Denise Lemos

Denise Lemos

Diretora Executiva do Portal Mulher de Fato, CEO Up Branding Marketing Digital, CEO Startup 28Dias.

Eu nunca vi um Papa assim

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EU NUNCA VI UM PAPA ASSIM…

Eu nunca vi um Papa pegar o avião carregando uma maleta.
Eu nunca vi um Papa preso num engarrafamento dentro de um Fiat com uma multidão ao redor.
Eu nunca vi um Papa manter o vidro do carro abaixado para estender a mão e tocar as pessoas.
Eu nunca vi um Papa andando rapidinho.
Eu nunca vi um Papa indo na direção que não se espera que ele vá.

Eu nunca vi um Papa sair debaixo do guarda-chuva.
Eu nunca vi um Papa entrando no meio da multidão.
Eu nunca vi um Papa perguntar: por acaso a gente visita alguém de quem gosta, um amigo, dentro de uma caixa de vidro?

Eu nunca vi um Papa responder não à pergunta que fez balançando o indicador.
Eu nunca vi um Papa dizer que pode levar um soco.
Eu nunca vi um Papa dizer que é inconsciente.
Eu nunca vi um Papa deixar a segurança tonta.
Eu nunca vi um Papa dizer é tudo ou nada.

Eu nunca vi um Papa dizer que, ou a gente faz a viagem com comunicação humana como deve ser, ou não faz.
Eu nunca vi um Papa dizer que comunicação pela metade não faz bem.
Eu nunca vi um Papa chegar dizendo: permitam-me que nessa hora eu possa bater delicadamente a esta porta, peço licença para entrar.

Eu nunca vi um Papa dar bom dia e exclamar que bom estar aqui.
Eu nunca vi um Papa dizer como é bom ser bem acolhido.
Eu nunca vi um Papa abraçar em vez de dar a mão para beijar.
Eu nunca vi um Papa tocar o ombro do motorista pedindo para o papamóvel parar.
Eu nunca vi um Papa descer de repente do papamóvel.

Eu nunca vi um Papa trocar o solidéu por outro que um fiel lhe estendeu de presente.
Eu nunca vi um Papa afagar criança com ternura sem que seja para aparecer na foto.
Eu nunca vi um Papa ser chamado de fofo até por não católicos ou ateus.
Eu nunca vi um Papa reunir no frio e na chuva uma multidão maior do que Réveillon ou Carnaval.

Eu nunca vi um Papa sempre alegre e bem-humorado.
Eu nunca vi um Papa falar tantas vezes a palavra alegria com alegria.
Eu nunca vi um Papa com cara de quem faz arte.
Eu nunca vi um Papa que dá vontade de fazer arte.
Eu nunca vi um Papa inspirar tantas esculturas de areia na praia e provocar a transformação do “fio dental” em minissaia.

Eu nunca vi um Papa que não fala em pecado.
Eu nunca vi um Papa a quem eu confiaria um segredo.
Eu nunca vi um Papa falar pouco e dizer muito.
Eu nunca vi um Papa que dá vontade de ouvir o que ele diz.
Eu nunca vi um Papa coerente.
Eu nunca vi um Papa didático.

Eu nunca vi um Papa explicar primeiro isto, segundo isso, terceiro aquilo.
Eu nunca vi um Papa perguntar: estão me entendendo?
Eu nunca vi um Papa dizer coisas que todo mundo entende.
Eu nunca vi um Papa não dar uma de sabichão, autoridade, dono da verdade.
Eu nunca vi um Papa falar sem rodeios, dizer: olha, o que eu espero é o seguinte.

Eu nunca vi um Papa dizer que os mais pobres são os que mais praticam a generosidade.
Eu nunca vi um Papa dizer que sempre é possível botar mais água no feijão.
Eu nunca vi um Papa repetir um ditado.
Eu nunca vi um Papa dizer que a palavra solidariedade incomoda muita
gente, parece um palavrão.

