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“Negra, periférica, nordestina”: modelo que fez história em concurso é mulher inspiradora

Atualizado em: 06/11/2017

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O concurso de modelos “Supermodel Of The World Brasil”, realizado pela agência Ford Models, sempre lançou grandes nomes como Adriana Lima, Mariana Weickert, Camila Queiroz, entre outros nomes famosos. Mas, desde que foi criado, em 1980, nos Estados Unidos (e desde 1994 no Brasil), nunca uma negra havia vencido a competição. O tabu foi quebrado pela baiana Ana Flávia Santos, de 19 anos, nascida e criada na periferia de Salvador.

Em entrevista ao Vix, ela falou sobre sua vitória, as dificuldades ao longo da vida e os sonhos para o futuro. “Sempre vou bater nessa tecla de ter representado minha cor, minha cidade, meu Estado. Ter sido a primeira negra a ganhar foi muito bom para mim, fiquei muito lisonjeada. Mas foi um impacto quando vi que meu nome foi anunciado, fiquei estarrecida, sem acreditar. A única coisa que eu tive para fazer foi sorrir, porque não veio nada na minha cabeça”, conta ela, que era a única negra entre todas as concorrentes.

 

História de vida

O caminho até aqui não foi fácil. De família humilde – o pai é pedreiro, atualmente desempregado, e a mãe trabalha com serviços gerais em uma lanchonete – Ana nunca havia trabalhado como modelo, até que surgiu a oportunidade de participar do concurso. “Coloquei muito currículo para tentar trabalhar. Tomei conta do meu primo para minha tia por um tempo. Até que fui chamada para um treinamento em um shopping de Salvador e, no último dia, conheci uma pessoa que pediu para que eu fosse à loja dele me inscrever para um concurso de outra agência. Só que não pude ir. Aí ele me mostrou ao cara que estava selecionando as meninas, que pediu para eu ir à agência e tudo começou”, explica.

Desde esse período ela passou a ser preparada profissionalmente. Participou de desfiles e concursos em Salvador, até que entrou para o concurso da Ford, realizado em São Paulo. “Nunca tinha viajado de avião, nem saído da Bahia, é a primeira vez de tudo”, diz.

Preconceitos

Ana Flávia diz que já sofreu preconceitos por causa da cor de sua pele e do seu cabelo crespo. “Apesar de Salvador ser uma cidade com grande população negra, existe preconceito. Na minha adolescência e infância também sofri bullying por causa da minha estética, por ser magra, coisas que doíam, mas que hoje não fazem diferença. A gente aprende com a vida”, diz. Ela quer agora se tornar uma referência para outras meninas, assim como muitas famosas foram para ela.

“No mercado da moda ainda faltam negras. No desfile recente da Victoria’s Secret tinham quatro negras e já fiquei tão feliz! Mas quero ver mais negras. Estamos conquistando nossos espaços e a gente merece ter nossa representação, independente do setor. É muito bom se ver em alguém. Quando você aparece na mídia, é mais fácil a identificação, como muitas já estão se identificando comigo: a menina negra que veio de um bairro periférico de Salvador. Agora pretendo dar meu melhor para ganhar meu espaço também, fazer com que as pessoas me reconheçam pelo meu nome”, explica.

Em seu Instagram, ela publicou uma foto logo após o concurso e, na legenda, disse estar fazendo história por ter vencido o concurso da Ford. “Sei que estou fazendo história porque nenhuma negra tinha ganhado. Acho que é um peso que eu vou ter que aguentar, mas não é um peso ruim. E quanto mais meninas negras nos representando pelo mundo, como modelos ou em outras áreas, melhor. Falta isso, sabe? Ver mulheres negras para nos inspirar. E fico muito feliz em receber mensagens de pessoas dizendo que ficaram felizes com minha vitória, não apenas por ser negra, mas por ser negra, baiana, nordestina e ter ganhado o concurso”, afirma.
Mulheres negras

Entre suas referências estão as mulheres empoderadas, que têm orgulho da sua cor e lutam em prol de outras mulheres. “A Naomi Campbell inspira muita gente. A Taís Araújo também, é uma mulher que faz de tudo em relação ao empoderamento negro. Tem também a Rihanna, que sou fã. E a Beyoncé, que gosto muito. É uma mulher negra que faz questão de dizer que é negra, é empoderadora”, conta.

A atriz Taís Araújo foi uma das primeiras pessoas a divulgar, com orgulho, a vitória de Ana Flávia no concurso. Para a modelo, foi uma emoção. “Não tinha visto, até que me marcaram na publicação. Fiquei em êxtase, meu coração disparou”, lembra.

 

Transição capilar

Outra questão apontada por Ana Flávia é em relação às mulheres que estão cada vez mais aceitando seus cabelos crespos e cacheados naturais e abrindo mão dos procedimentos químicos para alisar. “Isso é muito bom, porque a pessoa deixa de ficar tentando entrar em um padrão no qual ela não se adequa. Por que a gente tem que ficar alisando o cabelo para se adequar? Eu alisava meu cabelo pra que mesmo? Para quem? Mas a gente evolui, passa a pensar melhor. A Taís Araújo mesmo alisava e fez transição, ela tem um cabelo maravilhoso. Eu não gostava do meu cabelo e alisava com prancha. Nunca fiz química. Até que em 2014 cortei curtinho e, desde então estou com ele natural. Eu estava cansada de passar prancha todo dia, amassava, tinha que passar de novo, cansei. E foi um estímulo ver tantas meninas assumindo o estilo natural, cada cabelo maravilhoso. Tomei coragem, cortei, e foi a melhor coisa que eu fiz”, diz.

 

Planos para o futuro

Ao vencer o concurso, ela ganhou como prêmio R$ 150 mil em contratos. A expectativa agora é de trabalhar muito, viajar bastante, fazer bem seus trabalhos e conquistar o mundo através do seu esforço. Ela ainda não está definitivamente em São Paulo, vai voltar para Salvador e só um pouco mais para frente é que irá outra vez para a capital paulista e para fora do Brasil. “Já estou começando a conquistar meus sonhos, que são ser modelo e dar uma vida melhor para minha família. Agora vou ter mais condições e esse é um dos meus principais objetivos. Quero mudar a vida deles e a minha também”, diz.

Para as meninas que sonham em um dia chegar onde ela chegou, Ana tem um recado. “É preciso confiar em si mesmo, acreditar nos sonhos e correr atrás dos objetivos, independente o que for. Eu passei por várias coisas até chegar aqui. Muitas pessoas gostam de falar mal, mas não têm a capacidade de fazer. Sofri preconceitos e hoje estou conquistando passo a passo meus objetivos e ainda quero conquistar mais. Acho que isso serve como lição e como inspiração”, finaliza.

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