Cristiani Meller

Cristiani Meller

Cristiani Meller, Analista Financeira e Gerente Comercial do Portal Mulher de Fato.

Num reino de fancaria…

yolanda

Texto publicado em 29 de julho de 1989 – no Jornal Correio da Paraíba, quando me dedicava a artigos/crônicas. Não sei você concorda, mas acho-o muito atual para a realidade política do Brasil.      

   Era um mundo de muitas moradas e partidos, como todo país pluralista e democrático. A cada um deles cabia lutar por ideários que teriam por objetivos permanentes, a integridade, a fartura, a paz, o entendimento entre todos.
Um Reino onde campeavam as propostas de candidatos a substitutos do soberano, somados a um não sei quanto de boas intenções e um desejo intrínseco de acertar por parte daqueles que se dispunham a assumi-lo.
Não mais o “faz-de-conta” tão usado tempos atrás, não mais a manipulação popular – sob o manto diáfano de promessas nunca cumpridas – dada por encerrada quando os mais compenetrados na função de “filhos salvadores da pátria” concluíam que só dando é que se pode receber e que, este pressuposto também seria válido em relação ao povo.
Cumpririam a partir da posse, religiosamente, promessas e prometidos, mesmo as menos confiáveis.
Dariam ao seu reino o melhor de sua inteligência e ao povo a mais grata e convincente estampa que pudessem imprimir de sua imagem.

Já somavam treza (13) os postulantes a sentarem à direita do trono. Cada um, caso posto em prática o laudatório de boas obras que prometia, logo tivesse acesso ao poder, a plêiade de crédulos veria acrescentado àquele Olimpo, as primícias do Paraíso até o Infinito.
Só que o Reino de tão pobre, sucateado e inflacionado, não tinha mais como absorver tantos salvadores.
Submetidos os interessados a Convenções e Debates, exigidos pelos usos e costumes da turba ignara, conjunturalmente em plena ebulição social e já “escaldada” de tantas incursões fracassadas no terreno eleitoreiro, concluiu-se que:
– Com a anarquia generalizada e uma realidade não muito longínqua do caos, impunha-se partir da premissa de que ninguém conseguiria realizar sozinho qualquer tipo de governo num Reino daqueles e que, em decorrência, seria mais prudente TODOS OS CANDIDATOS REINAREM JUNTOS, EXERCENDO O PODER EM REGIME DE COLETIVISMO;
– Não se daria importância às faixas etárias. O peso da autoridade constituída ao mancebo de 43 anos, seria o mesmo conferido ao nobre de 76;
– Não haveria mais privilégios do poder: as contas de água, luz, telefone, transporte, moradia, imposto de renda, taxas, emolumentos e feiras semanais, seriam pagos pelas figuras reais com o próprio salário e, as despesas com viagens de lazer, trabalho ou missão diplomática, principalmente ao exterior, haveriam de sair incólumes, também do bolso de cada um. Em suma, as mordomias institucionalizadas quedariam extintas, para honra e graça do novo reinado;
– Qualquer deslize contra o patrimônio do Reino e dos contribuintes seria punido inexoravelmente, sem apelação ou apadrinhamento de qualquer estrutura do poder;
– Finalmente, quem não cumprisse as promessas de campanha ou resistisse às exigências emanadas das leis, expressamente elaboradas para o novo reinado, iria para o “paredon”, sem lenço e sem documento;
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Um dia antes das eleições, panfletos distribuídos por todo o Reino ofereceram à Corte e à população, uma agradável e respeitável surpresa: houvera uma RENÚNCIA COLETIVA dos candidatos.

As exigências a que queriam submetê-los se lhes apresentava inglória e injusta. Colocava-os sob suspeição, pré-julgando sua hombridade e caráter, o que dificilmente poderiam aceitar, em nome da dignidade e moral pública a que se haviam comprometido, desde que empossados e devidamente elevados aos píncaros da capacidade instalada do glorioso Reinado.
Tão salomônica decisão deixou nobres e plebeus exultantes: a campanha eleitoral tivera avanços: poder-se-ia, agora, repensar a conjuntura vigente e reelaborar leis, dando nova feição às eleições, tão desgastadas pelo tempo que não faziam mais sentido….  Aí sim, encontrar-se-ia os meios de estabelecer, com seriedade, a forma mais íntegra e intangível de alçar ao poder o mandatário ideal para aquele Reinado de tantas moradas, tantos partidos e tão pouco siso.
Só não se sabe se deu certo!…

                                 

Yolanda Fernandes Leite

Professora aposentada da UFPB
Coordenadora de Eventos da Universidade da Terceira Idade – UNITI/PB

Colunista do Jornal da Paraíba

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