Linda Susan

Linda Susan

Graduada em Nutrição e mestrado em Ciências dos Alimentos pela Universidade Federal da Paraíba. É consultora do PAS/Mesa. Atualmente é professora da Escola de Nutrição da UFBA.

A importância da cachaça como produto turístico brasileiro

linda_susan234x132

Cachaça, aguardente de cana ou pinga é uma bebida alcoólica tipicamente brasileira. Originada da velha língua ibérica – cachaza – significando vinho de borra, um vinho inferior bebido em Portugal e Espanha, ou ainda, de “cachaço”, o porco, e seu feminino “cachaça”, a porca. Isso porque a carne dos porcos selvagens, encontrados nas matas do Nordeste – os chamados catitus – era muito dura e a cachaça usada para amaciá-la.

Fátima Quintas, antropóloga, fala sobre “Patrimônio: o sentimento de pertença”, que define da seguinte forma: “o que dá dignidade a uma pessoa é a segurança de pertencer a alguma genealogia – tanto biológica como cultural. O mundo está carregado de símbolos que fazem parte da nossa biografia individual e coletiva. O homem solto no universo, sem história, sem tradição, sem origem cultural, é um homem desterrado”.

Tânia Kaufman, historiadora, discorrendo sobre A Memória Judaica no Mundo do Açúcar, mostra, para a admiração de muitos, que diversos costumes arraigados na cultura do Nordeste têm origem no judaísmo, a exemplo do fato de muita gente não comer carne de porco e colocar pedras (ao invés de flores) em cruzes de beira de estrada.
Portanto, conhecer um pouco do processo inicial de colonização da Paraíba, nos dá uma idéia deste pertencimento.

Na Paraíba o desenvolvimento da cana-de-açúcar foi determinante na formação sócio-cultural e econômica do Estado. Atualmente há 16 engenhos paraibanos em funcionamento e estão situados nos seguintes municípios: Alagoa Grande, Alagoa Nova, Areia, Bananeiras, Borborema, Conde, Cruz do Espírito Santo, Guarabira, João Pessoa, Pilar, Pilões, Pitimbu, Santa Rita, São Miguel de Taipú, Sapé e Serraria.

Na microrregião do Brejo Paraibano encontra-se inserida na história da civilização do açúcar no Brasil. Porém, com engenhos de porte inferior aos do litoral. Desde os primórdios deste território, no limiar do século XVIII, registra-se a propensão natural de suas terras para o plantio da cana. Os engenhos de cachaça e rapadura do Brejo representam os verdadeiros símbolos deste passado histórico e culturalmente rico. Conseqüentemente, seus produtos também carregam esta característica distintiva.

De acordo com a abordagem dos sites symboliques d’appartenance , ressalta-se os aspectos imateriais do território, no contexto de um processo de desenvolvimento local, bem como o próprio território e suas especificidades. Esta abordagem parte da ídeia de território e da ênfase posta sobre as interações entre os seus atores, que formam suas crenças, seus valores, suas tradições, seus costumes etc. Entretanto, essas interações não são apenas endógenas, uma vez que o local encontra-se aberto ao exterior. (Zaoual, 1999; Pavot et al, 1999; Zaoual, 1998).

No âmbito de um processo de desenvolvimento local, a consideração das particularidades do território é essencial, diante da ampla diversidade que cerca a sua existência. A singularidade de cada local está intimamente relacionada com a sua identidade. Sob este aspecto, para Zaoual (1998), todo sistema de atores é único e nenhum lugar é idêntico a outro
A valorização dos produtos dos engenhos no contexto de um processo de desenvolvimento local foi marcada pela integração e participação dos atores sociais do território. Entretanto, a iniciativa desencadeante foi o Programa COMPET Sucroalcooleiro, coordenado pelo governo do estado da Paraíba. Este programa foi concebido e executado com vistas a promover a revitalização do pequeno setor produtivo artesanal, com ênfase na qualidade de seus produtos.

As novas necessidades dos consumidores de serviços turísticos podem coadunar-se com as práticas locais dos atores. De acordo com o Ministério do Turismo, “o roteiro é caracterizado por um ou mais elementos que lhe conferem identidade. É definido e estruturado para fins de planejamento, gestão, promoção e comercialização turística”.
Para estimular o desenvolvimento local, a revitalização ou até mesmo a descoberta de filões turísticos no local ocorreriam tomando como base suas raízes históricas, culturais, suas tradições, suas crenças, seus valores herdados ao longo de sua existência e perpetuados às novas gerações.

De acordo com as novas necessidades do Turismo, os engenhos do Brejo em que, por um lado, o turismo rural e histórico, abrangendo estas antigas unidades produtivas, é considerado uma via alternativa para a valorização do território e de seus produtos artesanais. Por outro lado, a própria existência secular dos engenhos é o fator que impulsiona a atividade turística. Assim, há um movimento interativo, marcado pela ação recíproca entre estas duas atividades econômicas, convergindo na promoção da valorização do território. Isto se deve à manutenção dos aspectos simbólicos do lugar.

Estas estratégias buscam realçar os elementos imateriais que giram em torno dos engenhos: a história: a tradição; a cultura; os costumes; as práticas do saber-fazer acumulado nas atividades de produção de cachaça e rapadura. Desta forma planejar roteiros turísticos baseados nos elementos imateriais e na produção da cachaça nesta região, é uma estratégia de desenvolvimento regional e de divulgação do saber fazer do povo paraibano.

Linda Susan

Mais postagens de Linda Susan