Beleza e Moda

“Estou bem com o espelho”, diz modelo plus size

Atualizado em: 21/04/2013

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Desde que o pintor renascentista Sandro Botticelli deixou de lançar suas tintas em telas, em 1510, muita coisa mudou no mundo. Sobretudo, suas modelos. São de Botticelli os quadros de mulheres curvilíneas e corpulentas, com barrigas salientes, bumbuns arredondados e dobrinhas que enchiam os olhos (e as paredes das casas) da alta sociedade europeia do século 16. Cinco séculos depois, o padrão de beleza feminino exige saboneteiras saltadas, barriga negativa, poucas e contidas curvas. Na década de 60, a modelo inglesa Twiggy surgiu de minissaias, pernas magérrimas e instaurou seu biotipo seco como padrão de beleza. Anos mais tarde, a magreza passou de padrão à ditadura e a gordura se transformou em sinônimo de desleixo, indisciplina, feiúra. No século 21, é tabu ser gordo.

A jornalista Sylvia Barreto, 29 anos, de São Paulo, conta com sorriso o preconceito que sofre por ter 97 quilos distribuídos em 1,72m de altura. Sylvia é uma mulher bonita, com coxas e seios fartos e uma cintura bem marcada. Chama a atenção por onde passa: os homens olham-na com desejo, as mulheres, com reprovação. “Para mim, beleza é muito mais do que magreza. Aprendi a me aceitar. Tenho muito prazer em comer, sempre peço sobremesa. Mas muita gente não me aceita, me julga”, afirma Sylvia. “Ser chamada de gorda não é mais um xingamento para mim. Até porque ganho dinheiro com isso.” Há dois anos, ela é modelo plus size, um mercado em ascensão tanto no Brasil como no mundo.

Antes de trabalhar com moda, no entanto, Sylvia foi alvo de piadas maldosas no trabalho. Um de seus chefes sugeria, jocosa e diariamente, que ela doasse gordura para uma colega mais magra. “Um outro me fez jantar com toda a equipe e, ao ver meu prato de massas, perguntou: ‘Nossa, vai comer tudo isso sozinha? Quanto você pesa?’”. O caso de Sylvia não é isolado. O mercado de trabalho reage mal ao sobrepreso da população. Uma pesquisa feita,em 2011, pela Catho, empresa de recrutamento online, aponta que quase 10% dos empregadores se recusam a contratar obesos.

O preconceito se baseia na ideia de que gordos não são bem-sucedidos.“O estereótipo de pessoa de sucesso hoje é branca e magra. E todos querem estar na classe dos bem-sucedidos, se relacionar com eles”, afirma a terapeuta Regina Favre, do Laboratório do Corpo, em São Paulo. “O preconceito contra o gordo é como o preconceito contra o pobre: imagina-se que ele não sabe comer, não viaja, não anda em lugares legais”, diz. A opulência dos corpos do século XVI expressavam justamente o contrário: saúde, fartura, bom nível social. Os valores desejados seguem os mesmos, mas aquilo que os simboliza mudou. “A gordura em excesso na sociedade contemporânea significa ausência de disciplina”, afirma o antropólogo Roberto DaMatta. “E disciplina é extremamente valorizada, inclusive no que se coloca no prato ou nas horas que se passa na academia.”

É improvável que o padrão de beleza se altere a ponto de recuperar as musas de Botticelli como referência. Para Sylvia, porém, isso não importa. Ela já fez dietas malucas, chegou a desmaiar de fome e pesou 40 quilos menos do que tem hoje. Nada disso a fez feliz. “Não trocaria meu corpo pelo de uma mulher magra. Sou vaidosa, gosto de me cuidar, me maquiar. Penso que tenho que estar bem com o espelho. Eu estou. E isso me basta”, diz. É o primeiro passo para quebrar o tabu.

Marie Claire

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