Comportamento

Por que nunca temos tempo o suficiente?

Atualizado em: 18/04/2017

Imagina ter que ficar contando quanto tempo falta pro final?

O tempo que temos deveria ser o bastante para vivermos da maneira como gostaríamos e sermos felizes, mas geralmente não é o que acontece. Decidimos realizar mais funções, do que o nosso tempo “permite” e nessa batalha por nos realizarmos, deixamos algumas coisas para trás. Mas como resolver esse nosso empasse? Leia a matéria na integra a baixo.

 

 

Por que nunca temos tempo o suficiente?
Quando começou essa sensação estranha de ter mais coisas a fazer do que tempo para fazê-las?

Eu tenho um sonho – e talvez você tenha também – de um dia ter tempo o suficiente pra fazer tudo. De alguma forma, sempre parece que estou num período de tempo apertado do ano, ou da minha vida.

O estado de ter tempo o bastante parece algo tangível, mas parece que nunca o alcançamos. Quando terminarmos esse projeto, quando o Natal passar, quando a mudança acabar, aí então terei tempo suficiente para fazer tudo. Mas agora, não.
Consigo fazer um número razoável de coisas, mas algo sempre é deixado para trás: e-mails, contabilidade, promessas de automelhoramento, coisas que disse que faria. Ainda estou aprendendo francês? Não tenho certeza.

Às vezes me pergunto se ter tempo o suficiente é sequer possível, ou é como se fosse tentar atingir a velocidade da luz. Podemos nos aproximar disso, se tivermos uma grande quantidade de energia, mas as leis da realidade nos impedem de realmente chegar lá.

 Imagina ter energia pra resolver tudo na velocidade da luz?

Imagina ter energia pra resolver tudo na velocidade da luz?

Isso, no entanto, não faz muito sentido. Você sempre consegue finalizar algumas coisas, e se essas coisas forem tudo que você achou que tinha que fazer, então você teve tempo suficiente. Se você tivesse mais umas duas horas por dia, você teoricamente conseguiria continuar com suas aulas de espanhol, você poderia ter organizado sua gaveta de meias, você poderia ter terminado seu desafio de 30 dias de yoga.
A quantidade de coisas que falhamos em fazer é finita – não estamos tentando fazer tudo verdadeiramente. Decidimos aprender guitarra, mas não piano. Prometemos passar mais tempo com a vovó, mas não necessariamente com o primo Steve. Pretendemos ler O grande Gatsby, mas não Guerra e paz.

O esquivo conceito de “tempo o suficiente” é possível. Só precisamos de mais tempo no cálculo, ou menos atividades consumindo-o todo.

É uma equação simples:

Tempo disponível para você

dividido por

tempo necessário para fazer tudo o que você precisa

Se o resultado é maior que 1, você tem tempo o suficiente.

Mesmo que tenhamos bastante controle sobre o que pretendemos fazer com nosso tempo, estranhamente nunca há o suficiente. Como conseguimos bagunçar tanto essa equação? Alguém de vocês acredita que tem tempo o suficiente?

Imagina ter que ficar contando quanto tempo falta pro final?

Imagina ter que ficar contando quanto tempo falta pro final?

Frequentemente argumentamos que não escolhemos o tempo de nossas obrigações, então estamos presos num déficit permanente e é assim que as coisas são. Contas precisam ser pagas. O corpo precisa dormir. O cachorro precisa passear. Não temos tempo para todas essas obrigações, e mesmo assim não conseguimos nos livrar delas.

Mas acho que isso é só uma tática desonesta que usamos para evitar desapontarmos os outros, desistir de sonhos que não estão dando certo, ou fazer outra mudança ousada mas estressante em nossas vidas. Além disso, se estamos falhando constantemente em nossas obrigações, não pode ser verdade que elas precisam ser cumpridas.

Realmente dizemos sim para coisas que poderíamos ter falado não. A casa grande que requer um trabalho grande para pagá-la. Escolhas de entretenimento. Empreitadas de automelhoramento. Tempo em mídias sociais. Ler o jornal. Passar dois anos discutindo em quem se deve votar. Há muitas escolhas escondidas em nossos estilos de vidas lotados.

Quase jogando na cara, alguns antropologistas falam que milhares de anos atrás as pessoas tinham muito mais tempo livre disponível do que a caçada, a coleta e que o cuidado de crianças requeriam. Três ou quatro horas de trabalho pagavam as contas, então eles tinham bastante tempo livre. Então veio a agricultura, e eventualmente a industrialização, e de alguma maneira esses avanços úteis tornaram quase todos nós em pessoas vivendo sob o peso do tempo.

Imagina que era só caçar, comer, se esquentar e fazer uns desenho na parede?

