Comportamento

Presente de dia dos namorados: uma declaração de amor pra vida inteira

Atualizado em: 12/06/2017

couple-814825_1280

Se você pensa que esta é mais uma matéria de dicas de presentes, está enganado. O texto traz uma reflexão sobre os tipos de amor e as formas de se relacionar romanticamente. Veja:

Presente de dia dos namorados: uma declaração de amor pra vida inteira

Precisando de dicas de presente pro dia dos namorados? Chega aqui.

A essa altura você deve estar se descabelando, tentando descobrir qual seria o melhor presente pro seu namorado ou namorada.

Há tantas opções, não é?
Aposto que você já pensou em um jantar legal, aparou a barba, cortou o cabelo, se depilou, comprou uma roupa bonita, já está com um discurso pronto.

Agora, só falta comprar algo especial, que materialize todo seu sentimento. E, enfim, você vai ter a experiência completa.

Vou falar aqui um pouco sobre duas formas usuais de se relacionar, como você pode fazer diferente e dar um critério que pode ajudar a pensar em um presente que vai valer como uma declaração de amor pra vida inteira.

Amores adolescentes

Basta entrar em qualquer página de Facebook ou artigo sobre os relacionamentos nos dias de hoje que vamos ouvir uma crítica ecoando pelas caixas de comentários: as pessoas estão muito superficiais, elas não se envolvem, na primeira oportunidade caem fora e nos abandonam.

Muita gente chama isso de amores líquidos, baseados na obra de Zygmunt Bauman (o que é uma interpretação incompleta, mas vamos falar nela).

Nosso momento histórico é fluido, segundo Bauman. Nada é feito pra durar. E isso também acontece com as nossas relações.

Segundo essa perspectiva, nossas relações passam principalmente pelo crivo do prazer próprio. Quando os laços não servem ao propósito de nos dar prazer, de fazer com que nos sintamos bem, então chega a hora de descartar, partir pra outra.

De alguma forma, isso lembra bastante a maneira como nos relacionamos quando somos adolescentes. Nossos vínculos não são fortes, estão baseados naquela perspectiva estreita de momento, no gostar ou não gostar, na incapacidade de construir. Um adolescente procura mágica, que as coisas se resolvam imediatamente e fluam sem que ele tenha trabalho. Seria o equivalente a esperar que a mãe venha lavar as roupas, arrumar o quarto e dar mesada.

Falando assim, parece fácil vilanizar, como se a pessoa que “descarta” fosse esse monstro que não se importa com ninguém. No entanto, se olharmos bem vamos ver uma lama repleta de medo, carência, insegurança… Não muito diferente de nenhum de nós.

É comum pensarmos, também, que não levamos esse pensamento pros relacionamentos sérios, que reservamos isso às transas de final de semana, mas é perfeitamente possível (e acontece com uma grande frequência) estendermos essa forma de operação ao que chamamos de “compromisso”. Muita gente tem relacionamentos pra vida inteira desse jeito.

Quando caímos nessa bolha, há duas formas de operação comuns: a de quem descarta e a de quem é descartado. Em geral, o sofrimento da segunda parte vem por causa de uma outra crença forte enraizada…

Amor romântico incondicional

23d0a2e3d9ed90417cd1c3cf447012df-jpg

A outra ponta é a do amor romântico.

Eu não sei muito bem definir esse tipo de amor se não por exemplos caricatos do que ele procura.

O romântico quer casar, ter filhos, uma esposa (ou marido), morar e envelhecer junto. Ele tem planos, tem mil ideias sobre como tudo vai ser. A casa já está pronta. A pessoa ideal já está formatada.

Ele quer garantias. Vai pedir declarações extravagantes, mensagens de bom dia e boa noite, presentes, lembrancinhas. Ele espera sua aprovação, mas em contrapartida exige que você faça o mesmo.

Ele acha que pode superar tudo, que amor de verdade a gente conserta, não joga fora.