Eu nunca vi um Papa dizer que a ação vale mais do que a palavra.
Eu nunca vi um Papa não dar muita trela para os governantes.
Eu nunca vi um Papa falar claramente dos governantes.
Eu nunca vi um Papa dizer que não adianta tentar pacificar a periferia se ela é abandona pela sociedade.
Eu nunca vi um Papa dizer que a medida da grandeza de uma sociedade reside no modo como ela trata os mais pobres.

Eu nunca vi um Papa dizer que a realidade pode mudar.
Eu nunca vi um Papa dizer que ninguém é descartável.
Eu nunca vi um Papa mandar os padres saírem da paróquia e ir para as ruas, para as periferias, trabalhar para os pobres.
Eu nunca vi um Papa exaltar o entusiasmo e a criatividade.
Eu nunca vi um Papa entusiasmado.

Eu nunca vi um Papa com faísca nos olhos.
Eu nunca vi um Papa com cara de desejo.
Eu nunca vi um Papa brincar que aceitaria um copo d’água, um cafezinho, cachaça não.
Eu nunca vi um Papa que dá vontade de dar uma cachaça para ele provar.
Eu nunca vi um Papa que com certeza vai adorar caipirinha.

Eu nunca vi um Papa fazer piada.
Eu nunca vi um Papa dizer que Deus é brasileiro.
Eu nunca vi um Papa sugerir oferecer uma dúzia de ovos a Santa Clara para parar de chover.
Eu nunca vi um Papa dizer que não gosta de dar opinião sem conhecer.
Eu nunca vi um Papa baixar a cabeça e refletir antes de responder.

Eu nunca vi um Papa dizer perdão se me estendi e falei demais.
Eu nunca vi um Papa se desculpar.
Eu nunca vi um Papa agradecer a gentileza do entrevistador
Eu nunca vi um Papa dizer que se esqueceu.
Eu nunca vi um Papa dizer que é mal educado.
Eu nunca vi um Papa dizer: vou me atrever dizer uma coisa, sem ofender.

Eu nunca vi um Papa dizer a palavra gay.
Eu nunca vi um Papa dizer quem sou eu para julgar.
Eu nunca vi um Papa pedir para rezar por ele.
Eu nunca vi um Papa dar gargalhada.
Eu nunca vi um Papa bater palma.
Eu nunca vi um Papa coçar o nariz.

Eu nunca vi um Papa dizer que padre apegado ao dinheiro é uma ofensa ao povo.
Eu nunca vi um Papa dizer que padre precisa ter carro, mas não carro de luxo.
Eu nunca vi um Papa dizer que o povo exige simplicidade e despojamento de pessoas consagradas.
Eu nunca vi um Papa falar a palavra corrupção.

Eu nunca vi um Papa falar de políticos corruptos.
Eu nunca vi um Papa falar de sacerdotes corruptos.
Eu nunca vi um Papa falar do escândalo do Vatileaks.
Eu nunca vi um Papa dizer a palavra Vatileaks.
Eu nunca vi um Papa dizer: que belo serviço esse Senhor presta à Igreja, não? – a respeito de um monsenhor envolvido num escândalo de milhões de dólares Eu nunca vi um Papa dizer que sacerdote que age mal merece punição.

Eu nunca vi um Papa dizer que recusou o apartamento papal para evitar gastar dinheiro com psiquiatras.
Eu nunca vi um Papa dizer que não consegue viver só: solidão faz mal a ele.
Eu nunca vi um Papa dizer que precisa de contato com pessoas diferentes.
Eu nunca vi um Papa achar o inconformismo dos jovens muito lindo.

Eu nunca vi um Papa dizer que quer agito.
Eu nunca vi um Papa dizer que é preciso ouvir os jovens.
Eu nunca vi um Papa dizer que os velhos devem abrir a boca.
Eu nunca vi um Papa dizer que os jovens têm que deixar os velhos falarem e escutar o que dizem.