Imagina que era só caçar, comer, se esquentar e fazer uns desenho na parede?

Isso é irônico, porque todos esses avanços eram, em sua essência, revolucionários por sua eficiência, cortando o tempo requerido para produzir alimento e outras coisas. Quando um dia de trabalho de um fazendeiro é capaz de criar comida o suficiente para dez pessoas, as outras nove pessoas podem fazer outras coisas o dia inteiro, como criar arte, mapear o céu noturno, reunir exércitos, construir templos ou pensar em piadas.

Tenho certeza de que há complexas razões políticas e sociais para que essas inovações poupadoras de tempo acabaram nos deixando sem tempo permanentemente, e você pode consultar os cientistas sociais mais próximos para obter algumas ideias.

A produção em massa liberou bastante tempo, e nós basicamente o usamos para criar novas maneiras de ocupá-lo todo. Vinte mil anos atrás, a ideia de decidir o que fazer com sua vida poderia parecer algo absurdo. Ninguém era perturbado pelo anseio duradouro de ser um poeta até que existisse poetas, ou de ir a Índia antes de qualquer um ir a Índia.

Talvez não tenha sido de propósito, mas criamos um buffet de possibilidades para passar o tempo. Muitas delas são enriquecedoras e mais do que dignas.

Mas todos nós sabemos o problemas com buffets. Eles não favorecem o pensamento racional. Claramente a selva não nos preparou para lidar sensatamente com 40 travessas cintilantes de comida quente. Você vê algo que você gosta e a seguir já está empilhando mini quiches junto às almôndegas perto dos rolinhos primavera sobre o curry de frango, buscando todas as cores da vasta paleta sem nunca olhar para a tela.

A consciência do erro só chega quando você volta à mesa e começa a desmontar a pirâmide niilista e lovecraftiana de horrores que você não sabia que estava criando.

Imagina só ter a capacidade de escolher uma única opção?

Imagina só ter a capacidade de escolher uma única opção?

Eu recentemente passei algumas de minhas horas (o que representaria algumas horas de rendimento) indo ver Jerry Seinfeld num show de standup em um dos nossos teatros locais. Ele comentou essa bizarra instituição humana que são os “buffets coma à vontade”:

Há algo sobre buffets que deixam nossas mentes, razão e julgamento em curto-circuito…

Ninguém chegaria num restaurante e pediria para o garçom “Eu quero um frozen yogurt, costelinhas, uma panqueca, quatro cookies e um omelete de clara de ovo.”

(Assista essa parte aqui)

É claro que a abundância de comida é melhor do que a escassez, e o mesmo é verdade para maneiras de se passar o tempo. Mais opções realmente nos dão mais com que trabalhar em nossa missão de construir uma vida satisfatória.

Mas há um grande perigo aqui. Somos criaturas gananciosas, e agarrar coisas demais nos deixa estressados e inadequados, constantemente imaginando se estamos no caminho certo. O psicólogo Barry Schwartz nos diz que a abundância de opções de certa maneira nos deixa menos satisfeitos com nossas eventuais decisões. Quando há cinquenta possibilidades ao invés de duas, sabemos que é improvável que escolhamos a melhor.

Então talvez seja por isso que estamos para sempre tentando e falhando em achar tempo para assar o próprio pão, aprender jiu-jitsu brasileiro, ver todos os indicados a Melhor Filme e dominar o solo de guitarra de Stairway to Heaven — além de ter uma vida equilibrada trabalhando, dormindo, comendo e socializando. O mundo moderno deixa tanta coisa a nosso alcance quando aprendemos a dar as cartas corretamente, mas há milhares de cartas para distribuir. Os riscos são altos — é a nossa vida, no final das contas —, então para evitar jogar com as cartas erradas, jogamos com todas.

Eu realmente acredito que viver com “tempo o suficiente” é possível, e eu acredito que valha mais a pena do que os frutos de qualquer cronograma de 25 horas/dia que eu consiga montar. Mas para que esse processo de poda seja efetivo, ele precisa ser rigoroso.

A matemática envolvida cria um dilema existencial sério. Quando há 10 mil maneiras de se passar o tempo, ter tempo o suficiente significa dizer não para a grande maioria das coisas que você se imaginou fazendo um dia. E isso significa nunca se tornar a maioria das pessoas que você imaginou ser: o romancista, o viajador, o anfitrião de jantares, o faixa-preta, o dono de uma caixa de entrada impecável, o conhecedor de vinhos.

É um pensamento assustador, toda essa renúncia que deve acontecer. Mas ela deve acontecer conscientemente, e se não acabarmos logo isso, aí nunca haverá tempo o suficiente mesmo.

Fonte: Papo de Homem

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