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Corra! (Get Out), o chamado “melhor filme de 2017” quer te dizer algo

Atualizado em: 26/05/2017

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O filme Corra! (Get Out) está sendo bastante comentado nos EUA por utilizar o terror para criticar, de forma agridoce, os problemas raciais do país. Entenda mais sobre o filme, abaixo:

Corra! (Get Out), o chamado “melhor filme de 2017” quer te dizer algo
Mais que um filme ou uma história, Get Out quer te contar uma mensagem

Parece bem óbvio, mas muitas vezes esquecemos que todo filme possui um propósito. Entreter com risadas, suspiros e sustos, mostrar uma realidade específica, teorias de como o mundo se comporta ou de como as pessoas poderiam se portar em sociedades distintas, fazer denúncias, mostrar a realidade.

A ideia para fazer Get Out, filme do comediante e cineasta Jordan Peele, surgiu de uma esquete no famoso show de stand-up de Eddie Murphy, Delirious, de 1983, em que ele conta sua experiência de, sendo negro, visitar a família de sua namorada branca no subúrbio e o quão aterrorizante isso poderia ser, a ponto de o fantasma mandá-lo embora pra não ficar cercado de, bem, pessoas brancas.

A questão racial nos Estados Unidos é mais acentuada que aqui (não pior, não melhor, apenas enterrada num contexto diferente) e, pós administração Obama, foi como se o racismo não mais existisse, “pronto, temos um presidente negro, não precisamos mais falar disso”. Mas, para as pessoas negras, claro, muitas de suas realidades permaneceram as mesmas, assim como a discussão de cor de pele como um todo.

Em Get Out, Chris Washington é um fotógrafo que vai viajar com a namorada para conhecer os pais dela no subúrbio. Ele, negro, indo para um bairro de brancos. “Vai ficar tudo bem”, diz a namorada, “meu pai sempre diz que votaria no Obama pela terceira vez se fosse possível”.

Peele foi um bom diretor aqui. Usou os recursos de um filme de terror no limiar entre o desesperador e o bobo pra poder dizer seu ponto, o quão horripilante e ridícula pode ser a relação interracial nos Estados Unidos. A câmera se move do jeito certo, na velocidade certa pra mostrar as coisas certas, nos deixando cada vez mais confusos, desorientados, com medo nas situações mais corriqueiras.

A hostilidade é constante, a sensação claustrofóbica que vai se acentuando, a sensação desorientada do protagonista, “será que eu tô sonhando tudo isso?” vai deicando tudo estranho e desconfortável, os cortes abruptos, as interpretações vagas das pessoas que frequentam a casa, letárgicas, ambíguas. Seriam ela inocentes, bobas, seria tudo isso parte de algo maior?

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E é tudo bem engraçado, mesmo que a risada saia engasgada, meio agridoce.

A tragédia.

Agora, a direção sábia e os desdobramentos da história vão importando cada vez menos a medida que vamos pegando que, mais que fazer uma película, mais que contar uma história de terror ou engraçada, Peele quer passar a mensagem pra gente, pra quem assiste, do racismo ainda existente, da realidade complexa que envolve tudo isso, do fetichismo em ter alguém negro por perto, ainda mais na realidade estadunidense (aqui o fetiche é igualmente maluco). E o filme, não como “cinema” mas como mensagem, como ferramenta pra um propósito, funciona bem demais.

“Tá vendo essa trama maluca e doida aqui? Isso é só mais uma terça pra gente”, Get Out vai falando todo o tempo.

Só que é mais tenso ainda na vida real e certamente menos engraçado.

Fonte: Papo de Homem

 

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