Eu nunca vi um Papa perguntar: está claro?
Eu nunca vi um Papa dizer que a utopia não é sempre negativa: utopia é respirar e olhar adiante.
Eu nunca vi um Papa dizer que é indisciplinado.
Eu nunca vi um Papa dizer enfant terrible.
Eu nunca vi um Papa dizer que quer tratar gente como gente.

Eu nunca vi um Papa dizer que não conhece mãe por correspondência: mãe acaricia, toca, beija, cuida, alimenta, ama.
Eu nunca vi um Papa fazer gesto de embalar um bebê no colo.
Eu nunca vi um Papa repetir esse gesto e sorrir como um bebê.
Eu nunca vi um Papa dizer que uma Igreja distante das pessoas é como uma mãe que se comunica com seu filho por carta.

Eu nunca vi um Papa dizer a palavra outsider.
Eu nunca vi um Papa dizer que a Igreja precisa sempre ser reformada: coisas que serviam em outras épocas, agora não servem mais.
Eu nunca vi um Papa dizer que a Igreja tem que ser dinâmica e responder às coisas da vida.

Eu nunca vi um Papa dizer que não gosta de jovem que não protesta.
Eu nunca vi um Papa dizer que às vezes a experiência da vida é um freio.
Eu nunca vi um Papa dizer que os jovens não devem sermanipulados.
Eu nunca vi um Papa dizer que tem muita gente querendo manipular os jovens.

Eu nunca vi um Papa dizer que manipulação é um perigo.
Eu nunca vi um Papa usar a expressão feroz idolatria do dinheiro.
Eu nunca vi um Papa dizer que quem manda hoje é o dinheiro.
Eu nunca vi um Papa dizer que a política no mundo atual é economicista, autossuficiente, sem qualquer controle ético.
Eu nunca vi um Papa dizer que para sustentar esse modelo há uma política de exclusão de jovens e idosos: eles não produzem, não servem para nada.

Eu nunca vi um Papa dizer que o jovem e o velho estão no mesmo barco.
Eu nunca vi um Papa dizer que criança morrendo de fome e sem educação, mendigos morrendo de frio no inverno, gente doente sem acesso a tratamento, nada disso é notícia.
Eu nunca vi um Papa dizer que quando as Bolsas das principais capitais perdem três ou quatro pontos isso é tratado como uma grande catástrofe mundial.

Eu nunca vi um Papa perguntar: compreende?
Eu nunca vi um Papa falar de humanismo desumano que estamos vivendo.
Eu nunca vi um Papa dizer que é preciso defender uma realidade humana, valores éticos.
Eu nunca vi um Papa dizer que cada religião tem suas próprias crenças e que é preciso respeitar a fé de cada um.
Eu nunca vi um Papa falar que não interessa ficar brigando por questões de fé, o que interessa é que todos se juntem para acabar com o sofrimento alheio.

Eu nunca vi um Papa dizer que se tem uma criança com fome e sem educação, o que importa é que ela deixe de ter fome e tenha educação.
Eu nunca vi um Papa dizer que ninguém pode dormir tranquilo enquanto isso existir.
Eu nunca vi um Papa dizer que a única saída é sair de si mesmo.

Eu nunca vi um Papa filosofar.
Eu nunca vi um Papa falar de construir uma vida feliz.
Eu nunca vi um Papa dizer que vai sentir saudade.
Eu nunca vi um Papa dizer que já está sentindo saudade.
Eu nunca vi um Papar dizer a palavra saudade.
Eu nunca vi um Papa que sente.

Eu nunca vi um Papa que tem cara de gente.
Eu nunca vi um Papa de quem a gente sente saudade.
Eu nunca vi um Papa agente.
Eu nunca vi um Papa gente.
Eu nunca vi.
Eu nunca vivi.

Postado por: Claudio Pfeil, brasileiro em Paris

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