de si mesmo e passe a viver a dor e a enfermidade do outro.

Por causa disso, as relações interpessoais também são prejudicadas, sobretudo quando o enfermo é uma pessoa mais próxima. “O indivíduo se vê pressionado a não socializar e, se ocorre a socialização, que não em ambiente hospitalar, em que o enfermo também tem acesso, advém o sentimento de culpa. Sobressai o pensamento de que se o ente querido está em sofrimento, ele também não tem o direito de sorrir, pois se perpassa felicidade, o seu íntimo e a ‘sociedade’ o culpará e o condenará, como se a pessoa quisesse mal a quem tanto zela”, esclarece  Lívia.

Cuidar de alguém em estado terminal faz que a relação entre o cuidador e o doente entre em uma nova fase. “A pessoa não existe mais da maneira que conhecíamos, então precisamos fazer uma ressignificação do relacionamento que temos com ela. Ao contrário do que muitos pensam, o luto não está ligado apenas a morte, mas quando há uma quebra de vínculo de qualquer natureza. É possível, portanto, que as pessoas iniciem o processo de luto mesmo que o familiar esteja vivo.”, explica Mariana Simonetti, Psicóloga do Luto do Morada da Paz.

Esse processo afeta de maneira significativa a maneira de lidar com a morte do familiar.  “O luto é uma experiência singular e individual. É natural ouvirmos de quem passou por essa experiência que elas já estavam preparadas para a morte do parente, justamente por acompanhar todo o processo. Outros passam a vivenciar um luto com culpa, achando que não fizeram o bastante ou não estiveram presentes o suficiente. Estes casos demandam mais cuidados”, detalha Mariana.

No entanto, é possível viver esse momento sem que a saúde do cuidador seja prejudicada emocionalmente ou psicologicamente, com sintomas como gastrite e insônia. “O auxílio psicológico precisa ser buscado de imediato. Para cuidar de outro, o indivíduo precisa primeiro cuidar de si, se fortalecer. É importante que o cuidador tenha o suporte de alguém e o psicólogo é de extrema importância nesse processo, pois a pessoa pode, de fato, desabafar, falar o que sente sem sentir-se culpado, apenas no intuito de retirar um pouco o peso da situação”, orienta Lívia Vieira.

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