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Maternidade no freezer: congelamento de óvulos é hype na medicina reprodutiva

Atualizado em: 23/04/2014

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Ao completar 30 anos, em 2005, a jornalista Chris Mello resolveu congelar seus óvulos. Naquela época a técnica ainda engatinhava e era pouquíssimo disseminada. Mesmo assim, despertou o interesse da tech freak e sabe-tudo de anti-aging. “Eu não tinha a menor vontade de me casar, só pensava no trabalho”,conta. “Mas ,ao mesmo tempo em que me achava uma menina, era um incômodo saber que meu organismo, assim como o de toda mulher, envelheceria rápido.”
Hoje estrategista digital de uma das maiores agências de publicidade do País, Chris não hesitou em desembolsar R$ 15 mil e se submeter a aplicações diárias de hormônios que a faziam inchar e encarar o dia a dia com os sentimentos à flor da pele. “Eu ficava histérica”, lembra ela. O tratamento rendeu 15 óvulos saudáveis, descartados por precaução em 2009, quando Chris soube que seu médico estava sendo investigado por manipulação genética. “Enquanto os mantive congelados, eliminei qualquer pressão pessoal ou externa para me apressar em ter filhos”, conta.
Desde o surgimento da pílula anticoncepcional há mais de 50 anos, quando as mulheres passaram a ter controle sobre a própria fertilidade, as técnicas para adiar a gravidez – seja em nome da estabilidade profissional, pela falta do parceiro ideal ou por questões de saúde –evoluíram em ritmo veloz. O mesmo não aconteceu, entretanto, com os recursos para prolongar a fertilidade e afastar o fantasma do relógio biológico. Ou seja, tínhamos um rico arsenal em mãos para evitar a gravidez, mas a cada período fértil sentíamos o peso e a culpa de estarmos “jogando fora” um item “ameaçado de extinção”.
Mas esse cenário está finalmente mudando. No último ano, o congelamento de óvulos virou o hype da vez na medicina reprodutiva. Não existem registros nacionais sobre o número de procedimentos realizados – em 2002 nasceu o primeiro bebê brasileiro pelo método –, mas os dados de uma das principais clínicas especializadas do País, o Grupo Alfa, de São Paulo, comprovam que o tratamento está em alta. Entre 2009 e 2013, os congelamentos feitos ali cresceram 86%. A evolução da técnica, que sempre foi um desafio na área de reprodução assistida é a principal responsável por esse aumento.

O sêmen é congelado com sucesso há mais de 50 anos; e os embriões são há 20. No caso dos óvulos, entretanto, sempre foi uma tarefa árdua congelá-los sem que os cristais de gelo danificassem o DNA de seu interior. Para completar, as alterações cromossômicas geradas no processo podiam inviabilizar a utilização. Com o surgimento da vitrificação no fim dos anos 90 – que congela em poucos minutos os óvulos a -196 °C em nitrogênio líquido, preservando sua estrutura –, estima-se que as chances de aproveitamento do material por mulheres que se submetem ao procedimento antes dos 30 anos são de até 90%. Com mais chances de sucesso, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva removeu a prática da lista de técnicas experimentais no fim de 2012 após analisar cemestudos que atestavam a boa saúde dos 900 bebês nascidos por óvulos congelados no mundo até então – a estimativa é que hoje sejam cerca de 2.000 crianças. Além disso, o órgão deixou de criar empecilhos contra o uso do método por mulheres saudáveis que querem postergar a maternidade,em vez de recomendá-lo apenas às pacientes em tratamentos contra o câncer que podem causar esterilidade.

Segundo um estudo americano, a taxa de sucesso da fertilização in vitro com óvulos congelados é a mesma dos óvulos frescos: de 30% a 50% por tentativa. O segredo é congelar os óvulos cedo. É que, na contramão da quantidade de células reprodutivas femininas, que diminui com o passar do tempo, a taxa de alterações cromossômicas presentes nos óvulos aumenta, o que pode gerar bebês com problemas. Mesmo com essas ressalvas,o procedimento traz paz de espírito para mulheres de todas as idades.Aos 37anos, a paulistana Tatiana Zanola sabe bem disso. No mês passado ela congelou dez óvulos. Separada e com um alto cargo em uma empresa farmacêutica, a executiva diz que só se sentirá plena quando tiver filhos, mas teme o histórico de menopausa precoce da família – sua mãe chegou lá aos 43; e uma tia ,aos 35.

 

Fonte: Vogue

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