Linda Susan

Linda Susan

Graduada em Nutrição e mestrado em Ciências dos Alimentos pela Universidade Federal da Paraíba. É consultora do PAS/Mesa. Atualmente é professora da Escola de Nutrição da UFBA.

Mulher, professora, e a cozinha?

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Negar a cozinha? Já neguei. Sou de uma geração que devia se afirmar como indivíduo em um sistema de clara desvalorização da mulher. Cozinhar, ser professora, dona de casa, não era o que tinha planejado prá mim. Me apaixonei… chutei o pau da barraca… mãe, esposa submissa, aff ( com repúdio),mas, bastava ele me olhar com aquele olhar de cachorro babão e eu esquecia tudo e deixava que suas mãos me conduzissem para a extrema felicidade de ser mulher! Paralelamente, dualidade de personagem? Estudava nutrição, um dia descobri ao preencher a ficha da escola das meninas (3) que eu tinha uma profissão, NUTRICIONISTA! Realizada? Ainda não! As dúvidas, as escolhas, a pressão, o que fazer? Como harmonizar a liberdade de ser mulher com a liberdade de ser profissional, se tinha uma amarra na realidade, o marido! Que me fazia infinitamente feliz e infinitamente infeliz! ???? Trabalhei, fiz ciência, lavei pratos e roupas, amamentei, costurei, cozinhei, bordei, estudei… e finalmente, professora universitária!

Com muita experiência em nutrição e gastronomia (leia-se nas entrelinhas, cozinha). E aí mãe? Neguei tanto tempo, me debati contra a corrente que volta e meia me levava ao traçado por você prá mim. Mãe sabe das coisas constatei! Infeliz? Não! Feliz? Não! Decidida sim! E ele? Ah o amor… que é o vinculo da perfeição supera tudo, perdoa, recomeça… Livre, feliz! Presa, feliz! Amada, feliz! Não nadar contra a corrente, mas transformar a força da corrente que teimava em me levar, na força propulsora para seguir em frente! Acertei? Em algumas coisas. Errei? Em muitas coisas! Mas sempre soube recomeçar! Enfim eu decidi ser feliz com minhas escolhas! Mulher, amante, mãe, professora e cozinheira, por quê não?

Pesquisando escrevi há alguns anos… a cozinha (no período do auge dos Engenhos no Nordeste) era o centro de decisão e de liberdade da casa grande. O sincretismo gastronômico era perceptível entre tachos, panelas e colheres de pau, conversas, sussurros e gargalhadas entremeadas de sabores, saberes e cores. Mucamas e sinhás, escravas e senhoras, donas do saber e do saber fazer, exerciam o poder da alquimia dos sabores. A acidez da escravidão se afinava com o doce da liberdade, emanada dos aromas de caramelo, de variadas frutas, do leite do coco, da mandioca, do milho e temperadas pelas lágrimas da submissão feminina das sinhás e senhoras e subserviência resignada das escravas e relutância das índias. No entanto, livres em decidir no território administrado com sabedoria e zelo de quem gera vida. Sábias mulheres!

No ensino, mulher/professora:
– Semeias sabedoria com amor quando ensinas,e colhes cidadãos;
– Teus ensinamentos são como sementes em solo fértil, a seu tempo darão frutos;
– Em teu colo acalantas sonhos e transforma-os em realidade quando ensinas.

O ensino/aprendizagem faz parte do universo feminino desde a mais tenra idade até a maturidade/senilidade. Na vida “doméstica”, ah com repudiei este termo, a mulher desenvolve ações de ensino/aprendizagem, e no universo lúdico da cozinha é que os saberes e os fazeres se misturam numa alquimia que encantam e nutrem a vida!Na gastronomia paraibana não é o homem que dita as regras, a cozinha é ‘ clube da Luluzinha”, os homens atualmente estão participando mas almejam o ‘glamour’ da gastronomia. A tarefa de ensinar o saber fazer, é feminina, a cumplicidade no compartilhamento das receitas, dos truques,da simbologia da comida, da alquimia dos sabores e valores, é feminina! Na verdade o ato de cozinhar extrapola o processo de cocção, coloca-se na panela, não só os ingredientes,dosados, tratados quase com mágica pelas mãos das fadas que os transformam em comida que nutre o corpo,a alma e o espírito!

Viva as mulheres, na cozinha, no tanque, na cama, nas empresas, no comando, no poder em tudo! Entendo sempre que o amor é o vínculo da PERFEIÇÂO!

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