A palavra é: incondicional. Ele acha que pode confiar nisso, que vai ter felicidade definitiva se só seguir o script da maneira correta. A parte dele está sendo feita, mas a culpa é sua, você é que está causando uma decepção se algo der errado. A fraqueza é sua se desistir.

O amor romântico tem essa característica de nos fazer sentir especiais, ele diz “você é a pessoa mais importante da minha vida”. Sim, é gostoso. Mas a verdade é que ele é tão condicional quanto o amor adolescente/líquido do qual falamos ali em cima.

Quando as causas e condições acabam, ou seja, quando a pessoa não atende a sua lista de pré-requisitos, ele cessa. Funcional, igualzinho.

No fundo, essa operação do amor romântico compartilha o mesmo eixo: o que importa é atender aos seus próprios critérios egoístas, do que eu formatei (muitas vezes inconscientemente) pra mim como felicidade.

Amor genuíno: uma outra via

Essa é uma terceira via da qual não se ouve falar muito.

Quando amamos, em geral, dizemos “eu quero que essa pessoa me faça feliz”. Aqui, o sentimento é outro: “como amo essa pessoa, quero que ela seja feliz”.

Ao invés de segurar com força, preocupado com o que a pessoa tem a oferecer, se ela é merecedora e corresponde às suas expectativas, você nutre, cuida, permitindo que o desenvolvimento dela flua livremente.

Não importa qual movimento a pessoa apresente, o que importa é se aquilo vai conduzi-la à sua própria felicidade.

Parece fácil falando e muitas vezes batemos no peito como se fosse o que já fazemos. Mas será mesmo?

Faça do seu presente uma declaração de amor pra vida inteira

london-wedding-photography-pre-crouch-end-portraits-22-jpg

O amor genuíno, ao contrário do amor adolescente/líquido ou do amor romântico, não tem fim. Por ser leve, desprendido de interesse próprio, respeita a liberdade de movimento do outro. Não se opõe às circunstâncias que podem tornar o outro mais feliz, sejam elas quais forem. Se for aqui, do meu lado, ótimo. Se não for, o que importa é a sua felicidade.

Amor, amor mesmo, amor genuíno, não tem forma. Pode ser amor de casal hoje e se tornar outra coisa amanhã. Amizade, namoro, casamento… não importa.

Quando escolhemos o presente de dia dos namorados, é bem comum pensarmos em algo que contemple seu uso apenas durante a vigência da relação de casal. Uma aliança, uma viagem juntos, uma noite em um motel especial, uma lembrança que reforce aquela união. É lindo, nada de errado.

Mas o que quero propor é uma outra forma de pensar.

E se você der como presente algo que ajude a pessoa ser ainda mais livre, autônoma, que torne a felicidade do seu parceiro ou parceira menos e menos dependente de você?

Que tal oferecer um presente que seja uma lembrança de algo além da relação, algo que dê mais força, que faça a pessoa brilhar por si só? Algo que a favoreça em seu desenvolvimento, que a faça caminhar para um lugar mais amplo, lúcido?

E se você ajudar a cultivar os meios pra que essa pessoa possa caminhar independente da sua aprovação (por mais sutis que as suas demandas sejam)?

Isso, sim, é uma declaração de amor pra vida inteira.

Pode ser que todo esse discurso não faça sentido se você estiver em uma relação adolescente ou romântica padrão, mas há um paradoxo, um pulo do gato nisso. Mesmo se você for autointeressado e estiver pensando em si mesmo, oferecer esse tipo de presente fortalece a relação, a torna muito mais satisfatória. Agir por base em liberdade traz leveza, fôlego, energia. Algo em nós, lá no fundo, já conhece essa sensação.

Não é preciso ser nenhum gênio pra saber o que as relações usuais de medo, ciúme, carência e insegurança trazem. Todos nós sabemos na pele.

Desejo a todos um feliz dia dos namorados!

Fonte: Papo de homem

Comportamento