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O ódio nosso de cada dia: a intolerância nas redes digitais

Atualizado em: 08/02/2017

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“Fã da Campus Party, empolgada moderei, na sua 10ª edição, o painel “O ódio nosso de cada dia”, convidada pela futurista Marina Miranda, curadora do evento. Pareceu para mim que a combinação não poderia ser melhor: painel sobre comportamento nas redes sociais, especialmente falando de intolerância e desrespeito, no palco Inovação. Comecei, então, as pesquisas para o roteiro do painel, afinal estariam nele grandes especialistas em comportamento digital: Tatiana Tosi, especialista em Netnografia, Fábio Mariano Borges, da ESPM e Claudio Pinhanez, da IBM Research, profissionais que analisam e estudam com profundidade os resultados desse comportamento.

Uma pesquisa publicada em agosto de 2016 baseou boa parte do material que preparei, realizada pelo projeto Comunica que Muda, iniciativa da agência nova/sb, que entre abril e junho de 2016 usou um algoritmo que monitorou em plataformas como Facebook, Twitter e Instagram menções sobre temas que geram discussões inflamadas, como racismo, política e homofobia.

84% das 393.284 menções levantadas pela busca trouxeram mensagens negativas, revelando um conteúdo preconceituoso e de discriminação. 56% das mensagens que foram analisadas falavam sobre política e 97,4% delas traziam menções negativas.

Em segundo lugar, com 13% das menções, ficou a desigualdade de gênero. Realmente muita gente ainda não compreendeu que os direitos são iguais, disseminando mensagens que alimentam a cultura do estupro, entre outras agressões, como a pornografia de vingança. No ano passado, a ONG Safernet, que promove direitos humanos na internet, recebeu 322 denúncias de exposição íntima on-line.

O mundo é preconceituoso ou o brasileiro é preconceituoso?

“Cadê aquele povo hospitaleiro?”, é a pergunta que não me canso de fazer. Segundo Fabio Mariano, as redes sociais nos permitem trazer à tona nossas diferentes personas e nelas mostramos facetas que muitas pessoas não conhecem. Normalmente somos exatamente aquilo que mostramos. Mas essa não é uma exclusividade do nosso povo. Claudio Pinhanez conta que 40% dos tweets em língua inglesa trazem mensagens violentas e racistas.

A verdade é que na solidão da interação temos a tendência de, quando provocados, não pensar para contestar, abrindo assim a possibilidade para reações exageradas. Nosso corpo responde química e fisicamente às emoções, por isso sempre é melhor respirar antes de impulsivamente agir.

Até onde vai liberdade de expressão nas redes sociais?

Além da intolerância visível, onde quem agride não mede palavras e é muito explícito em suas colocações, ainda há comentários que podem passar despercebidos, pois já fazem parte da cultura ou do comportamento tido como “aceitável” para um determinado grupo social. Como quando uma mãe do Rio de Janeiro postou o bilhete recebido da professora de música, sugerindo que seus gêmeos, que orgulhosamente ostentavam seus cabelos cacheados, soltos, prendessem ou cortassem os cabelos e que isso a deixaria mais feliz. Fabio Mariano lembra que as estatísticas de comentários negativos, quando levantadas por meio de ferramentas de monitoramento, se baseiam na análise de palavras também consideradas negativas, mas que pode haver muito preconceito e violência em uma mensagem bem escrita, que não carregue uma palavra de ódio, sequer. Ou seja, esse número pode ainda ser pior.

Ainda assim, ele mesmo faz uma retrospectiva e nos mostra como a sociedade avançou ao longo dos anos, com a criação de novas leis e regras. Usou como exemplo a época em que o marido era legitimado a bater na esposa e nos filhos. Mais uma vez, cabe lembrar que toda mudança de comportamento social chega sem regras e a experiência nos mostra a necessidade de leis. Crimes virtuais têm punição e certamente moldarão o comportamento do público, criarão parâmetros de certo e errado nas redes digitais.

Mundo real vs. mundo virtual

O racismo, também com forte presença nas redes sociais brasileiras (97,6% de menções negativas no estudo Comunica que Muda), nos lembra que a intolerância nas redes realmente reflete a real no nosso país: a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil; a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada. Nos últimos anos aumentou em 54% o número de mulheres negras violentadas, ofensas homofóbicas e pornografia de vingança levaram jovens ao suicídio.

Perguntei a Pinhanez com ele avaliava a experiência da Microsoft com Tay, a garota-artificial que foi exposta em uma rede social para “aprender” com os usuários a conversar como humana e em 24 horas transformou-se de adolescente puritana em garota nazista, preconceituosa e ninfomaníaca. “10 como experiência de engenharia, mas não teve o mesmo sucesso como experiência social”. A redes sociais são uma extensão da vida real, isso é fato.

Você é o que você curte

A internet proporciona a maior concentração de informação disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, a qualquer um. Nem tudo é verdadeiro, mas definitivamente há material suficiente para que possamos advogar com segurança em muitas causas. No entanto, não se iluda, os algoritmos das plataformas sociais selecionam através das nossas preferências o conteúdo mais aderente e, assim, nos fazem ver mais do mesmo, nos aproximando de usuários que pensam como nós e fazendo com que os que têm pensamentos divergentes nos pareçam isolados em suas convicções. Isso significa que não estamos sempre certos, mesmo que pareça que sim.

Coincidentemente, logo cedo, no dia em que aconteceu esse debate, foi anunciada a morte da ex-primeira dama, Marisa Letícia. Uma enxurrada de ódio invadiu a manhã (embora, graças às minhas escolhas, os algoritmos entenderam que esse tipo de mensagem não é do meu interesse, então não as li) e o assunto foi trazido ao painel, quando perguntamos se haveria fim a tanta maldade espalhada nas redes.

Tanto Tati Tosi quanto Fabio Mariano concordaram que essa guerra está apenas começando. Primeiro, porque a sociedade avança, mas não progride, necessariamente. Temos escolas com um modelo de educação antiquado e pais e professores despreparados para lidar com tantas mudanças. Velhas receitas provavelmente não funcionarão. Cabe a nós, então, aumentar o monitoramento sobre nossos filhos e ter calma na hora de interagir. Não somos 100% bons, mas podemos melhorar a tolerância e a sensatez”.

 

Fernanda Nascimento

Publicado originalmente em: Rede Mulher Empreendedora

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